Episódio 00

20 2 0

Em uma de minhas viagens, visitei um homem a quem chamam de Mestre Korsan. O sujeito era tão inteligente, que passara a vida nas sombras de uma velha biblioteca. Muitos magos, grandes líderes e até reis procuravam-no em busca de seus sábios conselhos. Dizem que ele leu todos os livros que já existiram e que uma só palavra sua, poderia consumir todo o universo.

A biblioteca tinha prateleiras enormes, iam além do que pode ser visto, abarrotadas de livros de todas as épocas, de todos os gostos, nem em toda a minha vida poderia saborear por completo daquele esplendor. Não havia poeira, nem pragas, nem mofo no lugar, tudo era tão magicamente conservado que pareciam que os livros haviam acabado de serem escritos, nunca havia visto lugar tão lindo e tão infinito. A imensidão de papéis nunca chegava ao fim, depois de andar alguns quilômetros resolvi descansar, aconchegando-me próxima de uma das prateleiras. Ao meu lado direito havia um livro muito interessante, a obra contava as aventuras de um jovem guerreiro que deixou sua família a procura de um tesouro lendário, lutando contra monstros, desafiando gigantes e enfrentando seus piores medos, mas ao final ele finalmente descobre que tudo foi em vão, pois o tesouro era apenas uma história. É engraçado como os livros podem contar nossa própria história, eu procurava um tesouro, mas não poderia ter o luxo de descobrir que era tudo um mito. Na biblioteca nunca escurecia, o ar e a luz eram sempre os mesmos, havia um aroma agradável de lavanda e até mesmo o piso frio parecia aconchegante, não se ouvia nada além de uma belíssima melodia que ecoava pelo salão. Se você estivesse aqui, entenderia porquê Korsan decidiu viver no lugar. Era magnifico.

Depois de horas empenhadas no épico, resolvi continuar a caminhada em busca do velho mestre. Não sabia ao certo como encontrá-lo e a tentação de deitar em algum aglomerado de livros para devorá-los era enorme. Talvez devesse escalar uma das escadas apoiadas nas longas e pesadas prateleiras de madeira, mas meu medo de altura não permitiu que tomasse tal decisão. Continuei até avistar um velho homem com um chapéu pontudo e túnica longa. Sua barba branca quase alcançava o chão e uma de suas pobres mãos cansadas recolocavam um livro numa prateleira pouco acima de sua altura. Havia uma pilha ao seu lado, e aparentemente estavam retornando ao seu lar logo após serem devorados por um leitor assíduo. Aos poucos aproximei-me da engraçada figura , que sequer se importou com a minha presença, tudo indicava que ele fosse Mestre Korsan. O velho homem olhava para a capa de cada livro e encontrava onde colocá-lo com os dedos, sua concentração era contagiante. Já estava muito próxima dele e o homem não demonstrou nenhum espanto, questionamento ou ataque, na verdade, estava tão indiferente à mim, que tive de iniciar o diálogo.

- Com licença, o Senhor é Mestre Korsan?- Calmamente seus bondosos olhos verdes, destacados pela pele alva e aspecto raquítico, fixam em mim. Em suas mãos há um volume muito interessante, que há pouco havia me deliciado- Bem, eu me chamo...

- Helian- Ele interrompe dando tapinhas leves em meu rosto, o que se tornou algo extremamente cômico, pois Korsan era muito mais baixo que eu- Ele me disse que você viria... Tanto tempo...- Seu sorriso era meigo, mas seus lábios guardavam a sabedoria de todo o universo.

- Ele? Como o senhor sabe o meu nome? Estava a menos de um metro do senhor e não me dirigiu a palava. Como poderia me aguardar?- Seu sorriso bobo se alargou.

- Ele me contou tudo- Korsan olhou para cima- Já era aguardada há muitas luas minha querida... E sobre não lhe dirigir a palavra, bem, não era você quem procurava a mim?- Suas sobrancelhas espertas se movimentam rapidamente para cima acompanhadas do que pareceu-me ser seu habitual sorriso.

- Suponho que deseja ouvir o que tenho para dizer- Ele movimenta as sobrancelhas novamente em afirmativa- Pois bem, eu vim de um mundo distante para lhe encontrar. Tenho dúvidas sobre meu passado e o que farei do meu futuro e espero que possa me ajudar- Korsan põe o livro no lugar devido antes de responder, com certa calmaria que chegava a irritar.

- Helian, temo que tenha feito viajem perdida. O passado já foi escrito e tentar enxergar o futuro é como agarrar nuvens do solo, seja objetiva em sua pergunta, por favor- De alguma forma ele sabia de tudo e se não pudesse confiar naqueles olhos amigos, não poderia confiar em mais nada.

- Eu procuro palavras... Soube que nelas há um poder inestimável. Acredito que se tiver esse conhecimento acalme as dúvidas e ansiedades que me atormentam- Uma pequena lágrima ousou escapar de meu rosto e o velho bondoso se adiantou em secá-la com a manga de sua túnica.

- Oh...As palavras... A arma mais poderosa que o homem possui. As palavras podem construir, destruir, amar, odiar, poucas palavras podem matar um exército, não é a toa que o próprio Criador usou palavras para criar todo o universo em que vivemos e da mesma forma pode descriá-lo- Suas mãos manchadas seguraram firmemente as minhas enquanto o homem olhava no mais profundo da minha alma.

- Então existe um Criador?- A esperança retorna à minha face depois de tanto tempo.

- Oh, sim Querida... O rei de todas as coisas vivas- Pela primeira vez retribuo seus sorrisos sem motivo certo- Mas, temo de que o que você procura não esteja nas paredes dessa velha biblioteca. Ainda assim, não posso clarear seu caminho se não me disser a dúvida que estremesse seu coração.

- Eu gostaria de saber...- Meus olhos se fecham e apenas deixo as palavras correrem- Eu só queria saber o porquê de tudo isso, entender o meu, o nosso propósito. Achei que se tivesse o conhecimento de mil vidas e o poder das palavras poderia entender o porquê.

- Oh minha querida Helian, em toda minha longa vida, nunca pude compreender os segredos do criador. Nem todo o conhecimento a fará entender seu poder- Um suspiro, tudo o que pude dar em troca a Korsan.

- Mas senhor, como posso saber então, o porquê?

- Você deve encontrá-lO e fazer a pergunta- Parecia tão simples em seu ponto de vista.

- E onde posso encontrar o Criador do universo?- Disse em tom de ironia

- Seu coração dirá, minha querida- Ele aperta meus braços e em seguida me espreme em um abraço- Eu agradeço a Ele por me dar a chance de conhecer Helian, a garota da profecia. Segure isto, abra quando estiver longe daqui- O homem entrega um velho pergaminho pequeno em minhas mãos. Podia ver uma certa admiração vinda de Korsan, o que só pude devolver com um tímido riso. Não havia entendido boa parte do que ele dissera, mas sabia que por algum motivo o mais sábio de todos os homens acreditava em mim. O velho pegou um livro da estante e saiu andando, se camuflando no meio de tantas obras.A princípio acreditei que este fora o dia mais estranho de toda minha vida, mas não sabia o que viria depois.

E sem pestanejar, decidi que iria atrás do Criador para saber o porquê.

A ViajanteLeia esta história GRATUITAMENTE!