CAPÍTULO 1 - ALEX

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Vez ou outra eu gosto de olhar a janela do carro do meu pai enquanto estamos correndo, atrasados, pelas ruas da minha cidade. Não gosto exatamente de olhar a janela, mas através dela. É a única parte do meu dia ocupado em que posso me dar o luxo de não fazer nada, simplesmente pensar. ''Ocupado'' é uma palavra forte demais – é mais para o mais caótico possível para um garoto de 17 anos de idade (a idade de um vestibulando).

Nessas boas horas no trânsito fechado da minha cidade, consigo pensar sobre coisas que normalmente não penso. No restante do dia, minha mente fica muito ocupada no meio da intensa Revolução Francesa, perdida entre as fases do desenvolvimento embrionário, ocupada com a geopolítica asiática, ou tentando recordar os intermináveis nomes de filósofos. Ainda não decidi o curso que quero na faculdade, mas minha mãe já decidiu Medicina, meu pai acha que Engenharia é o que vai facilitar minha vida empreendedora, e minha avó diz que adora o neto que está na Alemanha fazendo Direito. Felizmente, já tenho nota suficiente pra todos esses cursos, e qualquer outro que eu queira. Mas o que eu quero? É engraçado como só existem esses três cursos nas conversas de Domingo, mas já pensei em estudar até Filosofia Chinesa numa faculdade particular a 10.000km da minha casa. É importante dizer ''particular'', porque na mente dos meus familiares, a única faculdade importante é a federal. Curioso, já que só 10% deles foram pra faculdade. Porém já diz um ditado (com o qual não concordo muito, mas acho que se encaixa na dita situação): quem sabe faz; quem não sabe ensina. Eu tenho uma relação de amor e ódio com essa frase, já que a profissão de professor é a mais latente na minha mente, no momento. Porém, na semana que vem eu já vou ter mudado – bem provavelmente.

Cheguei ao lugar em que preciso estar. Incrivelmente, com 20 minutos de antecedência. Eu odeio me atrasar, mas acho terrivelmente estressante chegar cedo e ter que lidar com o meu constrangimento social e falar com pessoas reais, que te fazem perguntas e te observam enquanto você responde! Eu pediria ao meu pai pra esperar o tempo restante no carro, mas ele também tem um compromisso e já é trabalho demais ter que se atrasar pra me poupar de contato social. Ridiculamente clichê, eu sei. Existem pessoas que vivem em confinamento e dariam tudo que lhes resta pra dar pelo menos um ''oi'' pra qualquer pessoa. Mas, por pior que isso seja, eu trocaria de lugar com essas pessoas – e sem pedir nada em troca.

Em pouco mais de 5 minutos começa a reunião na minha igreja. Até agora, não fiz esforço pra falar com ninguém, e – felizmente – ninguém tentou falar comigo também. Sou meio estranho, porque eu sinto alívio quando não falo com ninguém, mas também me sinto solitário, e me dou ao luxo de reclamar no Twitter sobre isso assim que chego em casa. Mas hoje, especificamente, só sinto alívio mesmo.

Ah, isso mesmo – a igreja. Novamente, sentimentos conflitantes em relação a isso. Eu gosto da minha igreja. Pelo menos, eu acredito que gosto. Eu acredito em Deus, e gosto de entrar em comunhão com Ele e com alguns, poucos, amigos que fiz aqui. Mas como eu devo pensar quando a igreja, que eu realmente gosto, diz que os sentimentos (amorosos) que sinto são inválidos? Pior que isso, abomináveis?

Não tenho certeza de nada, e meus interesses amorosos fazem parte deste nada. Mas já tentei várias e várias vezes suprimir a batida acelerada que me deu quando vi um menino com olhos bonitos atravessando a rua enquanto estava no intervalo da escola. Ou quando eu estava prestando atenção na lição bíblica do dia, e senti um perfume agradável e percebi que vinha de um rapaz igualmente agradável sentado logo atrás de mim. Mas até quando vou conseguir suprimir isso? Tenho 17 anos, quase 18; muitos colegas contam suas experiências românticas e felizes, e eu simplesmente não consigo ter algo que seja igualável. Não que eu seja facilmente influenciável – sou muito orgulhoso pra isso – mas muitas vezes sinto falta de ter alguém íntimo o suficiente pra conversar sobre todas as incertezas da vida, mas ao mesmo tempo trocar uns beijinhos esporádicos. Talvez mais que beijinhos. Infelizmente, não sei como separar minha vida religiosa da minha vida amorosa. Existe alguma forma de fazer as duas caminharem em harmonia? Se existe, ainda não descobri. Mais uma coisa engraçada pra minha conta de coisas que não são, realmente, engraçadas: sei nomear diversos compostos orgânicos, mas não consigo descobrir como domar meus desejos. Seriam eles domáveis? Enfim, não estou prestando atenção no estudo bíblico, e vou ter que responder um questionário sobre ele no fim do mês.

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⏰ Last updated: Sep 07, 2019 ⏰

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