Capítulo 1 - O CHAMADO DE MORRÍGAN

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Alec Dini não estava tendo uma noite nada agradável.

Fazia bastante frio dentro do chalé sujo e apertado de seus avós, e o tapete de couro amarelo esticado debaixo dele era frio demais para ser chamado de cama. Para piorar, aquela era noite de Samhain, como diriam os mais supersticiosos. Tanto o inverno quanto o ano novo estavam prestes a começar.

As poucas ruas do vilarejo de Aberann já haviam sido tomadas por verdadeiras pilhas de folhas secas nos últimos dias, dificultando bastante a estocagem de provisões para a temporada por vir — como se o fracasso das últimas safras já não houvesse sido trágico o suficiente para todos. Como qualquer um poderia esperar, havia um sentimento de incerteza e medo quase palpáveis no ar, dando voz às previsões mais pessimistas feitas por todos os aldeões espalhados pela região oeste da Ilha Branca.

Debaixo de seu cobertor fino e surrado, Alec demorou a ceder ao peso do próprio cansaço. Sua mente agitada foi desacelerando bem aos poucos, até por fim vagar além do teto de palha acima dele.

Uma multidão estranha de cores e sons passou a brincar em seu sono, conforme seus arredores adquiriam contornos novos e inesperados. O mais importante dos Três Sonhos Materializados das tríades da Ilha Branca tinha assim seu início, quando a lendária magia de Samhain, há séculos adormecida naquelas terras, finalmente despertava.

Guiado pelo caminho de terra e cascalho à sua frente, Alec viu-se marchando distraído por uma trilha estreita e sinuosa, lançando olhares assustados sempre que uma coruja piava ou um galho estalava sob seus pés. Bem acima dele, folhas vermelhas davam a impressão de que o outono ainda se sentava confortável em seu trono. O gotejar contínuo de orvalho sobre o chão, ocasionalmente molhando seus cabelos, fazia o garoto pensar que já havia amanhecido também, mesmo que o manto frio da escuridão ainda cobrisse suas pegadas por completo.

É uma pena saber que Alec jamais sentia qualquer tipo de cheiro em seus sonhos, ou ele teria identificado o aroma doce vindo dos jacintos azuis que brilhavam como pequenas tochas na madrugada. E foi justamente enquanto perambulava entre eles que o menino foi surpreendido por um farfalhar vindo de uma moita à sua direita.

Alec deteve o passo de imediato, mapeando seus arredores com muita atenção. Conforme o farfalhar ecoou mais uma vez, o menino se esgueirou até ele ainda hesitante.

— Olá? — tentou Alec. — Tem alguém aí?

Ora essa, não fazia sentido algum haver mais alguém ali, fazia? Mas se esse era o caso, a quem pertenciam aqueles olhos vermelhos, então? Bem ali, entre dois arbustos particularmente grandes, cintilando na escuridão como um par de orbes flutuantes.

— Olá? — repetiu Alec num sussurro.

O par de olhos levou apenas alguns segundos para saltar além das folhas e hastes em seu caminho até o menino, que pulou para trás em um movimento quase involuntário.

Um bico levemente curvo estava apontado para ele, no mesmo tom esbranquiçado das penas que cobriam o pequeno pássaro adiante. Alec encarou o porte esguio da criatura e suspirou ao perceber que aquela era a primeira vez que via um corvo branco por inteiro.

— Pela espada de Edern! Você me pegou de surpresa, sabia? — arfou o menino. — O que foi? Está perdido aqui também?

O corvo balançou a cabeça em resposta.

— Você entendeu o que eu disse? — sibilou Alec surpreso. — Espere um pouco. Por acaso sabe onde estamos? Eu não me lembro de como cheguei até aqui. Pode me mostrar como sair deste lugar?

O corvo assentiu secamente antes de dar as costas ao menino, alçando voo bosque adentro. Alec sorriu contente ao disparar atrás dele, incapaz de acreditar em sua própria sorte. Quais eram as chances de esbarrar em um corvo branco e inteligente no meio de um lugar daqueles, afinal? Na verdade, agora que ele parava para pensar naquilo, quais eram as chances de esbarrar em um corvo branco e inteligente em qualquer outro lugar na Ilha Branca, ora essa?

Alec Dini e o Vórtice do Tempo - Capítulos 1, 2 e 3Onde as histórias ganham vida. Descobre agora