Mal

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O garoto se afogava.

Tudo era branco, tudo era bom. O garoto também o era, mas mesmo assim questionava. E o garoto se afogava em sua questões, suas dúvidas.

Não conseguia respirar mesmo estando cercado de ar, não conseguia se mover mesmo que nada o prendesse.

O garoto venerava seu lar branco, mas não se sentia parte dele. Ele não era mais todo branco, havia uma pequena mancha cinza em seu coração. Ele poderia voltar a ser branco como todos ao seu redor?

Não mais.

Não depois de tê-lo em sua vida.

Adorava o branco, mas queria o negro para si. Queria ele e todas as coisas negras que trazia consigo.
O garoto emergiu, ele puxou o garoto. Impediu que se afogasse, foi sua salvação.

Mas como pode o mal ser a salvação de alguém?

O garoto era branco e ele não deveria ser capaz de tocá-lo, mas não conseguiu se impedir.

Havia algo. Aquele garoto, ele precisava enegrecer aquele garoto. Era uma necessidade nunca antes sentida, como se pudesse deixar de existir se não o tocasse.

Todo aquele branco, todas aquelas dúvidas. Tudo naquele garoto era tão atraente para ele.

Ele queria o garoto. O garoto queria ser dele.

✳✳✳

Eu ouvi sua voz tão distante, como se estivesse à metros de mim, ao mesmo tempo sentia que ele falava dentro da minha mente. Queria chamá-lo.

Venha!

Se aproxime de mim!

Me toque!

Mas da minha boca nenhum som saía.

Queria vê-lo. Sua voz tão doce me incitava a nadar e procurá-lo, mas onde ele estava?

Quem era ele?

Tão distante. Tão perto. Tão inalcançável. Tão acessivel. Tão misterioso. Tão acolhedor.

A voz continuava a falar... Em minha mente? Em meus ouvidos? Não sei dizer, mas estava em mim. Forçava-me a me movimentar e me anestesiava. Não sentia meu corpo, não sentia a dor esperada, não sentia a paz final. Não podia sentir nada além do calor de sua voz, além dele.

Ele me quer. Eu serei dele.

Então, como um choque atravessando meu corpo, uma força me impulsionou para fora. Novamente eu sentia o ar.

Da minha boca saía a água intrusa, eu podia sentir a dor causada por ela em meus pulmões. Eu voltava a sentir os meus músculos, todas as dores novamente, mas ainda não sentia a paz.

E o pior: não o sentia mais.

✳✳✳

E eu finalmente conseguia enxergar.

Além do meu lar, além do branco, além do que meus olhos foram treinados para ver.

A verdade era bem mais do que eu imaginava ser e ao mesmo tempo não existia uma verdade. A verdade era inúmeras janelas distintas, várias verdades para vários contextos. Além e além.

Existia o branco e existia o preto, mas também existia o cinza e mais uma infinidade de cores.

No entanto, tudo era mentira.

Agora eu via. Aquilo que eu vivia era uma verdade, mas não a minha verdade. Eu vivia uma mentira muito bem contada por um excelente contador de estórias que me fez acreditar que aquilo era a minha verdade.

Não era. Nunca mais será.

A verdade é que em minha vida não existia verdades. Uma vida sem verdades é vazia, não há sentido. Tudo é falso: sentimentos falsos, experiências falsas, pessoas falsas. E o que resta?

Nada.

Não havia nada.

Havia apenas eu no meio de mentiras. Mentiras por fora e mentiras por dentro.

Apenas sangue, suor e lágrimas. Apenas órgãos, nervos e sistemas. Apenas um corpo. Apenas biologicamente vivo.

Eu já não era nada. Eu era uma mentira, eu vivia uma mentira, eu era um vazio.

Vazio.

E quando eu finalmente pude enxergar, eu já não queria mais ver. Não suportava me ver. Ninguém poderia me ver.

Não havia verdades. Não havia sentimentos. Não havia esperança.

E, então, não havia eu.

Sky with Diamonds - Delírios e devaneiosPovești de care să fii obsedat. Descoperă acum