Capítulo 2 - A CAÇA AOS CAÇADORES

17 1 0

Evan mastigava calmamente seu pedaço de pão velho enquanto Alec descrevia o pesadelo da noite anterior. Os dois já haviam caminhado bem além dos limites do vilarejo de Aberann, aproximando-se cada vez mais das ruínas de Castell Essill, onde esperariam pelas gêmeas Luna e Nessa Pryce antes de partirem rumo à orla da Floresta Havren, a nordeste dali.

Alec gesticulava com grande entusiasmo a cada ponto importante de sua narrativa, mesmo que houvesse pedaços da história que ele mesmo ainda não conseguisse pincelar por completo. A sensação de afogamento ainda parecia assustadoramente real ao menino, e o rosto do velho que o puxara para dentro do poço continuava a assombrar cada esquina de seus pensamentos.

Quando por fi m terminou sua história, Alec já estava com o rosto completamente corado, arfando ansioso enquanto comprimia os lábios. Já Evan não parecia lá muito impressionado com o que ouvira.

Houve um minuto de silêncio antes que um dos dois falasse novamente.

— Quem você acha que ele era? — Evan perguntou em um tom quase casual, lambendo as migalhas nas pontas dos dedos.

Alec fitou o amigo e deu de ombros.

— Não sei, mas a cara dele era assustadora.

Evan surpreendeu Alec com um leve tapinha em seu ombro. O garoto era um pouco mais alto do que Alec, em especial devido ao tufo de cabelos claros que sempre remexia. Seus olhos, de um tom claro de azul, eram muito atentos.

— Anime-se, Alec — disse Evan com calma. — Foi só um pesadelo, não foi?

— Mas pareceu tão real pra mim. O mais real que já tive.

— Meu pai sempre diz que sonhos têm significados, sabe? Por que não conta o seu a ele?

— Sem chance — resmungou Alec. — Tem alguma coisa na voz do seu pai que me faz querer dormir sempre que ele começa a falar.

Os dois irromperam em risos e continuaram a avançar pelo prado nevado ao norte do vilarejo. Cada vez que suas botas afundavam na camada grossa de neve que cobria a relva levantavam salpicos de água, e ambos mantinham os braços cruzados para se aquecer sob os mantos.

Uma imponente cadeia montanhosa flanqueava o caminho, dando a sensação de que atravessavam um vale amplo e silencioso. Em um dia ensolarado, ambos teriam sido capazes de ver as ruínas de Castell Essill a meio caminho entre o vilarejo e o castelo, mas a névoa espessa que agora descia pelas montanhas ocultava a antiga fortaleza quase que por completo.

— Adoro vir aqui — sibilou Evan, tão logo os dois finalmente alcançaram a escadaria de pedra que levava ao arco de entrada do castelo. — Fico sempre imaginando como este lugar deve ter sido no passado. Meu pai disse que torres alongadas assim não eram encontradas em nenhum outro lugar do reino.

— São só pedras, Evan — resmungou Alec, seu hálito quente se tornando visível ao colidir contra o ar frio daquela manhã. — Não sei por que se importa tanto assim com elas.

— Mas olhe só pra este lugar, Alec — insistiu Evan.

— Dizem que este castelo foi erguido séculos atrás pelo rei Locrinys para proteger uma de suas amantes. Foi aqui que a princesa bastarda Havren foi capturada, antes de atirarem seu corpo no rio da floresta.

— Por que eu deveria me importar com isso?

— Porque é fascinante! — retrucou Evan. — Ei! Aonde está indo?

Alec fez uma careta.

— Um homem tem que se aliviar quando um homem tem que se aliviar.

Evan suspirou fundo enquanto Alec contornava a parede de calcário à sua frente, desaparecendo de vista. Sozinho em meio às ruínas, Evan cantarolou baixinho ao mesmo tempo que registrava as duas grandes valas que protegiam os flancos do castelo. Sempre que possível, ele se divertia ao imaginar quantas histórias permaneciam escondidas em cada um daqueles blocos espalhados pelo chão.

Alec Dini e o Vórtice do Tempo - Capítulos 1, 2 e 3Onde as histórias ganham vida. Descobre agora