O cheiro de incenso se propagava pelo cômodo com insistência e rapidez. Mal havia queimado de fato e seu efeito já se fazia presente.
A velha Olda sacudiu as folhas que tinha em mãos, sujando o tapete cor de creme por completo. Ela murmurava palavras estranhas sob a respiração e inspirava com mais força do que o necessário, como se esperasse tomar toda a fumaça do incenso para seus pulmões.
Maria, a garota que vinha acompanhando a Velha Olda em seus rituais, assistiu aquele show de bizarrice em silêncio, sentindo apenas uma leve dor de cabeça. Ela já estava se acostumando a toda aquela baboseira que a velha repetia a cada ritual. Deus, ela já estava se acostumando com o odor irritante daquele incenso.
— Se você está aqui, minha querida — cantarolou a velha Olda — Apareça, apareça. Não tenha medo, apareça, apareça.
Maria sufocou um bocejo, reprimindo-se por ter se ocupado tanto na noite passada que não sobrara tempo para um cochilo sequer.
Bem, festas são festas.
Ela abandonou a imagem patética da velha Olda e olhou para o cliente.
Aquele em especial chamara e muito a atenção da aprendiz. Era jovem, saudável e estranhamente normal. Totalmente o contrário da média dos clientes delas.
Mas havia alguma coisas em seus olhos, Maria conseguia ver, embora não conseguisse entender.
Ela estava até mesmo tentada a dar em cima do encantador Sr. Gus se a velha Olda não a tivesse lembrado muito rapidamente que ele era um cliente.
E portanto um esquisitão com medo de barulhos e fantamas.
Não, ela não precisava se relacionar com pessoas assim mais do que já estava relacionada.
Velha Olda balançou as folhas outra vez, aumentando o tom de voz e o elegante Sr. Gus estremeceu.
E de repente Maria estava irritada.
Como as pessoas poderiam acreditar naquela velha charlatã? Como poderiam pensar que espíritos poderiam interagir por meio daquela velha maluca?! O fato de que ela própria estava sendo treinada para herdar o trabalho fantasioso só por ser uma sobrinha-neta da velha Olda era a maior prova disso!
Mas os pensamentos de Maria foram interrompidos, assim como a voz da velha Olda e a respiração do Sr. Gus.
Ela pensava que era impossível, mas o cheiro de incenso tinha se agravado ainda mais e ela poderia até mesmo sufocar com a fumaça, que de repente parecia estar mais densa.
A velha idiota pôs fogo na casa, pensou ela, desesperada.
Mas tudo o que a Velha Olda e o Sr. Gus mostravam eram mortificação. Os dois olhavam para o inceso que queimava como se estivessem encarando um monstro.
Ou um fantasma.
Ela quase riu alto consigo mesma, mas então ela percebeu que havia alguma coisa para se ver naquele lado.
Surpreendida pela sombra que não era nem da velha Olda nem do Sr. Gus, Maria desencostou-se da parede e caminhou lentamente até o centro da sala, onde se encontravam os outros dois.
E ela poderia jurar que seu coração tinha parado de bater.
Porque ali, do lado do incenso que queimava fervorosamente, formada apenas por uma fina camada de fumaça branca, estava uma garota. Ela tinha os cabelos curtos e alinhados. Usava uma calça larga e folgada, acompanhada por uma blusa com duas vezes seu tamanho. Ela parecia muito pequena e muito surreal.
E ela não estava viva, Maria conseguia ver isso.
Ela era quase transparente, já que era formada por uma fumaça branca e leve, diferente da que rodeava o quarto.
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Beijo de Boa-Noite
Short StoryEla tinha dor em seus olhos e sofrimento em suas palavras. Ela chorava enquanto ria e definhava dia após dia, rendida a essa tortura. Era tão inocente, mas estava presa entre as mentiras e os horrores do mundo real. Era tão bela, mas tão esquecida p...
