Considero-me uma garota normal. Pelo menos, acho que sim. Moro numa cidade pequena no interior de São Paulo, estou no segundo ano do ensino médio e consigo me virar bem na maioria das matérias — com exceção de história e filosofia. Parece piada, mas é verdade.
Meu namorado é um pouco mais velho, tem vinte anos e estuda engenharia. O mais curioso? Ele é meu vizinho. Crescemos brincando juntos, o que torna tudo ainda mais engraçado.
Nos últimos dias, algo em mim não está certo. Uma sensação estranha vem crescendo, difícil de explicar. Hoje, o que mais sinto é um pressentimento sombrio. Não que eu seja medrosa, mas algo aconteceu...
Voltando para casa, cruzei com um homem parado na esquina. Ele me observava — ou melhor, me encarava — e acenou. Estava de smoking, muito elegante, mas o que destoava era um anel que me pareceu ser de madeira. A distância e a rapidez do momento não ajudaram a entender melhor, mas... aquele homem me deu arrepios. Tentei tirá-lo da cabeça.
Mais tarde, meu namorado percebeu que eu estava estranha. Disse que era só cansaço da semana — o que nem era mentira. Minhas sextas-feiras não costumam ser muito animadas, mas minhas amigas decidiram que hoje eu não ficaria em casa. Passamos uns vinte minutos no telefone.
— Lívia, vamos sair? — insistiu Tayla, minha amiga.
— Desculpa, Tayla. O Mateus vai ficar reclamando — tentei argumentar.
— Vai nada. O Mateus é gente boa. Se quiser, eu mesma ligo pra ele — ela sempre rebatia meus melhores argumentos.
— Você não vai desistir, né? — perguntei, já derrotada.
— Não mesmo. Passo na sua casa às nove — decretou.
Fim da conversa. Como eu não estava muito animada, vesti um tomara-que-caia preto e um scarpin da mesma cor. Como já era de se esperar, Tayla e Jolie chegaram vinte e cinco minutos atrasadas. Tayla ainda implicou com a roupa, disse que eu nem parecia a mesma garota de sempre, aquela que ama moda. Mas Jolie me garantiu que eu estava ótima — e fomos assim mesmo.
Em cidades pequenas, não há muitas opções. Fomos para a churrascaria onde, claro, parecia que toda a população teve a mesma ideia. O lugar estava lotado, parecia um formigueiro.
— Meninas, o que eu dou de presente pro Pedro? — perguntou Jolie. Era aniversário de namoro dela.
— Que tal um perfume?
— Acho melhor aquele relógio que vimos no shopping — opinei. — Você já deu perfume, Tay.
— Tênis? — sugeriu. E assim passamos quase vinte minutos discutindo o presente ideal.
Mas eu já tinha perdido o foco. O homem do smoking estava ali, a poucas mesas de distância. Era impressão minha ou ele estava me seguindo?
Dessa vez, ele não estava sozinho. Acompanhava-o uma mulher muito magra e baixa, de cabelos longos e pretos. Ela usava jeans e um suéter vermelho — roupas simples demais perto do estilo refinado dele.
"Eu tô ficando louca", pensei. Não era possível aquele casal estar me seguindo. Esforcei-me para parar com a paranoia e tentei focar na banda ao vivo — que, sinceramente, não passava do básico que a cidade podia oferecer.
Voltei cedo pra casa. Meu irmão ainda estava com a namorada. Ela não era a cunhada dos sonhos, mas ele gostava dela, o que me obrigava a ser excessivamente simpática.
O Léo tem 21 anos, sempre fez sucesso com as meninas — inclusive com algumas amigas minhas, o que me irritava. Hoje, ele é quase noventa por cento responsável: cursava medicina e só estava na cidade devido às férias. Foi difícil me acostumar com sua ausência, e agora está sendo complicado me acostumar com sua presença de novo. Já os outros dez por cento de irresponsabilidade que restam são totalmente preenchidos com mulheres. Muitas. Coitada da Cláudia.
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Dama do Fogo
Teen FictionSinopse Lívia, junto a outros quatorze adolescentes, foi escolhida nesta nova geração. As expectativas são altas, especialmente porque o anel do fogo - um dos mais aguardados - finalmente receberá um novo magno. Ao ser escolhida, Lívia se vê diante...
