Uma carta para ninguém de um samurai sem rumo

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Hoje eu escrevo essa história, para falar que não achei justiça e nem paz, por nenhum lugar por onde passei. Também não achei sentido em quase nada, quase nada vale a pena.

Ah, desculpe, isso é mentira. Quero dizer, é verdade que não há justiça nem paz por onde passei (e eu já passei por vários lugares), mas não é bem por isso que eu escrevo. Então porque eu escrevo? Não sei, talvez no final desse texto eu consiga responder...

Sim, eu ando viajando por aí com a minha espada. Não ando com ela porque gosto, ando porque preciso. Preciso proteger a minha vida quando há tantos que querem me matar.

Porque protejo a minha vida? Sinceramente, eu não sei. Pode ser um instinto humano, o da sobrevivência. Talvez seja porque não achei ninguém digno de tirar a minha vida. Todos que tentaram me matar até agora são como pedaços de lixo. Sim, eles são piores do que eu, e eu não gostaria de dar  essa satisfação a nenhum lixo podre que consiga ser pior do que eu. Então eu sigo matando e vivendo.

Acho que os humanos sempre foram assim, a Terra sempre foi assim. Quer dizer, as tecnologias mudam, os poderes trocam de mão, mas no final, as pessoas são as mesmas. Sempre querendo fazer primeiro o seu, e o resta que se exploda. Então as pessoas são gananciosas, desesperadas, desalmadas e desamadas. Quem pode julgar quem nesse mundo? Hahaha, olha eu me contradizendo, há pouco não falei que existe gente pior do que eu? Faltou acrescentar hipócritas à lista anterior, e eu, talvez, seja um. Mas e não somos todos hipócritas?

Hoje, por exemplo, matei mais um homem. Pago pelos meus crimes com a perseguição eterna de meus inimigos, os quais eu já teria perdoado de bom grado, mas eles não me perdoam.

Antes de continuar, deixa eu te falar em que ano estamos, afinal, não sei quando você vai ler essa história, pode ser no futuro, ou talvez no passado... Não sei, eles estão dizendo que já existem máquinas que viajam no tempo. Não entendo muito disso, mas... ah, sei lá, isso não importa também. Bom, o que eu estava falando é que estamos em 2337 e tá tudo um caos. Na verdade, lembrando das aulas de história que eu tive na escola, e as histórias que meu avô contava, eu sei que sempre esteve um caos. Mas enfim, o caos de agora é diferente, o mundo é como se fosse uma coisa só, não há países, só territórios dominados por senhores territoriais e clãs. Eles vivem para satisfazer seus prazeres e para sobreviver. Se esbanjam em todas as luxúrias e exageros possíveis, escravizam pessoas para ter mais dinheiro, para contratar mais assassinos e para comprar mais androides, para que possam se proteger, ou para que possam ir atrás de mais territórios. Eu acho que essas pessoas não vivem um dia sequer de paz. Do que adianta ter luxo se não há onde descansar? E o pior é que, como eles comandam tudo, não há muitas escolhas para os que estão abaixo deles na cadeia alimentar da sociedade, a não ser se submeter às suas vontades.

Bom, o meu papel nisso tudo, é o de um samurai. Ouvi dizer que no passado isso (essa coisa de samurai) já existia, há mais de 400 anos atrás, e voltou a existir após a última guerra, que deixou o mundo mais bagunçado do que já era. Mas os samurais já estão deixando de existir novamente. Como eu falei, os senhores territoriais estão investindo pesado nos androides. A vantagem é que eles não se cansam e não recebem salário, é só um único pagamento na hora de comprá-los e acabou, então nós, a ralé da sociedade, podemos ser usados de outras formas.

Eu percebi que matar pessoas era algo tremendamente ruim, ainda mais, quando mato por vaidades dos outros. Mas quando eu percebi, já era tarde demais. Eu já tinha matado tantas pessoas que havia perdido as contas. Então, um belo dia, eu decidi que não mataria mais pessoas que eu nem sei porque estou matando, mas não foi assim tão fácil. O meu senhor não quis aceitar, é óbvio, eu era o seu melhor samurai. E, aliás, eu só continuo vivo nessa era de androides, porque ainda não conseguiram criar um androide que maneje a espada como eu. Mas continuando... como eu ia dizendo, o meu senhor não aceitou, então eu tive que fugir, e fujo, e fujo, e continuo fugindo. Eu matei ele, mas um filho, ou sobrinho, ou seja lá quem for, assumiu o lugar dele, e ainda quer me matar, além desse, há outros tantos a quem prejudiquei que querem se vingar de mim e querem a minha cabeça.

Então eu continuo fugindo e matando, fugindo e matando. Fugir é um saco sabe? Então porque eu não morro e não deixo eles me pegarem? Bom, eu já falei antes que ainda não sei direito, é tudo muito confuso pra mim. Vivemos em um mundo de incertezas.

Ah, me desculpe leitor (se é que há algum leitor), eu ia falar do homem que matei hoje e acabei mudando de assunto e esquecendo. Então vou continuar agora.

Como eu ia dizendo, matei meu senhor, então me tornei um ronin, que é um samurai sem senhor. E eu sou um ronin, eu sei disso, mas ninguém gosta de ser chamado assim. Hoje, um homem, esse que eu matei, me chamou de ronin e disse que eu iria pagar por tudo que eu já fiz.

Eu disse para ele que eu já pago, e que não sou um ronin. Então ele me questionou como eu pagava e quem seria o meu senhor. Eu disse que eu era o meu próprio senhor, e que eu pagava vivendo nesse mundo podre e tendo que ver a cara de um bosta que nem ele. Bom, nem preciso dizer que ele se irou e partiu para cima de mim. Foram só alguns segundos entre eu sacar a katana e guardá-la de novo que precisei para matar aquele cara. Eu sempre fico torcendo para que o fatiado seja um androide, traz menos peso na consciência, sabe? Mas não, esse era completamente humano. E ele não tinha a menor chance. Eu me pergunto: porque esses idiotas mandam outros idiotas? Provavelmente por que são idiotas, eu acho...

Então eu continuo caminhando por aí. Esse mundo está tão feio, são construções mal feitas abarrotadas umas por cima das outras, lixo e gente fedendo e passando fome, um horror. Às vezes eu tento ajudar outras pessoas que não tem como se defender ou conseguir comida, mas não acho que é porque eu seja uma pessoa boa que eu faço isso, acho que é só porque eu me sinto melhor quando faço isso... Será que estou sendo egoísta? Não sei.

Acho que é isso que eu tinha para escrever por hoje. E porque eu escrevi isso? Será que eu consigo responder a pergunta que eu mesmo me fiz no começo dessa escrita? Não tenho certeza, mas tentarei. Pode ser que seja porque quando eu era menino, eu gostava de escrever, só por escrever mesmo, e até certo ponto, tive uma infância boa. Então escrever me traz lembranças boas. Além disso, dizem que quando você tira uma coisa da cabeça e põe no papel, parece que você fica mais leve. Ou talvez eu quisesse me observar de fora. Ouvi falar também, que o auto-ceticismo ajuda você se entender e pensar melhor no que faz. Então é isso. Se for mesmo verdade essas coisas, então talvez eu escreva mais no futuro, isso se eu estiver vivo, é claro.

Então tchau. E até uma próxima (se houver uma próxima) pra quem está lendo, seja eu mesmo, seja quem for.

Uma carta para ninguém de um samurai sem rumoHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora