Capítulo 1 - O cargo dos sonhos (ou pesadelos de salto alto)

11 0 1
                                        


Olívia Santino acreditava piamente que saltos agulha e reuniões de pauta tinham algo em comum: ambos podiam ser armas letais nas mãos certas. Naquela manhã, os dela batiam ritmados no mármore da editora Moretti & Co, enquanto a notícia circulava como champanhe em coquetel — ela era a nova editora-assistente. Não que alguém tivesse soltado fogos; colegas de profissão preferiam estocar sorrisos plásticos e apertos de mão mornos. Mas Olívia sabia reconhecer uma vitória quando via uma, mesmo que viesse embrulhada em desconfiança e inveja.

Ela ergueu o queixo, ajeitou a lapiseira prateada entre os dedos e sorriu como quem sabia exatamente o que estava fazendo. Mentira. Não fazia a menor ideia. Mas, como sua avó dizia, insegurança bem vestida passava por arrogância. E arrogância, naquela editora, era moeda corrente.

— Olívia Santino? — A voz grave soou atrás dela, com um sotaque milimetricamente calibrado entre europeu e tentação.

Ela se virou com a precisão de quem ensaiou aquele movimento frente ao espelho umas boas quinze vezes. O homem parado à sua frente tinha o tipo de beleza que deveria vir com um aviso de contraindicação: cabelos escuros, sorriso torto e um terno tão bem cortado que seria um desperdício usá-lo apenas para trabalhar. Alexander Moretti. O chefe. E, claro, o herdeiro da editora que agora constava na assinatura de e-mails dela.

— Em carne, osso e teimosia — respondeu ela, arqueando uma sobrancelha com precisão cirúrgica.

O canto da boca dele se curvou, mas os olhos — de um castanho tão profundo que parecia quase negro — mantiveram a avaliação afiada de quem media exatamente o quanto ela podia incomodar.

— Ouvi dizer que você gosta de desafios.

Olívia inclinou a cabeça, o sorriso nos lábios se alargando só o suficiente para ser interpretado como provocação.

— Só os que valem a pena, sr. Moretti.

Um silêncio carregado se estendeu entre os dois, o tipo de pausa que sugere que ambos estão jogando um jogo cujas regras ainda não foram inteiramente explicadas. O olhar de Alexander escorregou para as mãos dela — unhas curtas, esmalte vinho escuro impecável — e voltou aos olhos. Nenhum dos dois cedeu primeiro.

— Ótimo — disse ele, finalmente. — Vai precisar gostar mesmo. Sua primeira tarefa é revisar o manuscrito de Samara Diaz. Nossos editores estão sobrecarregados e Samara não gosta da maioria. Talvez seja sua chance.

O nome caiu como um cubo de gelo dentro de um copo de uísque. Samara Diaz: a autora mais renomada (e mais temida) do catálogo da editora. Famosa por suas histórias arrebatadoras e por transformar editores em ex-funcionários com a mesma facilidade.
E, pelo que Olívia bem lembrava das fofocas de corredor... ex-namorada de Alexander Moretti.

Ótimo. Só faltava isso.
Ela manteve o sorriso congelado no rosto e respondeu com a doçura venenosa que aperfeiçoara ao longo dos anos:

— Eu adoro literatura explosiva.

Alexander inclinou a cabeça, um brilho de algo indefinível nos olhos.
— Espero que continue adorando. Samara já está te esperando no salão de reuniões. Boa sorte, Santino. Você vai precisar.

***

A sala de reuniões da Moretti & Co era o tipo de ambiente projetado para fazer qualquer um suar sob a gola da camisa: vidro, aço, cadeiras italianas e uma mesa que mais parecia um ringue disfarçado de mobília. Olívia entrou sem vacilar — a regra era simples: nunca demonstre medo onde o cheiro de sangue ainda está fresco.

Samara Diaz já estava lá. Sentada como uma rainha que sabia que o trono era dela, a autora cruzava as pernas com uma elegância letal. Vestido preto de corte minimalista, batom vermelho cor veneno, e um olhar de quem já lera e reescrevera todos os seus oponentes antes mesmo que eles abrissem a boca.

— Olívia Santino. — A voz dela era baixa, aveludada, e carregava a mesma ameaça sutil de um bisturi recém-afiado. — Eu esperava alguém... diferente.

Olívia pousou sua pasta na mesa com um estalo suave e sentou-se à frente dela, sem desviar os olhos.

— Sempre fui adepta de decepcionar expectativas — respondeu, inclinando-se para abrir a pasta com calma deliberada.

O sorriso de Samara foi pequeno, polido. E absolutamente falso.

— Espero que também seja adepta de revisar manuscritos com mais competência do que o último editor. — Ela deslizou um calhamaço de folhas grampeadas até o centro da mesa com a delicadeza de quem entrega uma sentença. — Este é meu novo romance. Eu gosto de perfeição, srta. Santino. Tolerância zero para mediocridade.

Olívia folheou as primeiras páginas com a serenidade de quem lidava com cobras venenosas no café da manhã.

— Não se preocupe, Sra. Diaz. Perfeição é um conceito... flexível. Principalmente quando o ego do autor ultrapassa o tamanho do manuscrito.

O ar ficou mais frio. Samara apoiou os cotovelos na mesa e entrelaçou os dedos, os olhos verdes perfurando Olívia como agulhas de cristal.

— E vejo que você também tem um senso de humor... peculiar. Alexander não me contou que contrataria alguém tão... espirituosa.

Olívia sorriu, finalmente. O tipo de sorriso que não alcançava os olhos e servia como armadura.

— Alexander não me contratou, Sra. Diaz. Eu conquistei o cargo. Pequena diferença.

Samara reclinou-se na cadeira como uma gata satisfeita, mas nos olhos dela brilhou algo perigoso.

— Pois então... veremos quanto tempo você o mantém.

As palavras flutuaram no ar entre as duas como uma promessa de guerra futura.

Olívia manteve o sorriso. Por dentro, uma centelha de insegurança mordeu — Samara Diaz era tudo aquilo que ela sempre dissera a si mesma que desprezava... e talvez, só talvez, temesse ser insuficiente diante de mulheres assim.

Mas isso? Ela engolia. Como sempre fizera.

— Se me der licença — disse, recolhendo o manuscrito — vou começar a lapidar sua obra-prima agora mesmo.

Samara acenou com os dedos, displicente, como quem dispensava uma criada.
Olívia levantou-se. Os saltos estalaram novamente no mármore.

E, se sua coluna estivesse um milímetro mais reta e o sorriso um pouco mais afiado... bem, quem poderia culpá-la?

Quando a porta da sala de reuniões se fechou atrás dela, Olívia soltou o ar que nem percebera estar prendendo. O manuscrito pesava menos do que o olhar de Samara, mas mais do que qualquer bomba-relógio que já tivesse segurado. Ajustou a pasta no braço e seguiu pelo corredor, os saltos marcando um compasso firme no mármore.

No fim das contas, ela pensou, erguendo o queixo, talvez a avó estivesse certa sobre outra coisa também:
"Se for para entrar no ringue, que seja de batom e salto alto. Sangrar com estilo ainda é vencer."

E Olívia não tinha a menor intenção de sair derrotada.

Direitos de seduçãoStories to obsess over. Discover now