Quando você olha dentro do abismo, o abismo também olha dentro de você.
Neve, como sempre, mais um dia de neve. Ótimo! Saí as pressas de meu quarto, vesti minhas botas, coloquei minha capa vermelha e enfiei uma maçã na boca. A felicidade estonteante de saber que hoje, dia 8 de janeiro de 2006, irá ocorrer um dos eventos naturais mais lindos do mundo! Justamente em meu aniversário de 5 anos, no lindo céu noturno, após o Vale Uivante, no topo da Montanha Sora, um festival de cores frias, que fazem meu coração ferver, chamado Supreme Boreaul. Eu nunca vi pessoalmente, mas as histórias de meu pai foram suficientes para transformar-me em uma crédula apaixonada por esta dádiva. Voltando a minha aventura.
O gosto da maçã fez meus dentes doerem, estavam congeladas, porém, nada poderia arruinar a realização de meu sonho. Estava a dois passos da porta de madeira quando ouço uma voz feminina e questionativa :
- Aonde a criança pensa que vai? - Minha doce mãe pergunta, arrumando seus cabelos castanhos e cruzando os braços finos.
- A criança vai dar uma pequena com Glimmer. - Respondi sorrindo inocentemente e usando minha irmã como desculpa.
- E essa pequena e suspeita volta ocorre justamente no dia da Supreme Boreaul? - ela pergunta, parecendo pensativa
- Ah, é hoje esse evento? Nem me lembrei. - Mandei bem, muito bem.
- Ah sim, aquele evento no qual você não parava de falar um minuto sequer? Aquele evento que você considerava o maior sonho de sua vida? Aque- Eu a interrompi já irritada
- Tá bom, tá bom, confesso, eu estou indo para a Montanha Sora. -respiro fundo - Mãe, esse é o meu maior objetivo, quantas vezes na vida nós teremos a oportunidade de realizar nossos maiores sonhos? Eu estou tendo essa chance agora, mãe. Não me deixe crescer infeliz, frustrada e sem esperança, sedenta por momentos bons, com o coração cheio de sonhos infrutíferos e refletida em uma imagem desesperada por conta de desejos negados! Me deixe voar, mãe! A senhora sabe o quanto isto é importante pra mim! Então, por todos os flocos de neve do mundo, me deixe ir! - Provavelmente nunca mais consiguirei usar tantas palavras diferentes sem ler algumas vezes o dicionário velho de meu falecido avô.
- Não. - A morena mais velha disse rápido, como se nem tivesse me ouvido. Senti meu coração bater forte, meus olhos se encherem de lágrimas e quando estou prestes a assassinar minhas cordas vocais, meu pai aparece.
Suas botas sujas de neve, camadas de roupas grossas cobrem-o deixando apenas seu rosto, negro e sujo por folhas, de fora. Ele falou com sua voz rouca :
- Será preciso mais de uma mera capinha para lhe proteger da neve cortante, Cinna. - Ele disse sorrindo, me estendendo um pequeno casaco de pele grossa, a felicidade tomou conta de meu rosto e vesti o casaco a pulos.:
- Mitch! Você está louco? A neve congelou o seu cérebro? - Seu rosto sardento adquiriu um tom vermelho de raiva, e seus olhos transmitiram a ameça de estrangulamento.
- Candy, deixe nossa filha seguir seus sonhos como uma verdadeira Lazulli, deixe-a honrar o nome de nossa família! - Papai disse me erguendo no colo, passava toda sua energia e confiança para mim.
-ELA TEM CINCO ANOS E MEU NOME É CANDICE. - Mamãe gritou extremamente vermelha, sua voz falhou ao terminar sua sentença, confesso ter sentido um pouco de medo - quase morri do coração.
- Candy, não se preocupe. Uma guerreira crédula nunca cai. - Mitch disse sorrindo e me empurrando gentilmente para fora. - Follow your dreams, Cinnamon.
Eu corri, corri muito, sorri, chorei, pensamentos contradizentes preenchiam minha mente, eu gritei até ficar sem voz, meu corpo explodia em pura felicidade, meu sonho seria realizado! Não sei o quanto eu havia corrido, não via nada em minha frente por conta das lágrimas, só parei quando senti minhas pernas gritarem por descanso. Eu arfei, respirei fundo a procura de ar, tentando me localizar. Olhei ao redor e avistei árvores grossas e compridas, repletas por neve, o chão submergido pela matéria clara e gelada. Eu já estive por essas redondezas antes com meu pai, ele me levou para caçar cervos aqui, na primavera, onde cada lugar tinha flores de diversos tons, porém, a neve sempre se fez presente, até mesmo no verão. Agora tudo estava meio deformado por conta das nevascas, porém é óbvio que estou no Vale Uivante.
BINABASA MO ANG
Dark As Snow
RomanceA neve, tão clara e tão fria. Clara como a luz e fria como a escuridão. Engolindo suas botas gastadas, fazendo suas pernas tremerem e estonteando-lhe com sua vastidão branca. "Eu amo esse lugar."
