Capítulo 1

61 5 2
                                        

Lembro de quando voltei a escrever. Você estava começando a ser o que é hoje em dia e nossa relação estava começando a mudar. Naquela época eu não fazia ideia do que estava acontecendo conosco, mas hoje eu consigo perceber que comprar aquele diário marcava o início do nosso fim.

Eu tive diário a minha adolescência toda. Sempre gostei de registrar os momentos importante da minha vida que futuramente eu releria com alguém importante para mim, como você.

Escrever também sempre foi uma terapia. Quando eu não sabia lidar com uma situação colocava tudo no papel e conseguia pensar melhor como resolver as coisas.

Depois de um tempo ficou mais difícil manter o hábito como antes. Fazia algumas anotações misturadas com outros tipos de coisas e tudo ficava espalhado. Foi então que parei de escrever, mas naqueles dias eu vinha pensando em voltar, não sabia bem o por que.

Comprei um caderno simples na papelaria e levei ele para casa. O encarei por, pelo menos, uma semana antes de escrever a primeira frase. E foi naquela noite que eu a escrevi.

Acordei de madrugada. Alguma coisa vinha me tirando o sono. Encarei o caderno em cima da mesinha do computador. O seu braço pousado sobre meu corpo me impedia de me mexer. Delicadamente o tirei de cima de mim e me levantei sem demora.

Encarei você na cama, vestia sua cueca preferida e parecia tão calmo. Como se nada pudesse preocupá-lo. Como eu o amava. Como você fazia parte de mim. Eu não podia negar. Era uma certeza que emanava do meu corpo que apenas desejava estar mais perto de você.

Peguei meu caderno e escrevi sobre você. Sobre como era a sensação de te ter comigo, de te tocar. De desejar sempre mais e mais você. Mas apesar de tudo isso eu não estava completamente feliz. E pensar nisso me trouxe muitos pensamentos ruins tão rapidamente que eu não conseguia identificar nenhum. Larguei tudo para voltar correndo ao seus braços que me apertaram e me acolheram sem nem saber o que ocorria. Obrigada.

Mas isso aconteceu bem depois do nosso primeiro encontro. E o nosso começo não podia ser mais inesperado.

Com 18 anos eu não tinha certeza do que queria na vida. E também não tinha certeza de muitas coisas. Mas uma era a exceção, eu queria estudar. Depois de uma juventude com relacionamentos desastrosos estava disposta a esquecer de tudo e me dedicar ao meu profissional. Mas o destino não tinha isso em mente para mim.

- Ei! Será que você pode me passar as matérias que foram dadas até hoje. Entrei esta semana e estou perdido. - foram as suas primeiras palavras pra mim no dia em que nos conhecemos, lembro-me até hoje.

Depois fiquei sabendo que era apenas um pretexto para falar comigo. Mas naquele dia eu levei a sério. Conversamos um pouco sobre a faculdade e marcamos de nos encontrar uma hora antes das aulas.

- Então quer dizer que você quer mesmo esta faculdade? Parece algo interessante. - disse me olhando com aqueles grandes olhos observadores. Que encaravam os meus com tanta segurança.

- E você não quer? Está fazendo o que aqui então? - você apenas sorriu e eu virei o rosto sutilmente. Encarar você ou qualquer outra pessoa por muito tempo sempre foi um grande desafio pra mim.

Em menos de uma semana já havíamos nos tornados inseparáveis nas aulas. Estávamos sempre juntos conversando sobre tudo.

- Então quer dizer que no apocalipse zumbi você iria para as montanhas? - falei segurando o riso.

- Claro! Já viu zumbi subir montanha? Nas montanhas tem comida e dá para sobreviver bem. Se quiser você está convidada.

- Tudo bem.

- Certo. Então quando acontecer você fica onde estiver e eu vou te buscar. Torça para eu consegui sobreviver a isso.

Nós sempre tínhamos assunto e sempre passamos o intervalo conversando enquanto comíamos biscoitos. E quando você podia sempre abusava um pouquinho do nosso limite de amizade só pra deixar claro o que você queria.

- Posso encostar a cabeça no seu colo? - você perguntou por educação mesmo, pois já foi logo se deitando antes que eu dissesse algo.

Apesar de me dizer que não planejou nada daquilo, ainda acho que tudo foi arduamente arquitetado por você.

Nós sempre íamos juntos para o ponto de ônibus, onde você me esperar ir embora e então seguia para sua casa.

- Melissa! - me virei instantaneamente ao ouvir o som da sua voz me chamar. Minha condução se aproximava do ponto e já me preparava para pegá-la quando me chamou. Segurou no meu pulsou e me beijou a boca. Não tive reação. - Vai lá, ou você vai acabar perdendo. - me disse com uma voz suave ainda com seu rosto bem próximo do meu e eu apenas obedeci.

Aquela noite eu só pensei em você e em como seria nossa amizade dali pra frente. Mas você pensou mais rápido e no final de semana estávamos nós nos encontrando antes mesmo que eu pudesse processar tudo.

- Ainda bem que você veio. Vou te mostrar um lugar muito lindo aqui dessa região.

- Então quer dizer que vamos fazer uma trilha?

- Isso mesmo. A mais linda que você já viu. Quando mais novo, eu e meus amigos da escola matávamos aula para seguir essa trilha e ficávamos sentados em uma pedra lá em cima que dá para ver a cidade toda. Você vai gostar.

Caminhamos juntos como se o beijo não tivesse acontecido. Rimos das piadas e cantamos juntos, mesmo que desafinados. E você tinha razão, a vista era linda. Nunca me esqueci daquele lugar. E nunca me esqueci de você. Sua imagem apenas se tornou confusa em meio a tudo. Mas lá no fundo me lembro como se tivesse acontecido ontem. Nós dois sentados na pedra olhando a cidade abaixo de nós. Sua mão aproximou da minha e aquele gesto me deixou nervosa, mas dessa vez eu estava preparada. Nós então nos beijamos novamente, um beijo mais demorado que antes. Pode ter demorado minutos ou até mesmo horas, eu não estava me importando. Nós dois ali era o que realmente importava agora.

Diário & MúsicaCerita yang bikin terobses. Temukan sekarang