De repente, tudo ficou escuro ao seu redor. Chuck ouvia um som agudo, alto, penetrante. Ele caiu de joelhos, levou uma das mãos ao ouvido e sentiu algo quente escorrer por seus dedos. Sangue.
— Mas que merda... AAH! O quê está acontecendo?! — murmurou para si mesmo, enquanto a dor em seus ouvidos latejava como facas rasgando sua carne.
O barulho prosperava, cada vez mais agressivo, mais cruel.
Chuck apoiou a mão no chão. Sua cabeça parecia prestes a explodir. Tonto, sua visão não o ajudava em nada. Não conseguia entender nem a si mesmo, nem o que estava acontecendo, nem por que estava preso naquela estranha situação.
Então, como num súbito, tudo começou a cessar aos poucos. O som. A tontura. A visão turva.
Quando finalmente conseguiu retomar os sentidos, olhou desesperado para todos os lados, tentando buscar informações sobre onde estava. Mas tudo era breu. Sua mão tateou o chão, sentindo areia e barro úmido. A brisa fria batia em suas costas. Ele percebeu que estava ao ar livre. Levantar e procurar um rumo parecia a melhor opção. Precisava encontrar um ponto de luz, uma referência, qualquer coisa que o ajudasse a se localizar. Mas nada. Seus olhos ainda não estavam adaptados à escuridão sufocante.
Andar foi sua única ideia. Mesmo sem direção.
Chuck caminhou pelo que julgou serem vinte minutos pelo que aparentava ser uma estrada. Agora, seus olhos pareciam um pouco mais treinados, mais adaptados mas ainda não conseguia ver muito além, mas já não sentia tanto medo. O que o cercava era uma estrada, estranha, vazia, e potencialmente perigosa. Mas isso pouco lhe importava. Sua mente estava dominada por uma única pergunta:
"Como vim parar aqui?"
Mais dez minutos a passos largos, e ele já estava cansado.
Foi então que algo chamou sua atenção.
A seus pés, sua sombra se ergueu, esticando-se para o além diante dos seus olhos. Um feixe de luz nas suas costas. Faróis.
O brilho crescia conforme o veículo avançava. Um alívio. Talvez alguém pudesse ajudá-lo, Ou, pelo menos, tirá-lo dali.
Chuck tentou ser otimista e afastou da mente o pensamento de que, àquela hora, talvez ninguém estivesse disposto a prestar ajuda.
Agora, com as luzes tão fortes que faziam seus olhos doerem, Chuck acenou freneticamente. Mas os faróis continuaram avançando. Rápidos.
— Mas o quê...? Esse idiota não está me vendo?!
Deu mais dois passos em direção ao meio da estrada e acenou de novo, gritando. Nada.
O carro não diminuía a velocidade. Pelo contrário.
A ideia de sair do caminho sequer lhe passou pela cabeça. Ele precisava entender o que estava acontecendo. Quem o deixara ali? Como chegara até aquele lugar...
Não parecia mais uma noite de bebedeira. Ele sempre estava sozinho nessas ocasiões.
- Ou, dessa vez fui longe demais? - Pensou — Além de bêbado, um maluco perdido... já tive dias melhores.
Faltavam poucos metros para o impacto.
"Se eu for atropelado, pelo menos alguém vai ter que me ajudar."
Com seu coração acelerado. Ele gritava e abanava os braços.
O carro avançava. Rápido demais.
Nos últimos segundos, o veículo freou bruscamente, girando. Chuck foi atingido de raspão pela traseira longa da caminhonete. Seu corpo foi arremessado e caiu pesadamente contra o chão.
Mas ele ainda estava consciente.
Com esforço, ergueu os olhos para o carro.
Destruído.
A caminhonete havia capotado algumas vezes. Chuck tentou se levantar, mas suas pernas não respondiam. Ele se arrastou. Metro após metro. Até que tudo escureceu.
⸻
Uma voz doce ecoava em sua mente.
— Chuck... Chuck, acorda. Sou eu.
Ele abriu os olhos vagarosamente.
Alguém estava ajoelhado ao seu lado, sua cabeça ensanguentada repousava no colo daquela figura.
Chuck reconhecia aquela voz. Aquela presença.
Só podia ser...
— Maria? — sussurrou, incrédulo.
Tremendo, levou a mão ao rosto dela e acariciou sua pele macia. Seus olhos se encheram de lágrimas. Ele estava feliz. Confuso. Assustado.
Como Maria havia sobrevivido ao acidente?
Por que não tinha um único arranhão?
Essas perguntas logo desapareceram. Ele apenas se entregou à emoção.
— Mas como você...? — a pergunta morreu em sua garganta.
Não importava.
— Eu te amo tanto, Maria. Eu sinto muito. Não vá embora de novo. Não me deixe...
Maria sorriu com tristeza, acariciando seus cabelos grisalhos.
— Eu não posso, Chuck.
O desespero tomou conta dele.
— Por quê?! Só me diga o porquê!
Ele não queria ouvir a resposta. Ele já sabia.
Maria suspirou. Seus olhos brilharam.
E então, sua pele começou a se desfazer.
Primeiro, uma fina trilha de sangue. Depois, mais e mais, até que seu rosto estivesse completamente encharcado de vermelho. Seu corpo começou a apodrecer diante dos olhos horrorizados de Chuck.
— Porque sou apenas ossos em um caixão, Chuck.
O coração dele parou.
— Porque você me deixou morrer.- A voz dela agora era cheia de ódio. — E tudo que restou da sua vida também vai morrer. Você é um assassino. Você nunca protegeu ninguém. Nem a mim. Nem a si mesmo.
Chuck engoliu em seco.
— Não... eu tentei... eu tentei impedir...
Maria sorriu, mas seu sorriso era cruel.
— Tentar não me faz estar viva agora, faz?
As palavras ecoaram. Repetiram-se. Tornaram-se um grito ensurdecedor. A mulher putrefata enlaçou o pescoço de Chuck, os dedos retorcidos afundando na carne trêmula. Apertou. Apertou mais.
— Você não pode protegê-la... Olhe para mim. Olhe para mim!
— Não... NÃO!
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Fault
HorrorCHUCK TEM SEU MUNDO COMPLETAMENTE DILACERADO. ELE SIMPLESMENTE NÃO CONSEGUE ENCONTRAR UM MODO MELHOR DE LIDAR COM A TRAGEDIA A NÃO SER A PRÓPRIA CULPA A DOR EM SÍ PRÓPRIO ERA GRITANTE, IR EMBORA PARECIA SER A MELHOR COISA A SE FAZER, E ASSIM O FEZ.
