Só um Rumor de Vizinhança

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Às seis e quinze da tarde de uma quarta-feira de meio-abril, não era a situação mais mirabolante todas as unidades de transporte público estarem lotadas até o escapamento. Não era um tornado na Baía de Guanabara, e nem três metros de neve em Bangu. Não; a monotonicidade estabelecia-se enquanto a garoa pintava um mosaico nas janelas do ônibus. 

Na ponta esquerda da terceira fileira, olhando pela janela melodramaticamente, estava a Vanessa. Aparentemente, ela e o Roger estavam passando por problemas por causa do acordo pré-nupcial. Ao seu lado, estava o Patrick, estudante de odonto na PUC, digitando com tal voracidade que passava a impressão de estar ateando fogo à conversa de WhatsApp. Patrick tinha uma namorada daquelas que faz a temperatura ambiente cair dez graus em dez segundos. Não era à toa que suava enquanto escutava a cada áudio mandado com aquela voz nasal.

Duas fileiras atrás, na direita, estava o André Gonçalves, professor de sociologia do Estadual. Era um homem instruído, embora um pouco introvertido. Seus alunos reclamavam de suas provas, apontando que não aplicava a matéria estudada diretamente, apesar da média alta da turma. 

Ao seu lado, Deus o guarde, estava a Suelen de Saquarema. Esta caricatura veio de Saquarema cerca de onze anos atrás, porém o apelido ficou. Famosa por sua personalidade loquaz, esta obra imaculada não se cala por um minuto sequer. Fala sobre nada e sobre tudo; manicure marcada, partida de vôlei, e quem você quer que faça seu bronzeamento em spray. Suelen era outra coisa.

Um pouco mais atrás estava o Dr. Ramirez, o fisioterapeuta. Apesar de sua voz calmante e do cheiro de velas aromáticas (maçã com canela), Thiago Ramirez chamava a atenção de todos com seu semi-afro rosa choque. Aquilo eram duas jubas e meia. Dr. Ramirez sempre dizia que sua cabeleira tinha propósitos "meramente medicinais", apesar de todos saberem a verdade. Dia sim e dia não, se você fizer silêncio, pode-se escutar o power estridente de Green Day vindo da rua onde mora.

Sentada prontamente atrás do motorista estava Márcia. Márcia Lourenço, para uma mulher em seus meios-trinta, era consideravelmente cética. Por exemplo, Márcia evitava consumir frutas e verduras. É até compreensível, porque lembremos daquela vez que Adão e Eva comeram a maçã no Jardim de Éden e condenaram a humanidade, então realmente é melhor não arriscar. Pelo menos, é isto o que Márcia pensa. E eu concordo.

Pelos meios do ônibus, estava o Roger. Roger, aquele do acordo pré-nupcial, aquele que tanto sofrimento causava para Vanessa. Mas pouco ela sabia que o problema não residia no acordo, e sim na entusiasmada conversa de WhatsApp que seu noivo tinha com a organizadora da cerimônia. 

Na última fileira, sentava Dona Clara, espetando grampos no seu coque desesperançosamente enquanto jogava olhares furtivos ao relógio. Clara Camaleão dissera ter baixado um santo no seu ex-marido, que falou para ela encontrá-lo as seis e vinte no consultório do Dr. Ramirez. Entretanto, não falou se era da noite ou da manhã. Pouca diferença faz, no entanto, porque em ambos os horários, o consultório está fechado e Dona Clara realmente não tem nada com que se preocupar.

Sim, era definitivamente uma quarta-feira de meio-abril.

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⏰ Última actualización: Mar 24, 2016 ⏰

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