Idênticos

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Sinto minhas pálpebras pesarem enquanto dirijo o Prisma pelas estradas mineiras. Não me lembrava do meu antigo lar ser tão longe assim, mal vejo a hora de respirar o verdadeiro oxigênio dos bosques e acariciar os animais no qual eu tanto amava quando era apenas uma menina inocente. Me odeio por ter deixado a casa da minha mãe por um longo tempo, crescer é uma merda.

Olho através do retrovisor, meu anjo estava dormindo com o cobertor tampando todo o seu corpo. Eram três da manhã e ele já dormia desde ás seis da noite, eu não poderia culpa-lo, deve estar sendo difícil para uma criança de apenas dez anos passar por tudo no qual ele já passou. Foi tudo culpa minha, amando uma pessoa na qual verdadeiramente não me amava. Um dia ele terá que me perdoar, eu já devia ter feito essa escolha a muito tempo.

A última vez que mamãe não o vê vai completar oito anos em breve, desde então eles apenas se falam por telefone. E poucas vezes na qual se falavam. Símas sempre foi muito quieto, ele mal conversa com as crianças da sua própria idade. Eu já desisti de tentar mudar seu jeito de ser. Eu sempre fui comunicativa, não entendo por que ele é assim... A não ser que tenha puxado o gene desgraçado de seu pai.

Noto o pensamento terrível que acabo de ter sobre o meu próprio filho e me sinto culpada. Não importa, eu o amarei de qualquer jeito e nada ou ninguém poderá mudar isso.

Dou uma olhada rápida no GPS e sua rota me faz entrar em uma nova estrada. Alí, poucos postes de luz foram colocados e não existia muito espaço entre os carros que vinham á toda na direção oposta. Alguns caminhões passavam raspando pelo carro. Eu direciono o carro para o mais próximo possível da direita para me distanciar do perigo.

Muitas árvores fechavam a estrada, me lembro de tantas histórias de terror que minha tia Elida contava sobre estradas no meio do nada, o carona do banco de trás, a mulher sangrenta, até mesmo a loira do retrovisor. Nunca fui de acreditar nessas histórias, mas Arthur, meu amigo de infância, tremia bastante enquanto ouvia a voz ferrenha da tia  Elida. A velha adorava quando o menino aparecia lá em casa, só de vê-la Arthur já mijava nas calças.

Sorrio com a lembrança. Como podia ter esquecido de Arthur todos esses anos? Moleque ruivo, magricela, medroso e acima de tudo um grande amigo. Me sinto uma estúpida por ter aberto mão de todas essas coisas boas por um babaca com sorriso bonito. Pelo menos ele me deu Símas, ele foi o melhor presente que alguém poderia ter me dado, o filho no qual eu tanto desejava.

Minha cabeça dói de leve e sou obrigada a lembrar da noite no qual dei á luz ao meu anjo. Foi um parto complicado, ainda mais pelo fato de que Símas não era o único na minha barriga...

Me acordo de súbito da lembrança quando algo pula do banco traseiro para frente sentando ao meu lado. Meu coração bate forte.

-Símas ! O que eu já te avisei sobre ficar aparecendo assim do nada ?- Suspiro - Você ainda vai me matar, pode apostar.

Ponho uma das mãos nos seios e sinto meu coração palpitando rapidamente.

-Falta muito para chegarmos ? - Diz ele observando a estrada mal iluminada com aqueles olhos negros do seu pai.

-Não... - Observo o GPS - Duas horas no máximo, sente saudade da vovó?

-Não

Me surpreendo com a falta de emoção em sua voz.

-Como assim? Você estava super animado para vê-la novamente. - Sorrio - Relaxe, assim que chegarmos estará um bolo perfeito para você do jeito que você gosta. Morango não é ? Você sempre gostou... Assim como seu pai.

Ele continua olhando para frente, seu único trabalho era piscar tediosamente. Até que depois de um tempo ele abre a boca.

-Tenho coisas mais importante para tratar.

-Ah é - Rio. -Com quem ?

-Com você - Ele vira o rosto pálido e meu coração lança uma pontada de dor pelo meu peito. Seu rosto da parte direita estava totalmente destruída e deformada. Aquilo só podia ser um sonho. Ou o inferno, eu dormi enquanto dirigia e batemos me levando para o tormento de minha alma pelas escolhas burras que fiz na vida.

Com o susto, piso no freio com força me levando a bater a testa de modo violento no volante. O Prisma chega a derrapar enquanto eu perco a visão e desmaio.

Abro os olhos lentamente e sinto uma gota de sangue escorrer da minha testa até meus lábios. Olho para o lado e fico em estado de choque. Ele não estava mais ali, a porta estava aberta dando visão para uma floresta cujo vento faziam as folhas das árvores dançarem.

O pânico vence o choque quando abro a minha porta correndo para a margem da estrada e procurando pelo meu anjo. O que era aquilo em seu rosto? Não poderia ser um sonho... Foi tão real.

-Mamãe? - Escuto o som ás minhas costas, era a voz do meu menino.

Me viro rapidamente e o vejo coçando os olhos e ainda com a coberta na qual estava dormindo. Eu fico sem palavras. A porta traseira agora estava aberta.

-O que aconteceu ? - Ele diz com real inocência esfregando o cobertor em seus braços com frio.

-Nada meu bebê. - Corro para abraça-lo e logo depois voltamos para o carro. - Mamãe está meio louca.


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⏰ Last updated: Sep 13, 2017 ⏰

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