Cotidiano

9 0 0
                                        


Sabe aquele dia enfadonho, quente, úmido, abafado? Sua única vontade é deitar numa rede, balançar enquanto olha o mar. Será que chove hoje? Ah, uma chuvinha cairia bem...

Armandinho embala a balada em sua mente e te lembra de que você não pode ver o mar, pois mora bem no meio de uma selva de pedra. Sentado aí, na frente de seu computador, esperando o fim de seu expediente, fica acomodado, esperando que seu corpo se adapte ao calor e à umidade, porém não se adapta. Então o relógio marca 17h50. Em 10 minutos você irá enfrentar o maior desafio do seu dia: o trânsito de Porto Alegre. Aproveita que a cabeça está virada na direção do relógio e checa a colega nova que, devido ao calor, ergueu um pouco a saia. Será que ela topa uma cerveja? Não, ela não topa. Inclusive, nota seu olhar inconveniente e te repreende com uma expressão severa. Você não fica corado, pois já está vermelho e suando. Afrouxa um pouco a gravata, joga seu café já frio na folhagem ao lado de sua mesa. Este momento merece um longo e profundo suspiro.

18 horas, é o fim do seu dia. É necessário despedir-se dos colegas? Após decidir que não é grosseiro, deseja que todos tenham um ótimo fim de dia. Você e todos os outros deixam o escritório. Na calçada, um estranho te aborda. Chega por suas costas e te toca. Todos seus colegas já estão saindo com seus carros. Não há para onde correr. Um nó se forma em sua garganta. Seria a primeira vez que seria assaltado.

- Senhor, sabe onde encontro uma agência de Correios?

Ok, você foi um neurótico. Respira fundo e explica como chegar à bendita agência. Vê o homem que te abordou se afastando e tem uma breve crise de risos. "Que babaca que eu sou", você pensa. Sim, você é um babaca. Melhor ir para casa.

Ir para casa talvez seja um pouco mais trabalhoso do que você pensou inicialmente. Uma, duas, três tentativas e o carro recusa-se a ligar. Você tenta um pouco mais. Nada. Raiva apodera-se de você e então você desfere alguns socos no volante. Suas mãos agora doem. Pare de resmungar, bater no volante foi opção sua.

18h40. É horário de verão, porém o dia está anoitecendo mais rápido que o normal. A decisão que parece mais acertada neste momento é trancar o carro e deixá-lo ali. Torça para ainda encontrá-lo na próxima manhã. Checa sua carteira e vê R$ 15,00. Não é suficiente para um táxi. A solução é ligar para sua esposa. Onde está seu celular? Pelo visto aquele homem queria algo mais que informações sobre a localização do Correio. Certo, quem iria procurar uma agência de Correios naquele horário? Rapaz esperto esse. Você terá que caminhar. Em uma hora você provavelmente já visualizará a fachada de sua casa.

19 horas. Você adentra um bairro, próximo ao seu. Ouve um estrondo. É um trovão. Vento frio se choca com sua pele quente e causa coceira. Você então coça. Agora sente dor ao invés de coceira. Grossas gotas de chuva caem sobre seu couro cabeludo e sobre sua pele machucada. Aos poucos, as gotas deixam de ser esparsas e caem em grande quantidade. Alguns clarões no céu te assustam e você só tem uma certeza naquele momento: precisa de um abrigo.

Alguns metros a frente uma casa chama sua atenção. A tinta das paredes está descascando, a grama está alta, janelas estão pregadas e o portão está enferrujado. Na casa há uma entrada coberta. É para lá que você vai. Com um tranco, o portão abre. A casa está abandonada, você está encharcado e relâmpagos cruzam o céu. Essa situação não pode ser considerada invasão.

Parado no segundo degrau da entrada vê um galho cruzar a alguns centímetros de sua face. Impulsivamente, dá alguns passos para trás. Você não viu, mas havia um terceiro degrau e o desequilíbrio foi inevitável. Talvez neste momento eu me compadeça de você. Seu dia está tomado de desgraças, amigão. Porém após a desgraça, você é agraciado. Sua queda não é efetiva. No meio do caminho, um par de braços te ampara e te convida para entrar.

Uma pessoa sensata não entraria na casa de um estranho. Mas você, você sabe, sensatez não é seu ponto forte. Tem a chuva, o frio, o perigo da rua. Você tem todas as justificativas para sua ação. Como naquela vez em que você chutou o cachorro do vizinho. Maldito cachorro que não parava de latir. Ou aquela outra vez, aos 17 anos, em que você passou a mão na novinha do metrô, de shortinho e blusinha, ela estava pedindo. A vadia ainda te empurrou. Pensando bem, talvez você não devesse ter feito isso. Mas, mesmo assim, você ainda possui uma justificativa válida: Você não é sensato.

- Sente- se. – Disse seu anfitrião, apontando uma cadeira. – Está com fome?

Na mesa, junto a você encontram-se duas outras pessoas. Uma mulher idosa, pele enrugada, olhos verdes e dentes amarelados. Ao lado dela encontra-se uma mulher jovem, que dá de comer à mulher idosa. Céus! Há tempos que você não via uma mulher tão bonita. Na verdade, já viu alguma vez? Então você nota, há uma aliança em sua mão esquerda. Seu anfitrião aparece e oferece uma toalha, para que se enxugue e possa desfrutar o jantar. Na mão dele, também há uma aliança de ouro. Aquele é o momento em que você sente inveja. Não, não é aquela inveja boa, mas sim aquela inveja destrutiva. Por que diachos este mirradinho tem uma mulher tão bela e você não? Tirando você de seus pensamentos inoportunos, o homem explica que vieram há pouco de uma cidade do interior e ainda não conseguiram reformar a casa, razão de sua péssima aparência. Diz ainda que não conhecem a vizinhança e que é um prazer receber alguém em sua casa. Se ele soubesse o que se passa na sua cabeça, não gostaria de te receber em casa.

A jovem levanta-se da mesa e retira os pratos, o seu e o da mulher idosa. Diz ao marido que levará a mãe para dormir e abandona vocês. Uma série de ideias começa a percorrer sua mente, lhe tirando da realidade. Elas vêm com mais e mais força. Está impossível controlar seus pensamentos. Aquela vez... ah! Aquela vez. Você nunca imaginou que teria uma nova oportunidade. Você é um homem de sorte.

Ninguém no mundo conhece este prazer tão bem quanto você. Os outros chamam pessoas como você de louco, assassino, psicopata. Mas não se elas não descobrirem. Você, homem branco, pai de família, emprego estável, carro relativamente novo, poupança no banco. Não, você não é nenhum destes rótulos. Mas, você pensa, não tem nada de errado em ter um pouco de diversão de vez em quando. E o momento é tão convidativo, tudo parece tão perfeito... A margem de erros é mínima. Esta é a hora.

Sentado ao lado de seu anfitrião, parece brincadeira a sorte que tens. Um golpe rápido no pescoço e o homem desmaia. Você decide por uma técnica que não usou da outra vez: Corta os pulsos. Mas só um, na tentativa de que pareça um suicídio. A faca de serra não foi uma escolha inteligente, não é amigo? Mas você segue em frente, pressionando-a mais e mais, não é hora de desistir. No momento que o sangue quente toca sua pele, a sensação de prazer é imediata. Você então lembra que não está sozinho na casa e que deve terminar o que começou. Põe a faca na outra mão do seu anfitrião e vai se lavar na pia da cozinha. Na volta checa o pulso dele: Morto.

A mulher chega no instante em que você está tocando no marido dela e compreende toda a situação. Você não consegue conter um sorriso. A situação está cada vez mais emocionante. Ela começa a gritar, enlouquecida. A chuva foi seu trunfo, impedindo que outras pessoas ouçam os gritos. Você corre até a mulher para silenciá-la, porém não queria ter que matá-la. Não ainda. O corpo dela, tão perfeito, deveria conhecer o seu. Agarrando-a por trás enquanto mantém sua boca fechada, uma excitação toma conta de você. Mas, além de insensato, você é burro. No momento de distração, ela desfere uma cabeçada que lhe acertou em cheio. Tonto demais para pensar, você cai sobre uma cadeira e a mulher se desvencilha. Aquelas palavras começam a pairar sobre sua mente, ao som da voz da mulher: Assassino, psicopata, louco... Assassino! Psicopata! Louco!... Em meio à sua tontura e a repetição das palavras você sente algo prendendo seus pés... Ouve também o barulho de uma porta sendo trancada... Passos apressados...

20h 10. Você desmaia e quando volta a si, ouve o barulho da sirene. A desgraçada chamou a polícia. Seu pés estão presos à mesa, não há como desatar aquele nó a tempo e fugir. Você, pobre insensato e burro, não mediu as consequências dos seus atos. Esta vez não seria tão perfeita como aquela outra. Por que não matou a vadia também? Você não está pronto para o que está por vir: o olhar de desaprovação do mundo todo ao lhe chamar de louco, psicopata e assassino, ao mesmo tempo em que clamam por sua morte e por justiça. Não, isso seria mais do que você poderia suportar. A faca de serra está a poucos centímetros da borda da mesa. Só esticar a mão e pegar. Agora, meu amigo, você já sabe o que fazer.

CotidianoWhere stories live. Discover now