Parris pressionou o crucifixo com as duas mãos e foi até a condenada sobre passos leves. Sua túnica de seda brilhava um branco vivo contra o sol fraco do crepúsculo. Seu couro calvo fazia escorrer pequenas gotas de suor até as suas bochechas enrugadas, que as faziam se perder em sua grossa barba negra. O Bispo recordava-se de todas as outras execuções, sempre temendo que a próxima não fosse a última e a ansiando para que não chegasse. Mas ela sempre chegava, e fazia torturando-o como se fosse a primeira. Agora, quando reencontrou Tituba perante a sua morte, viu escorrer, quem sabe, um pingo de inocência dos seus olhos.
Samuel Sewall e Cotton Mather pararam ao lado dele. Samuel Parris, com o crucifixo entre as mãos, lançou um olhar de aprovação para Sewall, que retirou um pergaminho de dentro do seu manto de pele de urso e o pôs nas mãos de Cotton, que o desenrolou, analisando-o previamente antes de começar a lê-lo em voz alta:
– Tituba Indian. 16 anos. Filha de pais desconhecidos. Escrava pertencente à família Parris. Condenada a fogueira por praticar bruxaria. – A garota tinha a pele escura e o cabelo volumoso e rebelde. Estava sobre os joelhos, o corpo era um véu branco, as mãos e os pés atados em um longo poste de madeira. – Trigésimo primeiro dia de outubro, 1662. Massachusetts, Salem. Membros da audiência presentes: Cotton Mather, o Interrogador; Samuel Sewall, o Reverendíssimo; e Samuel Parris, a Excelência.
Cotton era mais alto que Parris. Seu cabelo negro sobre os ombros lhe dava uma expressão elegante e fria. Ele tinha altura o suficiente para amedrontar qualquer um, e o fazia demasiadamente bem. Fora ele o responsável por liderar a inquisição as bruxas, a mandato de Parris e sobre a autorização de Sewall.
– Tituba Indian – disse o bispo Parris, olhando por cima do ombro para o aglomerado de pessoas que os assistiam –, a corte católica, em acordo com o conselho jurídico de Salem, lhe dá o direito as tuas últimas palavras antes que a tua sentença de morte se inicie.
Tituba tinha o olhar fixo no chão como se nele procurasse um sentido a tudo aquilo. Deixou então o silêncio falar por si. Ouviu-se apenas corvejares sobre o crepúsculo. A leste, um céu purpura pintava fracas estrelas em seu infinito. A oeste, uma nuvem negra começava a se espalhar pelo horizonte.
Fora um belo dia de outono, este. Ao menos até então. As arvores despidas criavam um cenário aconchegante e sugeriam nostalgia. Uma nostalgia, pensou Parris, de um belo inverno. Um inverno recente, mas tão distante que perdia-se em suas memórias. De um tempo em que ele, sobre a janela da catedral, avistava comerciantes entrando e saindo de sua cidade, com o sorriso de alguém que reconhece o fim da estação. De uma época monótona, mas que acontecia naturalmente bem. Tão bem quanto a própria primavera, que logo lhes traria o suposto aconchego característico da estação. Mas o inverno acabara e os dias de paz também.
Quando os sinos das igrejas soaram a música primavera, muitas vidas mudaram junto com as estações. Uma estação quente pelas chamas e úmida de sangue dera início a uma nova e aterrorizante temporada à Salem. A caça às bruxas, como mais tarde diriam alguns, chegaria aos Estados Unidos e marcaria aquele ano para sempre na história da cidade.
Tudo começara a partir de Elizabeth Parris, sua filha de fé. Ela tremera ao dizer aquelas estranhas palavras, e Parris tremera ao ouvi-las. Tituba era uma bruxa, de acordo com ela. Mas Elizabeth, aquela criança órfã escolhida para progredir a família Parris, não fora a única a lhe assegurar aquilo. Muitas outras crianças confirmaram o fato, alegando, a igreja católica, até mesmo indução por parte da escrava.
O dia do julgamento de Tituba Indian fora aterrorizante e era comentado até então. Quando Sewall, o juiz de Salem, lera o seu pergaminho relatando os fatos que a desfavorecia, ela se levantara e tomara a atenção de todos com a sua voz. Dissera que uma criatura com o corpo de homem e cabeça de animal vivia na cidade – fazendo muitos pensarem que este era o próprio demônio em pessoa. Logo depois, lembrou Parris, Tituba erguera a mão e apontara aleatoriamente para alguns que ali assistiam – cerca de dezoito pessoas. Levando todas estas a sua morte. Todas elas foram queimadas vivas. Eram todas bruxas, de acordo com Tituba.
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Trigésimo Primeiro
Short StorySamuel Parris sonhava com Elizabeth desde o inicio da inquisição. "Está sofrendo de bruxaria", dissera o exorcista entre o fim do último inverno. Mas ela era a sua filha e mais ninguém a conhecia como ele. Eliza nascera e vivera sobre a influência d...
