O cansaço da rotina havia desaparecido, mas ao seu redor aparecia uma paisagem única e deslumbrante. Sonhava, supora, e por estar sonhando resolveu explorar. Levantou da sua cama agora formada pela vegetação que fora achata no formato da sua silhueta e olhou ao redor. Não podia ver muito pelo sono recente que havia acabado de expulsar da sua mente, mas à medida que os seus olhos alcançavam uma floresta longínqua, uma estrada e talvez até algo parecidos com cachorros, que fugiram assim que notaram estar sendo observados. A sensação de surpresa começou a esvanecer dando lugar a sentimentos a muito não experienciados.
A vida corrida na cidade não deixava quase brechas para momentos de lazer, para se divertir como seu coração estima, ou nada parecido com o que quer que fosse essa sensação de conforto e tranquilidade que invadia seu ser de maneira lenta e até mesmo carinhosa. Decidiu sentar-se de novo na grama e observar agora os pássaros que cortavam o céu cruzando os dois sóis verdes que ali se mantinham.
— Sois verdes, quem iria imaginar? – Falou em voz alta, mas mais para si mesmo, para tornar aquele momento um pouco mais real e se surpreendeu quando pode ouvir a própria voz.
— Os sois sempre foram verdes, bobinho. Embora nem sempre tenham sido dois. – No entanto se surpreendeu ainda mais quando ao ouvir aquela voz aguda e cantarolada se voltou para a sua esquerda ao seu lado havia uma criaturinha pequena sentada no ar, balançando as suas pernas e com um sorriso amarelado nos lábios.
A sua primeira reação foi dar um pulo para trás mesmo estando chocado, e então por meio segundo de incredulidade ele continuou encarando a criatura enquanto ela lhe respondia com o mais doce sorriso e o mais animado balançar de pernas. Durante esse meio segundo pudera notar algumas coisas que havia deixado de perceber em sua surpresa pela companhia. Ela não era tão pequena, deveria ter o corpo de uma criança em torno dos seus 10 anos de idade. Seu cabelo era lilás, assim como seus olhos, que eram um pouco grandes demais e sardas constelavam em suas bochecas. A pele da criatura era de um azul pálido, gélido. Ela vestia alguns trapos rasgados, mas nada que pudesse ser considerado uma roupa, pois os trapos pendiam do corpo dela de locais totalmente aleatórios e não pareciam a estar aquecendo de uma maneira eficiente, pois seus lábios estavam roxos assim como seus dedos, que vieram a aparecer no instante em que cansada de apenas sorrir ela decidiu também acenar.
Perplexo, Tito decidiu acenar de volta, o susto tinha sido grande, mas aquela sensação de calma ainda estava dentro dele, e gentileza se retribui com gentileza, como ele havia aprendido recentemente na sua vida.
— Você vai ficar aí só me encarando ou a gente pode voltar a olhar os pássaros? – Falou novamente a criatura dessa vez abandonando-o com o seu olhar, mas nunca com o seu sorriso, e voltou a olhar para o céu, fascinada.
— O céu daqui é diferente do lugar de onde eu vim, mas em nada menos bonito. – Disse se sentando novamente na vegetação e voltando seu olhar para cima.
— Um lugar com um céu diferente? Deve ser extremamente longe. Você é um viajante? Você é muito novo para ser um eremita. – Disse a criatura agora desistindo um pouco do sorriso enquanto levava uma das suas mãos até o queixo e imitava uma cara de quem estava pensando. – Nunca ouvi falar de tal lugar. – E então devolveu ao seu rosto aquele sorriso cada vez mais sincero.
— E não somos todos viajantes, Criatura Flutuante Gélida? Não estamos sempre nos movendo em direção a um destino diferente? – E quando a criatura olhou para ele com a sua verdadeira cara pensativa, ele a retribuiu com o seu sorriso mais sincero e então os dois voltaram a olhar os pássaros no céu de uma maneira diferente.
— Claus.
— Me desculpe?
— Meu nome, é Claus, Criatura Terrestre.... Você não tem uma terceira característica tão aparente.
— Tito.
— Criatura Terrestre Tito?? O que é um Tito? Espero que não seja nenhum tipo de ofensa.
— Tito é o meu nome, Claus, é um prazer. E a terceira característica que você está procurando é caótico.
— Tito, a Criatura Terrestre Caótica – Repetiu Claus e riu em voz alta agora, cantando com o som do bater de asas dos pássaros, dos ventos que encontravam seus caminhos entre as árvores ao adentrar a floresta e abandonar a luz.
Claus ria como uma criança, ou talvez algo ainda mais inocente do que isso. O que é uma criança antes de ser uma criança?
— O que é você, Claus?
— Ora, como assim? Você não está me vendo? Eu sou o que você pode ver e posso ser tudo aquilo que não pode. Hahahaha. – E mais uma vez pareceu que ele ria com tudo ao seu redor. Até Tito ria agora, e se esquecera por um instante quem era, pois só era riso e só queria ser riso naquele momento. – O que é você, Tito?
— Bem, depois dessa sua resposta fica difícil né. Hahaha. Mas eu sou um Humano, foi isso que eu quis dizer com a pergunta.
— Um Humano, hmm, nós não vemos muitos de vocês por essas terras, mas acho que isso faz de mim uma sortuda, certo? – E mais um sorriso escorria por seus lábios. – Eu sou uma Filha de Quione, ou como o seu povo costuma nos chamar: Fadas do Inverno.
— HAHAHAHAHAHAHAHAHA, então, você, é, uma, fada. Eu deveria ter adivinhado. – As palavras saiam da sua boca pausadamente pois a sua gargalhada o havia tomado de surpresa, e enquanto ele ria, e ria sozinho, Claus ainda olhava os pássaros que agora iam sumindo no horizonte invertido do céu, e a imagem dela ali a seu lado parecia tão absurda e tão natural ao mesmo tempo que ele estava se sentindo cada vez mais tranquilo. Você realmente parece uma fada, com todo respeito.
— Vocês humanos são engraçados hahaha, como se parece com uma fada? Nós somos todas diferentes!!! Hahahaha. – E a sinfonia de risos embalava aquele encontro que poderia nunca acabar. – Você, por exemplo, não se parece com um Humano.
— Oh, obrigado, eu espero continuar não decepcionando. – Rebateu Tito e agora quando ele riu junto de Claus sua risada foi mesclada a sintonia e Claus decidiu dançar com esse riso diferente que agora embalava o seu novo e inesperado início de inverno.
Tito agora descia seu olhar do céu para Claus que rodopiava e cantarolava através da colina onde estavam. Seus braços faziam movimentos graciosos por cima de sua cabeça e ao redor de seu corpo, seus pés não tocavam o chão, mas ainda assim pisavam, brincavam e engavam o ar em sintonia com cada movimento que ela fazia, com cada brisa gelada que ela trazia. Os movimentos eram familiares, mas fugiam a mente até o momento em que se lembrou daquelas férias que ele havia passado com seus padrinhos e eles lhe ensinaram a patinar no gelo. Claus patinava no ar, deixando sua aura fria lhe criar o perfeito palco para suas acrobacias e piruetas no ar frio que vinha junto à noite que se aproximava.
Quando seus pés se cansaram e seu coração estava em paz Claus voltou para o lado de Tito e se deixou cair ali, dessa vez não no ar, mas no chão mesmo, exaustivamente contente. Sorriu mais uma vez para Tito e voltou sua cabeça mais uma vez para o ar em busca dos pássaros viajantes.
— Você patina como ninguém, aquilo foi incrível. – Deslumbrado com o que acabara de ver, mas não sabendo colocar em palavras, Tito não achou suficiente o elogio que fez aos movimentos de Claus.
— Você nunca viu uma fada dançando antes? Nossa, o lugar de onde você vem deve ser realmente longe, onde fica?
— Não sei se eu saberia te explicar exatamente, tendo em vista que eu sequer sei onde estou agora. – Explicou Tito
— Como assim? Você está em Éden, na Colina do Despertar! – A empolgação de Claus era visível enquanto ela se levantava mais uma vez e girava em torno de si mesmo como se estivesse tentando apontar e abraçar tudo que havia naquela colina.
— É um bom nome pra pessoas como eu.
— Como você, você diz: Humanos?
— Não, não. Eu digo: pessoas que estão dormindo.
— Você está dormindo?! Que tipo de magia é essa? Nem os magos mais poderosos podem falar dormindo. O sono não é sagrado de onde você vem?
— Vocês têm magos.... Esquece. Eu estou acordado aqui, mas dormindo no lugar de onde eu vim, acho que é isso, faz sentido para você? – Agora parando para pensar nisso era realmente confuso, nunca tivera um sonho tão vívido, longo e prazeroso.
— Acho que faz. Você está viajando, certo? Que nem todos nós. – Disse Claus recuperando suas forças.
— É, Claus, exatamente isso, eu estou viajando, e tem sido uma viagem incrível, obrigado pela companhia. Me conte sobre os magos.
— Hahaha, eu digo o mesmo, Tito. Os humanos têm uma má reputação por aqui, em Éden, principalmente os magos, eles usam dos poderes para conquistar ou para defender, enquanto a natureza só busca harmonia. Mas você é diferente, Tito. Eu senti no momento em que te vi dormindo na ravina. – Claus inconscientemente, enquanto observava o céu começar a perder seu brilho, sua mão direita foi até as suas costas e coçaram uma cicatriz, uma cicatriz perpendicular à outra, que iam do começo das suas costas até quase a cintura dela. Sua pele azul tinha se fechado por cima da abertura que ali estivera.
— O que houve com as suas asas, Fada do Inverno? - No instante em que Tito terminou de fazer a sua pergunta todo o ambiente entrou em silencio e os pássaros não eram mais vistos em lugar algum, por um instante Tito achou que havia acordado, mas não havia. Agora só havia ele e Claus. Ela tão silenciosa quanto o resto do mundo, e Tito tão inquieto quanto seu coração o permitia estar, cada vez mais deixando escapar aquela sensação boa, cada vez mais vazio, mais perdido dentro de si mesmo, cada vez mais de volta.
— Elas me foram tiradas. – E o único pensamento que passou pela cabeça de Tito ao ver aquela lágrima singular desenhando um caminho salgado pelo rosto de Claus foi o de impotência. Claus, que era a criatura mais doce e sincera que ele jamais conhecera agora estava chorando e ele não podia fazer nada, pois todas as imagens daquele lugar e daquela realidade iam se apagando conforme o seu despertador tocava e uma nova sexta-feira começava.
O céu agora tinha apenas um Sol.
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Sonâmbulos
Fantasy"Eu cheguei cansado em casa novamente por causa da aula de quinta-feira e ao me jogar na cama pensei que nada mais poderia acontecer naquele aniversário de 20 anos. E nada aconteceu mesmo naquele dia. No dia seguinte eu acordei em um mundo diferente...
