Prefácio

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Não lembro quando, mas sei que foi há muito tempo. Sei pelo estado lastimável do cartão guardado na minha carteira. Exatamente isso: guardado. Se não me engano, estávamos sob o sol da manhã e o Marco falava de sua carreira como produtor de uma banda de pagode. Um pouco depois, me entregou um cartão de visitas. Produtor de conteúdo?! Me veio o espanto. Que merda é essa? Sabe, talvez não tenha sido sob porra nenhuma de Sol da manhã. Foi à tarde, por volta das duas horas, na frente do CASO, o Centro Acadêmico de Sociologia, pois era lá onde queríamos estar. É o que gosto de pensar, pois sei muito bem que estávamos lá por não saber aonde ir. Produtor de conteúdo? Que merda é essa? Descobri aprendendo com o Marco, o amigo que tenho ao meu lado e o escritor que me ajuda a subir cada degrau.

Não lembro quando, mas sei que foi ainda neste ano. Eu, com a vergonha da desistência nas costas e a fé de que não era vergonha desistir, encontrei Marco ao anoitecer no CASO. Engraçado, creio que no mínimo dois anos se passaram e ainda não tínhamos aonde ir. Ele foi embora mais cedo, mas acabamos por chegar juntos ao ônibus. No caminho, o filho da puta me despiu e ao mesmo tempo me deu rumo. "A sua vibe é a dor". E mais uma vez o produtor de conteúdo me ajuda a subir um degrau.

Foi neste conto que Marco preparou que percebi o quanto ele volta pra me puxar um degrau a mais pra cima. Mais pra perto. Não só capaz de traduzir essa geração de gente perdida na qual fomos criados, o cara te leva pro tempo dele. Te faz ver o que ele quer que você veja. Te faz sentir cada sentimento e sensação descritas nas páginas que se seguem. Cada felicidade, uísque, boquete, angústia e desgosto retratados aqui não aconteceram com os personagens, mas com você. A questão que fica é: o quão ciente da sua desgraça você é pra perceber?

Gabriel Castanheira
Escritor e quadrinista.

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