Seus olhos sorriam de uma forma quase que sensual, ah aqueles olhos! Eram incomuns, eles expressavam uma ousadia selvagem e uma alegria libertina, instigavam-me a responder uma pergunta inexistente, neles cabiam todos os mistérios do universo. Eram negros como o crepúsculo, como se roubassem toda a luz da estrela, que conheço por sol, apenas para aquecer meu coração. Eu poderia criar mil poesias apenas sobre suas retinas. Ou sobre a suavidade de sua pele pálida.
Mas foi quando ela sorriu, que perdi-me, vi meu pulso acelerar como se ocorresse numa maratona, minhas palavras se perderam no contorno de seus lábios cheios, vermelhos e convidativos. Senti meu estômago dar uma volta completa, ignorei, o que apenas lembrou-me de seus longos cachos encorpados, que se acemelhavam a uma floresta negra emoldurando seu seu rosto pequeno, e terminando na perigosa curva de seu quadril.
Engoli seco quando percebi que todos me olhavam. (Todos exceto ela). Dei cinco passos à frente e arrastei o banco ao seu lado observando-a cautelosamente, ela não se importou, ou talvez ignorou.
"Nunca te vi nesses lados..." comentou enquanto analisava minuciosamente o copo vazio.
"Talvez tenha visto o lado errado" sorri disfando o nervosismo, estava surpreso.
Ela fitou-me como se ainda estudasse mentalmente o pequeno copo de vidro, sem expreção alguma. Entediada.
"É talvez" sorriu "Mas você não é daqui, sabe como é... Cidade pequena, eu conheço todo mundo." mordeu levemente o lábio inferior " e você amigo, não me é nada familiar. "Completou.
" Na verdade você tem razão, me mudei à poucos dias" olhei para seus lábios e depois me fixei em seus olhos, tentando parecer um pouco mais confiante "Você poderia me mostrar cidade qualquer dia" sugeri.
"Não tem muito o que mostrar não" voltou-se para bancanda e sinalizou para um rapaz loiro de barba rala que, logo trouxe outro copo com uma bebida rosada que cheirava à álcool e algo que me lembrava sarope para tosse. "Mas o que te trouxe aqui? Algo me diz que não está fazendo turismo."Riu irônica.
" Sou escritor."disse com certo orgulho na voz, e pensei se devia também pedir uma bebida, ia parecer mais interessante e talvez ficaria mais à vontade. Não, não precisava disso. "Eu estou procurando inspiração sabe? Nada como uma mudança de áres para ter novas idéias."
"Não, não sei..." Virou-se inteiramente pra mim, apoiando o cotovelo direito sobre o balcão. Parecia, agora, interessada no assunto. Ela usava uma blusa preta de alças finas, levemente decotada, juntamente com um jeans skinny de mesma coloração."E tá funcionando? " perguntou me estudando, sem muito entusiasmo.
"É... Bastante" você não imagina o quanto, completei mentalmente. "Que tal falarmos sobre isso amanhã em um jantar?" aproximei nossos rostos e pude sentir seu perfume floral, adocicado e inebriante. Porque tudo nela precisa ser tão exitante? "Assim posso conhecer melhor a cidade" e você, completou meu subconsciente.
Ela baixou o olhar, pareceu pensar um pouco, depois, voltou a me encarar com seus olhos felinos. "Você é bem insistente, pra um desconhecido"
Afastou-se. Ela era imprevisível. Fiquei momentaneamente sem reação. Depois arrastei o banco até estar próximo o bastante para que pudesse me ouvir.
"Bom, eu sou o Maximilian...Pode me chamar de Max, ou como preferir." Estendi a mão da forma mas simpática que pude mostrando meu melhor sorriso "Viu? Agora não sou mais um desconhecido."
Não segurou o riso. Ignorou minha mão estendida, mas suspirou convencida, isso Max! Jogada de mestre!"Certo, Maximilian..." Foi engraçado a forma como ela juntou os lábios ao falar meu nome."Nos vemos amanhã? Ás oito." E levantou do banco.
Rapidamente revirei meus bolsos à procura do celular, o encontrando no bolso de trás da calça, peguei-o e estendi à sua frente, mas quando nossos olhos se encontraram, vi em seu rosto, uma enorme interrogação."Eu preciso do seu número, pra que possamos conversar amanhã. " Tratei logo em esclarecer.
"Ah, claro. Que cabeça a minha."
Bateu na propria testa rindo, pegou o aparelho, digitou rapidamente e devolveu-o.
Olhei o novo contato.
Lidel, seu nome era Lidel.
Sorri satisfeito enquando bloqueava e guardava meu telemóvel novamente no bolso de trás do meu jeans , quando a procurei novamente ela já havia ido embora.
Naquela noite, quando cheguei ao meu apartamento não pensava em outra coisa, mau podia esperar para que chegasse a sexta à noite quando ligaria para a Lidel, ela atenderia com sua voz aveludada, eu até podia imaginar seu lábios se movendo, me enfeitiçando... Nos encontraríamos para jantar, ela usaria um vestido preto godê e uma scarpin no mesmo tom de seu baton vermelho sangue. Escolheriamos uma mesa afastada, eu lhe diria sobre o quão bela ela é, e conversaríamos sobre nossos vidas. Depois eu a levaria até sua casa, onde trocariamos um beijo e marcariamos outro encontro. Talvez me convidasse pra entrar, ou não.
Não importa, sonhei com isso a noite inteira.
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A Noite Estrelada
Mystery / ThrillerMax tenta fugir de sua história conturbada, indo parar em uma minúscula cidade do interior, porém encontra histórias horripilantes e muito mais problemas.
