Prólogo

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    Era noite, estávamos eu e meus dois irmãos cuidando de alguns de nossos primos, enquanto os pais deles, e os nossos, estavam em um jantar de família - mas sem as crianças da família.
    — Deixa, deixa, deixa, deixa ... — Louis repetia enquanto me cutucava insistentemente até que eu cedesse.
    — Não! — Falei — Agora vá escovar os dentes e se arrume para dormir, amanhã nós vamos brincar lá fora.
    — EBAA!! Então vou logo dormir  assim amanhã chega mais rápido — E saiu correndo com seus cachos se agitando atrás de sua cabeça enquanto ele ia até o quarto.
 
Mas o amanhã não chegou para Louis.
  
Começou a chover. Eu não estava dormindo. Ouvi a porta da sala bater. Fui até a sala,onde as crianças estavam dormindo. Olivia, Mark, Alice... Cadê o Louis?!
    Subi correndo as escadas e fui até o quarto do meu irmão. Estava sentindo meu coração na garganta.
    — Mike! Mike! — Chamei mas ele não se mexeu.
    Fui até a cozinha é peguei um copo com água.
    Se ele não acordar, eu entro em desespero.
    Joguei a água na cara dele.
    — Ah... — Ele disse tossindo a  água que havia entrado em sua boca — Porquê fez isso?
   —O Louis sumiu — Falei em um sussurro — Eu não vi nada,só ouvi a porta bater e...
    — Pra que todo esse barulho? — Max apareceu no quarto com uma cara que deixava claro que eu havia interrompido seu sono — Não se pode mais dormir em paz?
    Olhei para ele,segurei seu ombros, e olhei nos seus olhos esperando que ele visse o quanto estava desesperada.
    Tentei não gritar,tentei ao máximo não entrar em pânico, então o que saiu da minha boca não passou de um fiapo de voz.
    — Max,o Louis sumiu.
  
****

    Estávamos eu e Mike procurando por ele no Jardim das Gardênias — o lugar onde ele havia pedido para brincar mais cedo.
    O parque estava silencioso. A noite estava fria. O único barulho que se ouvia era do balançar das folhas quando o vento batia nelas. As nossas vozes ecoavam pela rua.
    As crianças estavam dormindo e Max estava cuidando delas.
    Quando comecei a entrar em desespero, algo me deu um motivo para gritar. Encontrei o Louis!
    Ele estava caído no chão. Cabeça cortada. Corpo pálido. Muito sangue em volta dele. As entranhas de seu pescoço, todas para fora. Os olhos... Como os de uma criança que acabara de ver o Bicho Papão. A boca aberta como se quisesse gritar,mas nada saísse.
   Louis estava morto.

****

    O dia amanheceu. A polícia já havia chegado. Tentaram me tirar do local onde o corpo estava,mas sem sucesso. Eu não conseguia acreditar. Louis,uma criança de 7 anos havia morrido. Uma criança que podia ter uma vida inteira pela frente,não conseguiu nem brincar no parque no dia seguinte.
    Passei por interrogatórios, o policial e o familiar. Todos queriam saber o que tinha acontecido com ele. Eu também queria.
    Isso passou a me intrigar. Todas as noites eu o via. Uma criança que esperava ansiosamente pelo amanhã,mas não conseguiu chegar até ele.
    Não falava com ninguém.
    Meus pais me mandaram para um psicólogo,para que eu conversasse com alguém, mas eu não falava nada. Pois ninguém sabe o que eu sentia. Ninguém sabe o que eu sinto.
    Não fui capaz de ir ao funeral dele,mas me disseram que foi caixão lacrado.

Cidade DecapitadaWhere stories live. Discover now