As feras da semana

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As feras da semana

Levantou de manhã. Olhou para o santo na parede, pediu proteção, riscou a testa com o sinal da cruz para enfrentar as feras da semana. A primeira era a segunda-fera. Não aceitava muito a segunda ser a primeira. De vez em quando se perguntava - Por que não é primeira-feira?

Sabia que as feras viriam uma a uma. A segunda era a terça-fera, a terceira era a quarta-fera, a quarta era a quinta-fera, a quinta era a sexta-fera, a sexta fera era um sábado. Não entendia o porquê dessa complicação. Achava que a vida era simples, mas os que sabem mais gostam de complicar.

Pronto. Saiu de casa para o trabalho. Tomou um chá de banco no ponto de ônibus. Viajou em pé no coletivo até o centro. Subiu no metrô no meio de um empurra-empurra, sentiu o mau humor da humanidade ao enfrentar a primeira fera da semana.

Chegou no trabalho e ficou logo sabendo que a fera era da braba. O seu parceiro Ditão estava de cama com disenteria, portanto serviria um pedreiro e meio. Meio porque dividiria a substituição com o parceiro Quinzão. O chamado 2/3, dois servente para três pedreiros. Sentiu que as feras da semana vinha com acréscimo.

Começou o baque da semana. As feras foram se apresentando uma a uma, que o sábado chegou para ele junto com uma canseira só. Só teve a medida do cansaço quando pediu uma dose de 51, segundo ele, para rebater a friagem. A pinga desceu arrastando tudo que estava entalado na garganta.

Desceu as broncas do chefe misturada com a disenteria do Ditão. O mau humor da namorada em função de não ter ganho o perfume de aniversário, ele misturou com os 2/3 do trabalho e empurrou goela abaixo com outra dose de 51. Deu algumas sapateadas para que as três fizesse um espécie de depuração do corpo!

Sentou numa mesa perto da parede, pediu ao Seu Agostinho uma gelada à gosto. Logo a loira já estava suando na sua frente pronta para matar o seu desejo. Antes pediu mais uma dose de 51. Prontamente e transparente estava na sua frente e num repente era uma vez uma aguardente.

Olhou a loira, mas já não a via como quando chegou, seus olhos embotados de cimento e sono fez com que a desejada de todas as gentes se distanciasse cada vez mais da realidade, até se perder nos roncos do sono.

Acordou assustado com um safanão. Abriu o olhos ainda dormentes e confusos e viu Gracinha na sua frente muito brava e reclamando do passeio no shopping. Largou a loira inteirinha molhada e quente por uma ducha fria em casa e aos prantos da namorada.

Já não era a primeira vez que passava por isso. Tomou banho com os ouvidos apoquentados pelas lamúrias. Nada que um lanche no MC Donalds não resolvesse.

Pegou a sua moto, montou e esperou a Gracinha ainda sem graça montar na garupa e seguiram para devorar o lanche. Era a última fera do dia e essa era com direito a prazer no final da empreitada!
(Santiago Derin)

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