Capítulo 1

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Os raios de sol radiante da manhã passavam pela janela quebrada do quarto de Mary e  o iluminavam por completo. A camponesa se espreguiçou esticando os braços o máximo que pode, ao se levantar foi cambaleando até sua penteadeira. Suas longas madeixas negras iam na altura de seu mediano bumbum, sua boca carnuda e rosada contrastava com o rosto angelical e afilado, seus brilhantes olhos verdes eram como pequenas esmeraldas lapidadas pelo criador. O vestido surrado e cinza era de costume, pois, não precisava se arrumar para trabalhar na colheita.
A vida de Mary era difícil, após a inexplicável morte de seus pais, ela ficou sozinha e teve que se manter desde os quatorze anos, agora com vinte um ela tenta viver e encontrar um marido para que possa viver o resto de sua vida miserável com alguém que a ame. Colher. Plantar. Colher. Plantar. Essa era a vida de Mary na colônia. Todos simpatizavam com a garota, mas não a ajudam, é cada um por si.
Ela não fazia ideia que naquela manhã sua vida mudaria por completo. Ela saiu para a colheita como todas as mulheres da colônia, o sol estava forte, ela suava até pingar, mas em um segundo tudo ficou escuro parecia que iria cair uma tempestade ali. Pelos portões da entrada norte da colônia surgiu um homem, ele tinha longos cabelos cor de fogo na altura dos ombros, era alto - maior que qualquer homem da colônia -, sua boca era rosada e sua pele branca como uma nuvem, seus olhos eram azuis e claros como o céu. Ele caminhava devagar, suas roupas eram impecáveis, ele parecia ter muito dinheiro e todas as garotas da colônia já se interessaram nele.
Ele passou pela colheita com um sorriso de canto e ao passar por Mary piscou o olho esquerdo, ela estremeceu e parou no tempo ao vê-lo desfilar com maestria por sua frente, ele parecia flutuar sobre o ar. Por incrível coincidência do destino - ou não -, ele comprou a casa ao lado da casa de Mary. Já estava tarde quando ela voltou para casa, mas para isso ela teria que passar na frente da casa dele, com vergonha ela seguiu sem olhar para os lados, logo, ela ouviu um chamado, a voz dele era doce e calma como uma melodia. Ela parou e os poucos se virou para ele.

– Mary, sim? – perguntou com um largo sorriso nos lábios rosados.
Ela estremeceu e sorriu de volta
– Sim, Mary. Mary Jenkins. E o seu nome, como é? - indagou, corada.
– Meu nome é Lucien. Lucien Bellard. Você mora sozinha,  senhora Jenkins?
– Senhorita. - corrigiu. – Moro sozinha, meus pais morreram quando tinha quatorze anos. – baixou a cabeça lentamente com o semblante triste.
– Desculpa! Não fique triste, meu pai me expulsou de casa quando era novo após uma briga. - exclamou. – E meus irmãos não me ajudaram... Ficaram ao lado dele. – acrescentou. – O que acha de passear pela colônia depois? Queria conhecer melhor e você é única conhecida aqui e ainda é minha vizinha. – rapidamente seus olhos foram tomados por uma cor negra como de uma noite sem lua, olhando fixamente para Mary ele mordeu o lábio inferior.
Os olhos de Mary ficaram entreabertos, ela apenas assentiu com a cabeça e caminhou até sua casa.

Mary parecia estar com um peso nas costas, andando devagar ela adentrou na casa pela porta principal e se dirigiu as escadas, sem se lembrar de nada que aconteceu há poucos segundos, a única coisa que lembra é de seus olhos pesaram e não sentir mais seu corpo. Subindo pelas velhas escadas frias de madeira da casa, a mesma lembrou da proposta de Lucien e apenas lembrava de dizer sim. As vestes surradas da mesma arrastavam-se pelo chão cobrindo seus pés sujos de terra. Ela sentiu um cheiro forte vindo de seu quarto, um cheio de sangue misturado com enxofre. Abrindo a porta ela se depara com uma cena horrível, vários corvos mortos sobre sua cama, penteadeira e cortinas que estavam rasgadas no chão, Mary gritou alto ao ponto de despertar a atenção de Lucien que ao ouvir aquilo adentrou correndo pela casa e, logo, chegou rápido ao corredor que dava acesso aos quartos.

– Mary? Mary? - chamou, sem resposta.
Mary chorava de medo por ver aquela cena horrível.

– LUCIEN! AQUI, A ÚLTIMA PORTA DO CORREDOR. – gritou, entre seu choro.

Lucien correu até a mesma e a achou deitado no chão, desolada.

– O que acontece aqui? – perguntou, com o pequeno sorriso no rosto.
– Eu não sei, quando entrei estava tudo assim, eram as coisas dos meus pais... – a morena subiu suas mãos até a cabeça para amarrar alguns fios de seus longos cabelos negros que estavam sobre seu rosto. – Não sei o que fazer.

Lucien andou devagar até ela e a acolheu em seus braços fortes, a mesma  apoiou sua cabeça sobre o peitoral de Lucien e fechou os olhos, ele ria dela em silêncio. Seu plano para desestabilizar a garota havia sido perfeito, Mary estava em suas mãos.

– Mary, olhe pra mim. – ordenou em tom baixo.
– Sim... – ela virou-se subitamente para ele, o encarando.
– Venha morar comigo, diga sim e vá para a minha casa. – exclamou enquanto fixava seus olhos negros nos dela.

Os olhos de Mary retornaram a ficar pesados e entreabertos. Ela apagou.

O ruivo não sabia o que havia acontecido era a primeira a vez que alguém resistia ao seu hipnotismo e adormecia. Um barulho alto explanou por toda a casa que estremeceu por completo, um perfume adocicado e forte fora sentido pelo bruxo, logo, tomou conta do lugar deixando Lucien preocupado. Um homem alto, com cabelos amarelos como ouro apareceu na porta. Seus olhos eram brancos e brilhantes, ele trajava uma leve armadura do que parecia ser ouro branco e rosa, uma espada de cabo dourado brilhava em sua cintura.
Largando Mary sobre o chão ele se pôs de pé a frente do sujeito que ali estava. Em um súbito movimento, enormes asas negras surgiram em sua costa quebrando as paredes do quarto de Mary, uma densa nuvem negra adentrou pela janela cobrindo todo seu corpo, suas roupas se transformaram em uma armadura de diamante negro, um elmo de mesma cor surgiu cobrindo sua cabeça por completo, em sua cintura uma espada escarlate brilhante de cabo negro.

– Luci... – disse o homem louro ao recuar. – Não precisamos fazer isso. – acrescentou com sua voz de entoação calma e firme.

– Samuel! - exclamou, com escárnio. – Não acredito que Ele te mandou aqui, logo você, o mais fraco e tolo de todos nós. - provocou o olhando fixamente.

– Por que faz isso? O que faz aqui? Sabe que seu lugar não é aqui, caro irmão. O Criador só quer o nosso bem. - o louro respirou fundo ao desviar seu olhar para a janela quebrada.

Lucien havia entendido que irmão não veio para brigar e baixou a guarda, sua armadura e asas se desmaterializaram em um densa nuvem negra que percorreu todo o quarto e saiu pela janela quebrada. Samuel fez o mesmo e logo após isso caminhou até o irmão, parando em sua frente ele sorriu fraco. Antes de ser expulso do céu, Lucien e Samuel eram próximos mesmo com a diferença de idade existente entre eles, agora eles estão de lados opostos e uma briga não iria só ferir seus corpos mundanos, mas também o amor de irmãos que os dois tinham e ainda com tudo isso eles se amavam como antes, nada havia mudado.

– Samuel, vá embora. Interferir nos meus planos com Mary pode prejudicar muito você, és o único irmão que gosto, mas para obter o que quero te matarei se for preciso.

Lucien subiu suas mãos sobre o corpo do irmão e o puxou para um abraço forte. Samuel, tolo que era acreditou naquela demonstração de afeto do irmão e o abraçou. Com um rápido movimento as unhas dele se transformam em garras afiadas e grandes, Lucien rasgou a costa do irmão e com o sangue do mesmo em suas mãos ele recuou devagar e passou em seus lábios rosados.

– Nenhum sangue supera o sangue angelical, Samuel. Deveria provar quando voltar para casa. – Lucien gargalhou alto olhando para sua mão suja de sangue.

– Luci... - lágrimas percorriam o rosto angelical de Samuel até caírem sobre o chão frio do quarto. – Por que? Eu sou seu irmão... – o olhar perdido de Samuel percorria o quarto e o rosto sem expressão do irmão.

– Você é um anjo e eu um demônio, não somos irmãos. – corrigiu. – Foi como o papai disse, eu sou a personificação do mau com rosto de anjo. Agora suma daqui e não volte mais, ou você deixará de existir, caro Samuel.
Lucien deu de ombros e virou-se para o outro lado do quarto.
Um bater longo de asas fora ouvido por Lucien e, logo, Samuel havia sumido dali. Se cuida, irmão, eu não posso te poupar para sempre. Pensou ele pairando as mãos sobre a boca ainda suja de sangue.
Após alguns minutos Mary acordou e viu Lucien debruçado sobre a janela olhando para as estrelas, a luz do luar o deixava ainda mais lindo a ela ainda mais apaixonado por ele. Aos pouco ela caminhou até ele, um perfume doce exalava de Lucien entrando rapidamente pela narina de Mary que estava logo atrás do mesmo, o olhando.

– Então senhorita Jenkins, aceita minha proposta? – um sorriso tomou conta do rosto de Lucien ao pensar na resposta positiva da mesma.
– Sim, senhor Bellard, eu aceito. – Mary estava radiante, seus olhos verdes pareciam brilhar de tanta felicidade.

– Amanhã faremos sua mudança. Agora venha aqui e vamos ver a lua... – um sorriso malicioso tomou conta do rosto de Lucien ao tomar Mary em seus braços.

– Sim, senhor. - exclamou a camponesa ao se aconchegar sobre os braços do amado até adormecer ali mesmo.

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⏰ Last updated: Nov 15, 2016 ⏰

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