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Prólogo

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A infância muitas vezes é esquecida. É a verdade. Esquecemos da infância, pois, nem sempre ela se mostrou agradável e a vida juvenil e adulta é muito mais atraente e sedutora. De certo modo, Leandro concordava com isto, no entanto, havia alguns aspectos que não o agradavam nem um pouco em ser adulto. Participar dos eventos, proporcionados pelo pai á pessoas de barrigas e carteiras gordas, apresentava-se um perfeito item destes aspectos desdenhados pelo rapaz.
Se havia uma coisa da qual Leandro poderia se dizer plenamente certo era o fato de sua casa, na pouco cômoda São Paulo, ser enorme mesmo para um bando de elefantes desgarrados. Comprada exclusivamente para reuniões como aquelas, farta de bebidas e convidados bêbados, todos fãs ou inimigos de Neil Bandeira, o chefe gastronômico, alemão maternal e brasileiro paternalmente, famoso no mundo inteiro com sua extensa cadeia de restaurantes — mais especificamente, pai de Leandro.
Em meio a tantos desconhecidos, ou pouco conhecidos, fotógrafos e jornalistas, Leandro engasgava com o escarro entalado na garganta. Amava o pai, no entanto, não encontrava razões plausíveis para fazer parte de tudo aquilo, quando claramente não sabia como se comportar e o tédio estampava sua face perenemente. Permanecia parado no quarto degrau da escadaria, recostado ao corrimão, uma taça de vinho em mãos e o olhar perdidos entre os círculos de conversas formados aqui e ali.
A sua frente, o pai se aproximava com uma senhora que, embora a aparente proximidade da meia idade, esbanjava os peitos fatos, porém, caídos enquanto abria o máximo possível um sorriso falso como tudo ao redor, obrigando Leandro forjar igual cordialidade. Junto a eles, ele reparou no que pode ser descrita como uma pequena boneca de porcelana bela e magra demais para o gosto.
– Filho! Esta aqui é a Madame Cegália. Bonita, não? A Madame Cegália fornece vinhos para dois de nossos restaurantes, além de estar abastecendo a festa, se é que pode me entender
"E com certeza esta acabando com o mesmo estoque da festa fornecido por si" — pensou o loiro, tomando a um tanto calosa mão da mulher rica e espalhafatosa
– É um prazer, Madame Cegália, lindo vestido — não se conteve em franzir a palavra lindo, afinal, a mulher esbanjava vulgaridade, diferente da pequena garota ao seu lado
– Ah, gentileza sua, querido! Neil, você tem um cavalheiro como filho! — grasnava — Com certeza vai se dar bem com a minha pérola aqui, não é mesmo Dania?!
A coisinha pálida e frágil ergueu os olhos e sorriu nervosa para Leandro, assentindo o comentário da mãe. O outro jovem se encantou com o brilho dos olhos profundos e negros. Não se tratava de um brilho comum ou mesmo bonito, na verdade passava transmitia muita dor e vulnerabilidade, como se quem estivesse a sua frente fosse uma real obra de porcelana prestes a se quebrar a qualquer minuto.
– Ótimo! Neste caso, minha pérola fará companhia á Leandro, vocês dois podem ter muito em comum. Como nós dois, não é Neil?!
Madame Cegália não permitiu a resposta de Neil e logo o arrastou pelo braço em direção á um grupo provavelmente de mais fornecedores é críticos gastronômicos, sem esquecer-se de antes agarrar mais uma taça de vinho sobre a bandeja de um dos garçons.
Cegália se agarrava e apertava ao braço de Neil, também já um pouco alto, insinuando os seios a todo o momento. Leandro soltou um suspiro reprovador. Desde a fuga da mãe para o Brasil, a fim de estudar moda na Belas Artes e viver em um lugar quente e aconchegante, o pai se tornara um cretino galinha, mais um título para ser juntado aos tantos outros desprezíveis aos olhos do filho.
– Desculpe — Dania quase sussurrou — Minha mãe exagera as vezes, sinto muito pelo seu pai
– Tudo bem. Ele também possui culpa no cartório. Com todo o respeito, você não se parece em nada com a sua mãe
– Pois é, ela é mais bonita e tem mais atitude
– Não é bem nisso que eu estava pensando — deu um gole no vinho e analisou com maior precisão a frágil boneca. Os olhos verdes continuavam a exibir seu tom de sofrimento, os cabelos pretos soltos e lisos o interessavam muito e o corpo o intrigava, ninguém com uma saúde ou metabolismo normal conseguiria ser magro daquela forma, entretanto, sobre isso ele deu de ombros por um certo tempo, os olhos prosseguiam fisgando-o como um anzol á um peixe. Eram inocentes e combinavam perfeitamente com o jeito reservado da garota, um total contraste se comparado com a mãe escandalosa.
– Pode subir um degrau se quiser, eu não mordo — ele exibiu um sorriso sugestionável, como se na verdade Leandro pudesse arrancar pedaços além de dar uma mordida.
Dania hesitou e os braços se arrepiaram, ela negou o convite e desceu os degraus restantes, rumando o extenso corredor que levaria á cozinha.
Indignado, Leandro bufou.
"Metida!" — acusou-a mentalmente — "será que as mulheres hoje em dia não possuem senso de humor? O que esperar de uma Barbie morena falsificada. De bonita só a embalagem! Qual o problema dela?". Prosseguiu por algum tempo com seu julgamento, nem sequer entendendo o porquê, aliás, era direito da menina querer se manter reservada ou distante de quem fosse. Ele se interessou muito por ela, no entanto.
O pai de Leandro retornou com mais alguns convidados. Fornecedores de frutos do mar, pescas, carnes, grãos, equipamento para cozinha; críticos culinários bem humorados, outros carrancudos mais interessados em saber a opinião do garoto a respeito da comida das dezenas de restaurantes do pai; senhoras da alta classe loucas para financiar e patrocinar produtos que levavam o nome do pai, e por assim ia. Neil sempre com Cegália em seu encalço, fazendo Leandro alienar-se das apresentações e começar a ponderar a loucura que seria ter a gralha como mãe e a Barbie quebradiça como mãe.
Imaginou uma situação alternativa, na qual a mãe biológica o levara junto para Milão, ela mais que ninguém sabia como Leandro apreciava a arquitetura do lugar e ele, sem dúvidas, viraria costureiro se isso o afastasse da menor chance da gralha casar-se com o pai. Refletiu sobre uma festa de casamento, de um lado da igreja estariam sentados seus parentes e amigos da família, do outro haveriam gralhas e papagaios grasnando e gritando, chacoalhando as asas em comemoração ao casório.
As bochechas ruborizaram nervosas e um tique se apossou dos dentes, estes batendo como os que pertencem á um naufrago enfrentando o mais gelado mar. O pai não se casaria novamente, obviamente não, era  galinha aproveitador e tentava agradar Cegália puramente para convence-la a abastecer mais ainda os negócios de Neil, logico. Leandro tentava convencer a si mesmo com esta afirmação, a segunda opção se resumia em fantasiar quão animada a festa ficaria caso o FBI ou o serviço secreto surgisse e levasse Cegália sob a acusação de roubar vinhedos e fornecer vinhos alheios alegando serem sua propriedade. Os dentes pararam de bater, ele respirou fundo e desceu as escadas antes que o pai retornasse com mais alguém e ele fosse obrigado a presenciar novamente a arcada dentária exagerada da mulher.
Percorreu o corredor atrás das escadas, tomaria um copo d'água ou se esconderia de baixo da pia da cozinha, porém, durante o trajeto ao espaço para o qual o corredor cheio de portas levaria, de uma das portas ouviu uma pequena tosse, parando abruptamente a caminhada. O som abandonara a porta pertencente ao banheiro daquele andar. A segunda tosse revelou sua dona, a delicadeza era inconfundível. Leandro rolou os olhos, pensando em prosseguir para a ampla cozinha, mas, ao invés disso postou-se frente o espelho a esquerda da porta de carvalho. Ajeitou o longo cabelo loiro que caia muito bem na altura da cintura e ajustou a incomoda é indesejável gravata, prestando atenção nos ruídos.
Quando Dania abandonou o recinto, acabou por se assustar vendo Leandro parado ali. Piscou algumas vezes envergonhada, sem saber o que dizer e tentando esquivar novamente daquele sorriso de canto perturbador do garoto.
– Pelo visto a Barbie não é feita sob medida
– Você não tem nada a ver com isso — ela prosseguiu pelo corredor sendo seguida pelo garoto
– Tem razão, mas, a casa é minha
– Desculpe — Dania parou os passou e se virou para o outro, mantendo a cabeça baixa, embora o sorriso de Leandro houvesse desaparecido e dado lugar á uma expressão preocupada
– Você gosta de se desculpar mesmo sem motivos, hein. Não estou nem aí para o que faz, mesmo aqui. Eu não quis dizer o que você deve ter pensado. É só que o meu pai não costuma dar festas oferecendo comida e hoje não é diferente, só tem álcool espalhado pela casa toda. Mesmo assim você foi esvaziar um estômago já vazio!
– Se eu gosto de me redimir sem motivos, você pelo visto é bem curioso, mas, entende bastante disso
– A minha mãe trabalha com moda e ela mesma é uma rata de dieta. Sempre que liga fala umas coisas bem perturbadoras que as modelos dela fazem para manter um corpo magro. Não acho que o seu caso seja crítico assim, mas, é, eu sou curioso — riu, sem porém assustar a morena, esta também sorrindo. Dania tomou coragem para encarar Leandro e se chocou com o como conseguia ser bonito quando não sorria de forma ameaçadora.
– Eu sei que parece futilidade
– Futilidade? Não, não chega á isso. Eu diria mais é que é um desperdício de tempo e saúde
O lampejo de agrado, proporcionado pela beleza de Leandro á Dania, sumiu imediatamente. Assim como qualquer pessoa ela não a entenderia e não valia o tempo gasto para explicar sua situação. Não importava a familiaridade da mãe do rapaz com distúrbios como o seu, ele não iria  compreender, ela acreditava.
Adentrou o espaço usado como cozinha, uma jovem sentada lia uma revista. Pelo uniforme era uma empregada de folga devido a festa, a julgar por todos os que estavam de serviço serem homens. Garrafas e mais garrafas de bebida enfeitavam o longo balcão, o espaço conseguia ser maior que toda uma sala de estar de algum colega de escola da garota.
– Pode me dar um copo d'agua? — pediu tímida. A jovem empregada sorriu e atendeu ao pedido da menina, saindo em seguida ao ver Leandro fazer sinal para tal — o que foi agora?
– Irritada, Barbie?
– Não — sussurrou. A atitude de completa passividade da menina o irritava, como uma garota com uma mãe tão escandalosa podia ser submissa daquela forma? De fato Leandro entendera os olhos sofridos de Dania, ela por si mesma era sofrida e isto por algum motivo o deixou com pena. O loiro pôs levemente uma das mãos no ombro de Dania
– Foi mal, eu não tenho o direito de invadir a sua privacidade. Mas, você parece uma garota esperta, nós podemos conversar de verdade?
– Acho que sim — seria impossível negar uma simples conversa á um rosto tão lindo como aquele, emoldurado pelo brilho dourado das mechas onduladas e, desta vez, um riso genuíno
Nenhum dos dois sabia, mas, estava para nascer ali uma longa história.

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O ALUCINANTE MUNDO DE LEANDROStories to obsess over. Discover now