Dizem que recomeços são como o sol depois de uma noite de tempestade. Uma nova chance. Uma página em branco esperando para ser escrita. Mas nem todo recomeço é leve. Às vezes ele vem carregado de restos do que já foi. O passado, mesmo quando parece superado, deixa marcas. Quando uma ferida cicatriza, a pele se fecha, mas a cicatriz continua ali. Visível ou não. O difícil não é apenas sentir a dor. É aprender a conviver com a marca dela. Ou fingir que ela não existe. Pelo menos para mim sempre foi assim.
Passei a noite inteira pensando nos acontecimentos dos dias anteriores. Tudo aconteceu rápido demais. Eu mal conseguia organizar meus próprios pensamentos. A mudança repentina não saía da minha cabeça. E ele também não. O "grande ex amor da minha vida" ainda ocupava espaço demais dentro de mim.
Só percebi que já estava na hora de sair quando Jessy me tirou do transe, batendo na porta para avisar que já iríamos partir.
— Ei, bom dia. Vamos sair em meia hora. O café já está na mesa.
A suavidade na voz dela fazia parecer que estava tranquila com a mudança. Eu não entendia como alguém conseguia ter ânimo numa manhã como aquela. Talvez o problema fosse só comigo. Eu tentava parecer animada, mas minhas tentativas eram frustrantes.
— Oi. Já vou descer.
Minha voz saiu rouca. Não sabia se era por ter passado quase a noite toda chorando ou pelo nervosismo de me mudar para uma cidade completamente desconhecida. Talvez os dois.
— O que houve? Você está com olheiras. Não conseguiu dormir?
Percebi a preocupação no olhar dela. Jessy era a minha irmã. Justamente por isso eu não queria preocupá-la.
— É só um pouco de ansiedade.
Ela se aproximou e sentou ao meu lado.
— Eu sei que isso é difícil. Mas você não está sozinha, sabe disso. Vou fazer o possível e o impossível para te ver bem.
— Obrigada. Eu estou bem, não precisa se preocupar. Melhor terminar de arrumar as coisas, já está quase na hora.
Em situações assim eu sempre arrumo uma desculpa para ficar sozinha. Ou pelo menos tento.
— Tá bom. Não demora. Eu te amo.
Ela me deu um beijo na testa e saiu antes que eu respondesse. Ouvi os sussurros dela com John no corredor. Seu marido. Meu cunhado querido, sem ironia.
— Ela está daquele jeito. Acho que é por ele. Tudo isso está afetando muito ela. Espero que morar longe ajude.
— Vai dar tudo certo. Estou disposto a ajudar no que precisar.
— Então aproveita essa disposição e começa a carregar as malas.
Os dois riram. Depois de um minuto, o silêncio tomou conta da casa.
Decepções nos mudam de uma forma indescritível, e algumas mudanças são permanentes. Outras só parecem ser. Não sei ao certo como será minha vida daqui pra frente, mas de qualquer forma preciso acordar todos os dias e continuar vivendo, da forma que dá.
Durante todo o trajeto até o aeroporto eu não disse uma palavra. Passei o tempo todo pensando no que estava deixando para trás. Em quem estava deixando para trás. Jessy e John conversavam no banco da frente. De certa forma era bom. Assim ninguém reparava no meu silêncio.
Depois de quase uma hora chegamos ao aeroporto. Convenci Jessy a me deixar resolver a parte dos passaportes e das passagens. A fila estava enorme, como sempre. Esperei por um bom tempo até finalmente pagar tudo e pegar as passagens.
A partir dali seriam oito horas de voo até Bellmont e mais duas horas de estrada até a pequena cidade chamada Vale Sereno. O nome soava calmo demais para alguém que estava fugindo do próprio passado.
Aproveitei um momento de distração de Jessy e tomei três comprimidos. Eu precisava dormir. Sabia que só um remédio - ou mais de um - seria capaz de permitir isso.
Entramos no avião. Me encostei na poltrona e senti a pressão quando começamos a decolar. As casas e as pessoas foram se transformando em pequenos pontos. Quando o voo estabilizou, coloquei os fones de ouvido e encostei a cabeça na janela até tudo ficar escuro.
— Acorda, Ivy. Já chegamos.
Levantei em um pulo. Demorei alguns segundos para entender onde estava. Percebi que tinha dormido a viagem inteira. Não tive sonhos. Era como se eu simplesmente tivesse deixado de existir por algumas horas. De certa forma isso me trouxe um alívio, mesmo que passageiro.
— Que susto. Você estava exausta mesmo. Dormiu o voo todo.
— É...
Eu mal conseguia falar. O efeito do remédio ainda estava presente no meu corpo.
— Está tudo bem? — John perguntou, preocupado.
— Está. Só estou cansada. Não vejo a hora de chegar.
— Você não é a única. Meu corpo está completamente dolorido.
— Somos três então.
John e Jessy sorriram. Eu não consegui retribuir. Disfarçadamente me apoiei na poltrona da frente porque ainda estava um pouco tonta.
Pegamos um táxi até a rodoviária. De lá seguiríamos para Vale Sereno. Dentro do ônibus, Jessy tentou puxar assunto.
— Ivy, o que você planeja fazer quando chegarmos?
Pensei em uma resposta simples, que não abrisse espaço para mais perguntas. A verdade é que eu não tinha plano nenhum.
— Descansar. E depois ajudar com a arrumação, claro.
— Não se preocupe. A casa já está arrumada. Principalmente o seu quarto. É uma surpresa.
— Sério? Tenho certeza que vou amar.
— Vai sim. Eu sou ótima em decoração.
— Muito convencida — John disse, rindo.
— Ei, eu estou certa. Sou ótima nisso.
— Sim, você é.
— Concorda, Ivy?
Assenti com a cabeça. Jessy percebeu meu desânimo e não insistiu. Acho que é coisa de irmã perceber quando a outra não está bem. Ou talvez meus sorrisos forçados e meus olhos fundos estivessem dizendo tudo por mim. Ainda restavam duas horas de estrada. A exaustão e o que restava do remédio no meu corpo fizeram com que eu dormisse a viagem inteira mais uma vez. E lá estava eu, pronta para um recomeço. Pelo menos era isso que estava repetindo na minha mente, até acreditar.
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O coração quer o que quer
ChickLitIvy carrega um passado que ninguém conhece por completo. Ela passou os últimos meses tentando convencer a si mesma de que toda sua história ficou para trás. Quando os sentimentos reaparecem e verdades começam a surgir nas entrelinhas, Ivy percebe q...
