Prólogo- Um ano atrás

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Eu não sabia há quanto tempo estava andando, apenas tinha a consciência de que a cada passo dado mais longe de casa eu estava. Minha cabeça não parava de trabalhar repassando cada momento daquela briga. Não era pra ter acontecido desse jeito...

Um vento gelado percorreu o meu corpo fazendo-me encolher dentro do casaco. O céu da noite estava nublado com aquelas nuvens estranhas cor de cobre. Desde pequeno olhava para aquelas massas de vapor e questionava o porquê de sua coloração. Com o tempo você vai crescendo e questões como esta perdem a importância. Seja amadurecimento, ou sei lá o quê, seria bom voltar ao momento em que tudo isso a maior duvida na qual eu poderia imaginar. Onde nada disso era considerado banal.

Precisava me desvencilhar desses pensamentos, então comecei a prestar a atenção à minha volta. O asfalto molhado denunciava a recente chuva e refletia as luzes alaranjadas do dos postes. As casas completamente escuras mostravam que seus moradores já dormiam em suas camas sonhando com mundos sem sentidos e sendo quem ele gostaria de ser. Solto a ar pesadamente... Preciso de um escape. Droga! O meu estojo havia ficado em casa e eu não voltaria para lá e enfrentar a cara do meu pai novamente. Tomando coragem segui para o centro da cidade.

Algumas lojas como drogarias 24h e conveniências estavam abertas, na rua encontravam-se apenas mendigos e vários grupos de jovens se divertindo com bebidas e drogas. Estavam todos felizes e bêbados. Com o capuz do casaco em minha cabeça, eu observava o movimento daquelas pessoas esperando o momento certo. Bem na hora. Um homem havia surgido do nada e se dirigia até o grupo à frente. Um dos jovens recebeu o estranho com uma "camaradagem" exagerada, como se quisesse se mostrar. Patético! Comprimentos foram trocados e logo foram direto ao assunto.

-Conseguiu?- perguntou o comprador.

-E alguma vez te deixei na mão, cara?- devolveu o traficante, tirando algo do bolso e entregando ao outro. -Essa eu quero um valor à parte.

-O que? Isso não fazia parte do trato.

-O negócio é o seguinte: estamos com problemas de devedores e não ta fácil arranjar material de primeira. – o vendedor apontou para a sacola – Esse aí quase me matou, literalmente. Então... Mais cem.

O jovem torceu o nariz e na hora sumiu a relação de boa "amizade" que tinham, entregou de má vontade a parcela a mais e voltou para seu grupo.

-Deus lhe pague!- disse o traficante com um sorriso orgulhoso olhando para o dinheiro.

E o comprador devolveu com um dedo do meio.

Era sempre assim, nenhum trato era honrado e sempre se arranjava um jeito de lucrar com esta falha. Esse era apenas uma pequena parte do mundo do trafico de drogas.

O traficante seguro de si se dirigiu ao lugar de onde viera e eu o seguia um pouco atrás. Mais a frente ele entrou em um beco que ficava entre dois prédios. Aquela parte estava um pouco mais escura que a cidade, só conseguia distinguir os vultos dos objetos a minha volta. Esgueirei na parede e observei o homem entrar em uma porta de metal no prédio da esquerda, pelo barulho que ela fizera se encontrava velha e enferrujada. Eles devem estar aqui. Apressei-me para pegar a porta ainda aberta e entrei.

O ambiente em que me deparei era um totalmente diferente do qual esperava encontrar. A poucos metros adiante havia uma pessoa amarrada em uma cadeira com uma única luz iluminando seu corpo. Sua cabeça estava abaixada em rendição as torturas que fora submetido.

A porta bateu atrás de mim e fui empurrado para mais perto do pobre coitado acorrentado. Espera! Esse não é o...

- Pedro. É um erro você aparecer aqui. – disse uma voz familiar vinda da escuridão.

A luz foi jogada em minha direção cegando-me por um tempo, cambaleie e tentei correr, mas fui segurado por alguém. Desferi um soco que passou longe do rosto do alvo. Quem havia me segurado pegou-me pelos dois braços e os prendeu nas minhas costas. Num puro instinto levei minha cabeça para trás e bati em seu nariz com meu crânio. Ter cabeça dura até que veio a calhar. Estava muito escuro e eles usaram isso a favor deles, acertaram minha nuca com uma barra de ferro e provavelmente era a mesma que eles usaram para espancar o refém antes de mim.

Deitado no chão desnorteado a luz foi jogada em mim novamente me impedindo de ver o rosto daquele filho da puta que eu chamara de amigo. Ele ficou de cócoras para poder falar comigo:

-Sabe Pedro, nos conhecemos desde pequenos. Nunca imaginei que chegaria esse dia em que eu conseguiria te derrubar em uma luta. –ele ficou em silêncio um tempo- Caralho, Pedro! Eu te disse pra nunca mais me procurar, droga.

Novamente em silêncio ele tirou algo da parte de trás da calça, acionou algo que fez um clique.

Uma arma!

-Éramos unha e carne irmão... O que aconteceu?

Cuspi em seu rosto.

-Vai para o inferno, Lucas!- proferi com as poucas forças que me restavam.

Ele riu novamente, se levantou e apontou a arma para o meu rosto.

-Pode deixar que eu te encontro lá.

E disparou.

Meus últimos pensamentos se dirigiram a aquele garoto de cabelos acaju.

Aquele cabelo acaju...


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