O Caçador de Fantasmas

59 7 4
                                        

Enquanto eu andava pelas ruas quase escuras do início da noite, e via o céu tornar-se gradualmente púrpura, ficava imaginando o que aquelas inocentes pessoas imaginavam ao ver um cara como eu atravessando seus bairros pacatos e comuns.

Eu não era alguém que passaria despercebido em uma multidão, não só pela altura extrema, fora dos padrões normais de qualquer homem, tampouco pela roupa gasta, composta por uma calça jeans rasgada e suja, uma camiseta preta desbotada e um casaco longo puído e descosturado em diversas partes. Menos ainda pelos meus cabelos compridos e muito despenteados completando a imagem de um homem extravagante, de barba mal feita, repleto de tatuagens e algumas argolas amontoadas na orelha. Por mais absurdo que possa parecer, isso tudo é o que menos chamava a atenção no conjunto que sou. Acho que o que faz as pessoas me observarem insistentemente é justamente o brilho perturbador do meu olhar. Uma luz assassina e doentia, que emana de minhas pupilas, como querendo devorar qualquer pessoa que cruze meu caminho.

Sempre com minha companheira, a caixa de guitarra de couro desgastado e envelhecido, que tem tudo em seu interior, menos uma guitarra. Esse sou eu no todo. Pelo menos a parte de fora, aquilo que eu apresento ao mundo.

No auge de meus trinta e oito anos, angariei diversos empregos, fui catador de lixo, atendente de supermercado, cuidador de idosos, babá de cachorros, e até lavador de carros. Mas meu último emprego é, sem sombra de dúvidas, o mais rentável.

Mas o que eu fazia naquele bucólico bairro familiar não é realmente importante, e sim sobre como arrumei o melhor emprego da minha vida, aquele que me daria fortuna e vida eterna. Imagina qual seja minha atual profissão? Talvez lhe ocorra que como falei em vida eterna, eu pudesse ser um vampiro ou algo do gênero. Não, não sou nada disso, se eu precisasse deixar de beber meu bom e velho conhaque para viver de sangue, isso já seria a morte para mim. Não meu velho! Eu sou simples e claramente: um caçador de fantasmas.

Como um caçador de fantasmas pode se tornar eterno? Apenas assinando o contrato certo, com o patrão certo. Simples assim!

A eternidade seria apenas um dos muitos benefícios desse emprego. Um salário milionário, acrescido de periculosidade, insalubridade e adicional noturno, plano de saúde e imortalidade. O problema é que eu jamais teria aposentadoria, então envelhecer sentado em uma cadeira de balanço, vendo o que me restava de vida passar diante de meus olhos junto com o sol se pondo, era algo que jamais me aconteceria.

Consegui esse emprego de uma forma tão inusitada quanto são as coisas que caço: fantasmas de psicopatas. Eu sou quase como um agente do FBI sobrenatural. Algo assim, para facilitar sua compreensão. Só que os caras do FBI e outras agências de polícia investigativa sequer imaginam minha existência, menos ainda do meu empregador.

Como disse a pouco, meus empregos anteriores não eram lá grande coisa, mal pagavam meu cigarro, meu conhaque e alguma garota que recebia poucos trocados para que eu não passasse a noite sozinho.

Uma vida triste a vazia. Bom, quanto a isso não houve muita mudança, exceto pelo fato de que o conhaque agora é de primeira e as garotas recebem um cachê melhor para aguentar meu mau humor a noite.

Não sou exatamente um cara desagradável, mas meu nível de intolerância, impaciência, sarcasmo e negligência com a aparência me tornam alguém que poucas pessoas querem por perto. Nem mesmo os fantasmas. Junte-se a isso uma tendência natural para a crueldade.

Em uma daquelas noites em que ia torrar meus últimos centavos com um copo de requeijão cheio de conhaque barato, me deparei com meu patrão sentado no balcão do bar. Poderia passar por qualquer um. Um cara bem comum até. Exceto pelo olhar maníaco, que anunciava às pessoas ao redor para ter cuidado.

You've reached the end of published parts.

⏰ Last updated: Nov 09, 2016 ⏰

Add this story to your Library to get notified about new parts!

O caçador de fantasmasStories to obsess over. Discover now