Clair de Lune

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Talvez eu não devesse contar isto a você. Talvez seja errado, mas não ligo para as consequências.

Sou eu. o "K", que andou sumido durante esses últimos longos meses. O certo é que eu não consegui me safar desde o último assassinato em diadema. Aquela guria conseguiu gritar mais alto que meu rádio FM. Maldita música On the road, mas fazer o que, eu gosto de Canned Heat.

Muitos me perguntam o porquê das mortes e do meu fascínio por ela em si, pois bem, eu falarei.

Eu trabalho num escritório e sou obrigado a acordar absurdamente cedo e encarar esse mundo "vazio". Durante o percurso até o trabalho, observo as pessoas. De como elas se "encontram" todos os dias e nem se prestam a conversar entre si. Às vezes isso chega me incomodar.

Sou frio como uma placa de gelo e nem assim consigo deixar que passe por despercebido coisas como essas. O quão solitário e vazio é esse mundo em que vivo.

Mas é daí de onde e como escolho minhas vítimas. Procuro sempre pelos olhares mais furiosos e trancados, pois quando eu deito os corpos adormecidos na mesa de aço frio, eu posso ajudá-los a botar pra fora todo esse sentimento recluso em suas gargantas. Nas longas horas que fico com eles, serve mais como uma consulta psiquiátrica, onde eu faço o papel do soberbo doutor que finge se importar com problemas alheios, mas não se engane. Eu me importo, pois me alimento da verdade, aquela verdade que eles são obrigados a me dizer, e quando a lâmina desliza sobre a pele do pescoço, posso sentir todo aquele sentimento oprimido se perder no escuro dos olhos. No último suspiro, no último grito.

Mas não me questione sobre a sujeira. oh não. O jaleco transparente que uso se encarrega do fardo de manter-me limpo.

Mas, por mais confuso que seja, ou pareça, não é. Perdoem-me a maneira de como vos escrevo, pois, na verdade, é difícil manter o controle das 7 vozes trancadas em minha cabeça. Elas me incomodam as vezes, mas há sempre um lado bom em tudo, e o meu é que nunca estou só.

"Queime seus demônios interiores", dizia Jim Morrison, aos seus 27 anos. Porém, na teoria é fácil. O senhor Morrison não sabe nada sobre transtornos psicológicos e seus derivados, então por isso, para ele, é fácil dizer isso. Ele não é obrigado a dividir a mente com seis personalidades diferentes, uma mais perversa do que a outra, num bailar doentio, sem equilibro algum. O Yin Yang não existe em mim, sou caos puro, disfarçado numa camisa social branca de quadriculados azuis. Sou o fogo, sem a água. O frio sem a chuva. O inferno sem a mão pesada de Lúcifer para governar.

Detesto esses artigos de jornais que diz que "psicopatas" são pessoas que não conseguem amar. Pois não passa de uma mentira fajuta. Nós amamos sim, amamos a nós mesmos. Um olhar no espelho é tão satisfatório quanto uma transa com a puta mais atraente da cidade. E, ainda sobre os artigos, eles tem razão quando diz que somos exímios mentirosos. Mas não é algo que vem com a psicopatia, é algo que aprendemos com o tempo. Fingir emoções é tão fácil para nós, que "mentir" expressando um sentimento de "verdade" é tão real que até mesmo eu acredito em minhas palavras. Algo que demorei à aperfeiçoar, mas quando consegui, soube mentir até meu próprio nome.

Já que estou descrevendo meus hábitos, algo que nunca fiz, irei contar mais sobre mim.

Neste momento em que escrevo, estou sentado em frente a um computador do escritório onde trabalho. É horário de almoço e os "meia dúzia" de funcionários estão lá em baixo no refeitório. Estou só. Sendo guiado pelos meus dedos que escrevem isto e a música baixa da Rádio Alfa FM, que toca sucessos dos anos 90. Em minha mesa há algumas pilhas de documentos, uma calculadora, meus óculos e minha fiel garrafa de água. Eu sento perto da janela e de vez em quando observo os pássaros voando e o som dos carros passando daqui do segundo andar. Um aroma de café também me surpreende vindo lá da copa, e um cheiro de papel velho entope meu nariz.

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⏰ Last updated: Oct 06, 2016 ⏰

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O Bom Anjo... do Apocalipse. Stories to obsess over. Discover now