Margaret DuBois

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Esmalte rubi, anel de pérola, pulseira prateada. Os dedos enrugados afagaram a borda da banheira, desceram à taça flute e a fizeram dançar no ar. A que brindava? Ao óbito de uma carreira. Adeus peça de teatro banal, imitação fajuta de uma temporada majestosa na Broadway, restos de uma versão medíocre de O Fantasma da Ópera unida à sordidez da inspiração em Os Miseráveis!

O que faria?

Era uma criança de cabelos louros vergada num buraco de porcelana, água cobrindo seu corpo nu, os pelos baixos da sua púbis esclarecidos pelo reflexo do antigo lustre. Sentia o gosto do rímel nos lábios e lambia-os com a coriza, misturava-os com o champanhe, fungava mais uma vez, fechando os olhos com força, entregando-se à melodia criada por Chopin. Os sais que encobriam a epiderme a metamorfosearam na lesma alva que deslizava na banheira até deixar a cabeça em seu fundo. As mãos foram postas sobre o ventre, os olhos vidrados e ardidos encaravam o teto descascado. Ela ouvia Tristesse no gramofone do quarto. E o som chegaria abafado se não soubesse todos os ápices da melodia, a tristeza, ferocidade, placidez que a incitavam. Ela estava no fundo da banheira, perdendo o ar de seus pulmões, o cérebro lesionado, a laringe fragilizada. Ela estava morrendo e gritou tão alto quanto os dedos ágeis de um interprete de Chopin no desespero de Tristesse, tão alto que bolhas explodiam sobre sua cabeça, tão alto que, ao fim, quis ouvir o final da estonteante música. Era um desperdício perdê-la em sua despedida. Voltou a superfície magoada consigo. Estava pronta para ir embora, mas gostava de sentir a dor de Chopin esbofeteando sua face e chutando sua barriga. Respeitosa, ouviu até o termino, e chorou porque cansara de se afundar.

Arrastou-se dormente para fora da banheira, fantasmagórica em seu estado costumeiro, sonolenta após tanto choro. Havia um pote laranja dentro do espelho do banheiro, seu nome estava nele, indicado por um ex-namorado médico que a prescrevia comprimidos em troca de um boquete. Com suas pernas tortas voltou a cama de casal, recostou-se nos travesseiros brancos fofinhos e ligou para o único número que decorou em toda a vida. A chamada a tranquilizava, porque ele sempre a atendia.

— Gregory?

E do mesmo jeito que a atendia, sempre a recebia com um suspiro infeliz.

— O que foi dessa vez, Margaret?

— Viu a lua hoje, docinho? — Ela apoiou os braços nos travesseiros, descansado o queixo sobre uma das mãos. Olhava através da janela romantizada. — Ela está cheia. Dizem que eu deveria estar feliz... Mas pareço desapontada. Por quê?

— Eu não sei.

— Das muitas versões que dão sobre a lua cheia, alguma delas deve falar sobre inquietação e irrealizações, talvez pesadelos. Onde está seu acalento quando falam de sua ligação com a maternidade? Aproximo-me de um órfão.

— Desculpe Margaret, mas estou sem tempo para suas digressões.

Ela sorriu, como se o visse impaciente face a face.

— Acompanhe-me nessa noite, querido, por favor.

Em mais um dos suspiros de Gregory, a jovem o esperou serena.

— Tenho um compromisso, não posso vê-la.

— Sabe o que seguro? — ergueu o frasco laranja diante dos olhos, recebendo o reflexo da lua e do poste luminoso do lado de fora. — O caminho para a eternidade. Paguei-o com um boquete. — Em um sorriso rápido, balançou a cabeça um tanto sonhadora. — Imagino-me na sessão de obituários como uma versão anônima de Marilyn Monroe.

— Por que aquele merda continua prescrevendo esses remédios sabendo quem você é?

— Ou o que posso fazer — completou, dando de ombros. — É um interesseiro, docinho, ele não liga se serei a próxima a ocupar uma gaveta no necrotério.

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⏰ Last updated: Mar 24, 2016 ⏰

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MargaretWhere stories live. Discover now