"O corpo pode até ser refeito, mas a alma jamais".
"Teste 03 - Resultado - Após sua eutanásia o animal recebeu uma dose calculada de VAM; Permaneceu inanimado por dezesseis minutos; Apresentou convulsões; Pêlos arrepiados; O animal voltou à vida, contudo, apresentou comportamento agressivo e desconexo; Atacou violentamente os vidros da jaula; Faleceu; Duração de sobrevida: vinte e dois segundos; Resultado: negativo para animais".
O dr. Otto Wren releu aquele pequeno trecho do extenso laudo várias e várias vezes. Estava óbvio para ele o grande problema: os animais não possuem a estrutura cerebral de um homem. As substâncias pesquisadas e o vírus criado, chamado pela sua literalidade de "vida após a morte" (VAM), agia e reanimava exclusivamente o complexo córtex cerebral, encontrado apenas na espécie humana.
Havia ali uma controvérsia irreparável. Se ajustassem a pesquisa para que o vírus funcionasse em ratos e camundongos, o vírus tornaria-se nocivo ao homem. Em contrapartida, se aprofundassem as pesquisas focadas no ser humano, jamais obteriam o resultado esperado nos testes exigidos pelo governo.
Otto pegou seu telefone e pediu o comparecimento pessoal de seu assessor.
Jogou os laudos de teste sobre a mesa, segurou seu queixo e se pôs a pensar. Talvez sua ideia fosse realmente a única saída.
Ouviu alguém bater levemente na porta e viu Dylan, seu assessor, entrar e o cumprimentar.
- Dylan, preciso que envie uma nota ao governo informando-os sobre o resultado do último teste. Preciso que inclua os problemas acerca do que nós temos e os animais não. Eles nos requisitaram algo que mantivesse nossos soldados em combate mesmo quando abatidos, entretanto, sua restrição quanto à teste em humanos - material fim requisitado - impede qualquer avanço significativo...
- Senhor, já fizemos este apontamento e recebemos recusa incisiva - interrompeu o assessor com certa preocupação.
- Sim. Estou ciente de toda ética que deva ser seguida, mas não imagino outra saída senão o teste físico, uma vez que os testes laboratoriais obtiveram sucesso.
- Ok senhor, enviarei hoje mesmo os resultados e a requisição. Há algo mais em que eu possa lhe ser útil?
- Não Dylan, obrigado.
O cientista e dono do maior laboratório de pesquisas dos Estados Unidos, dr. Otto Wren efetuou uma ligação tão logo seu funcionário deixou o escritório.
- Otto - atendeu entusiasmadamente a pessoa do outro lado da linha.
- Kyle - respondeu o cientista, deixando transparecer toda sua frustração.
- Como estão as coisas? Porque esta voz?
- As coisas não estão correndo bem. As pesquisas estão avançadas, mas o governo me impede de realizar pesquisas no público alvo.
- E pela primeira vez eu posso concordar com o governo. Você sabe o quão perigoso essa ideia pode ser. Pode arruinar tudo o que você construiu até hoje.
- E pode me dar um nobel também.
- Uma faca de dois gumes, com certeza.
- Você já recebeu meu presente do mês?
Kyle sorriu.
- Não, não ainda.
- Espero que goste.
- Você sabe que sempre gosto de suas lembranças Otto.
- Mas esta será especial.
Kyle sorriu novamente.
- Ok.
- O que eu realmente precisava era do gênio do meu irmão aqui comigo, iluminando este projeto.
- Você sabe que eu não trabalho para o governo.
- Então neste caso você estaria trabalhando para mim - Otto respondeu com tanta seriedade que tirou um sorriso gutural de seu irmão do outro lado da linha - Falo sério, não consigo imaginar pessoa melhor para resolver as questões pendentes e tornar possível o teste nos humanos.
- Me desculpe Otto, mas não posso mesmo te ajudar desta vez. Você conhece meus ideais e sabe que o governo jamais os seguiria. O dinheiro deles pouco me importa.
- Tudo bem. Não posso concordar, mas posso compreender. De qualquer forma, considerando-se o mal uso do vírus por parte do governo, poderia me ajudar ao menos no antídoto?
- Isto seduz, ao mesmo tempo que soa como uma engabelação - Kyle parecia sempre se divertir com tudo, mesmo sabendo que seu irmão não passava por bons momentos.
- Não, não é engabelação. É real.
- Ok, ok. Mas você terá que me enviar suas pesquisas. Não me deslocarei até São Francisco para isto. Você sabe que tenho minhas obrigações aqui.
- No fim do mundo - interrompeu Otto - Terei que requisitar ao governo.
Kyle riu novamente.
- Está aí um dos porquês não trabalho para o governo. Um dos...
- Certo. Preciso desligar agora para resolver outras pendências. Farei o pedido ainda esta semana e espero poder contar contigo tão breve quanto possível.
- Bem, então até logo. Boa sorte.
- Obrigado. Até logo.
Otto dirigiu-se ao escritório de seus técnicos em informática. Cumprimentou alguns funcionários ao longo do percurso e, quando chegou ao seu destino, entrou sem bater. Uma extensa sala, talvez a única com tanta bagunça em todo o prédio. Cerca de 30 computadores preenchiam qualquer espaço na sala e eram responsáveis por grande parte do funcionamento do laboratório. Uma quantidade exacerbada de livros, copos de refrigerante e até brinquedos espalhavam-se por todo escritório.
Forçando-se a ignorar toda aquela bagunça Otto se dirigiu ao chefe do setor, Jared Nichols, também chamado no mundo virtual de microbit. Uma infeliz mescla de sua genialidade e estatura.
Baixo, raquítico e completamente tatuado, usava sempre óculos enormes, muitas bijuterias e uma incomum cartola. Uma figura cartunesca e inusitada. Mesmo assim Otto o dava o valor adequado. Sabia dos feitos de seu funcionário e da capacidade de, em posse de um computador, fazer qualquer coisa. Microbit era definitivamente um mestre da informática.
- Jared - interrompeu Otto, fazendo o chefe minimizar rapidamente um jogo de guerra do qual passava horas jogando.
- Chefe! Beleza? E aí, o que que manda? - Microbit jamais tivera formalidades, nem mesmo na mais formal situação.
- Preciso que me atualize em relação à movimentação governamental e que me faças um favor.
- Não tem nada de novo nesse governo. Algumas conspirações e casos escondidos de corrupção, mas nada relacionado a gente. Do que que você precisa?
- Ótimo. Preciso que me arrume uma cobaia humana, o quanto antes e o mais secreto possível. Ofereça uma recompensa, mas não deixe de mencionar os benefícios da aplicação do vírus, que por si só já seriam a grande recompensa. Além do mais, em caso de insucesso ou óbito, triplicamos aos familiares da cobaia a recompensa inicialmente oferecida.
Microbit grunhiu. Pôs-se a pensar por um breve instante, girou sua cadeira de rodinhas para encarar o computador novamente, retirou seu chapéu e o colocou sobre a mesa de boca para cima.
- É hora de tirar um coelho da cartola - este era seu slogan. Clichê, original e excêntrico.
- Me mantenha informado - Otto olhou ao redor, dezenas de pessoas trabalhando aparentemente sem qualquer ordenação - e arrume esta sala.
Microbit apenas arreganhou seus dentes amarelados e chacoalhou a cabeça divertidamente.
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As ruínas da essência
General FictionQuando um ato humano foge do controle, a perda é sempre irreparável.
