CAPÍTULO 1

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Este capítulo é um spin-off/arco especial focado na trajetória do Augusto. Ele não segue a linha do tempo principal, servindo como uma história paralela para aprofundar a mente do personagem e o seu descente para o terror doméstico.

A ORIGEM DO ROSTO FALSO

A luz que atravessava a janela da cozinha não trazia calor; tinha a tonalidade pálida e estagnada de algo que esteve guardado no escuro por tempo demais. Dourava a poeira em suspensão, que flutuava no ar em um ritmo suspenso, quase não humano, como se a gravidade dentro daquela sala tivesse esquecido sua própria densidade. Mariana movia-se entre a mesa e o fogão com uma leveza matemática, cantarolando uma sequência curta de quatro notas - uma melodia circular, limpa, que ela repetia em um ciclo perpétuo, sem alterar a entonação, sem jamais chegar ao fim.
No canto da mesa, Lúcia sustentava o queixo com a mão pequena. O olhar da menina estava cravado no caderno de matemática com uma rigidez contemplativa que não pertencia à sua idade.
- Vinte exercícios... - murmurou a criança. A voz veio plana, desprovida de qualquer oscilação infantil, quase engolida pelo estalar seco da madeira do assoalho. - Parece um castigo.
- A rotina exige disciplina, querida - respondeu Mariana. O tom era brando, impecável. Ela estendeu o braço e passou os dedos pelos cabelos da filha em um gesto fluido, mas repetiu a carícia uma vez a mais do que o natural, o braço retornando ao lado do corpo com a precisão mecânica de um pêndulo.
Augusto observava tudo da cabeceira. Não tocava no café. Na xícara, o líquido escuro já esfriara, criando uma película fosca sobre a superfície. Seus olhos vasculhavam o espaço em uma busca cirúrgica, paranoica, tentando capturar a falha imperceptível na simetria daquela cena. Havia algo na fisionomia de Mariana, no tempo em que seus lábios demoravam para retornar ao repouso após um sorriso, que parecia... ligeiramente desalinhado. Ou talvez fosse apenas a sua própria cabeça antecipando a ruína.
Sobre a mesa, o jornal trazia folhas secas que rangiam sob o peso de suas mãos. Ali, comprimida no rodapé da terceira página, uma nota mínima registrava o desaparecimento inexplicado de cães no bairro das Oliveiras. Sem vestígios de sangue. Sem latidos noturnos. Apenas a ausência do que antes estava lá. E logo abaixo, outra linha, ainda mais curta: no cemitério municipal, uma sepultura antiga fora encontrada violada. A terra não fora cavada pela superfície; fora empurrada das profundezas para fora. As tábuas de carvalho do caixão, partidas de baixo para cima.
Ele dobrou o papel. O ruído seco do jornal cortou o canto contínuo de Mariana.
- Algo o perturba, Augusto? - perguntou ela, sem se voltar completamente na sua direção.
- Apenas impressões de quem precisa preencher páginas vazias - respondeu ele. A própria voz soou abafada, como se as paredes da cozinha tivessem absorvido o eco das palavras antes que alcançassem o ar.
- Nem tudo o que ocupa o espaço precisa de justificativa para existir - comentou ela, os olhos fixos na chama azul do fogão, sem piscar.
Augusto ergueu-se. Tocou o ombro de Lúcia - a pele da menina parecia lisa e fria como mármore guardado à sombra - e caminhou em direção à porta da rua.
Lá fora, a cidade parecia contida sob uma abóbada de chumbo polido. As fachadas das casas guardavam uma sobriedade excessiva, quase cênica; os vizinhos cruzavam as calçadas em um ritmo calculado, mantendo distâncias rigorosas entre si. O mundo ao redor não parecia habitado; parecia apenas montado. Augusto caminhava com os ombros enrijecidos, alimentando a percepção incômoda de que as calçadas haviam encolhido alguns centímetros desde a véspera.
Ao se aproximar da praça central, uma figura irrompeu do arvoredo. Trajava roupas desgastadas, manchadas por uma substância escura e opaca que não cheirava a terra, mas a cinza de papel queimado e cobre. O homem avançou com passos desordenados e cravou os dedos na dobra do paletó de Augusto. Tinha as pupilas dilatadas, travadas em um ponto invisível no horizonte.
- O tecido... você também sente que o tecido cedeu? - sussurrou o homem, a voz saindo por entre dentes trincados. - Onde colocar o corpo quando o chão deixa de ser fundo?
Augusto desvencilhou-se com um golpe firme de braço, sentindo sob os panos do sujeito uma estrutura óssea levíssima, quase oca.
- Longe de mim. Agora.
Dois guardas aproximaram-se sem pressa e conduziram o homem. Ele não ofereceu resistência física; apenas continuou a balbuciar contra o vento frio, palavras desconexas sobre frestas por onde a noite entrava sem ser vista. Augusto ajeitou a gola do casaco, o peito oprimido por um tremor sutil. O sujeito era um louco, dizia a si mesmo. Um demente. Mas a sensação daqueles dedos rígidos em seu peito permanecia, e a semente de uma dúvida corrosiva começava a germinar em sua mente: e se o delírio daquele homem fosse a única leitura exata do que estava acontecendo?
Ao meio-dia, a luminosidade da cidade sofreu uma mutação invisível.
Não surgiram nuvens no céu, mas a cor azul perdeu toda a profundidade, achatando-se sobre os telhados como uma tela esticada de gesso cru. O sol deixou de irradiar calor; tornou-se apenas um disco pálido, uma lâmpada opaca acesa sobre um mundo em desaceleração. O vento cessou. Nas árvores da praça, os pássaros não voaram para longe - apenas interromperam o canto, paralisados nos galhos, de pálpebras abertas, como peças de um cenário abandonado.
A própria sombra de Augusto no paralelepípedo perdeu a nitidez dos contornos, transformando-se em um borrão cinzento sob seus sapatos. Ao acelerar o passo rumo de volta, as fachadas das casas pareciam ligeiramente inclinadas para dentro, como se a geometria das ruas estivesse se curvando sob uma pressão invisível.
Ao cruzar o limiar de casa no início da noite, a sala estava imersa em uma penumbra densa. Mariana o esperava junto à porta, de pé, perfeitamente imóvel na escuridão.
- A luz acabou mais cedo hoje, Augusto - disse ela. A voz não gerava o eco natural do corredor; parecia abafada por veludo úmido. - O céu parece... sem fundo.
Ele tomou a mão da esposa. A pele de Mariana estava fria, sem a umidade ou a vibração sutil do sangue sob os pulsos. Era a textura densa e inerte de um móvel antigo.
- Não pense nisso - murmura ele, a garganta seca. - Vamos fechar tudo.
Ele conduziu-a para o hall e passou a tranca da porta. Girou a chave uma vez. Duas vezes. O estalo do ferro disparou pelo silêncio da casa como um estilhaço metálico.
Mas não houve alívio. Olhando para os cantos do teto, para as sombras que se acumulavam como pó nos rodapés, Augusto sentiu o espaço físico da sala se contrair. A casa não parecia mais uma proteção contra o lado de fora; parecia uma armadilha vedada de onde não havia para onde fugir.
No canto da mesa, Lúcia permanecia sentada, a folha em branco à sua frente. A menina não desenhava. Apenas encarava o vazio, o tórax subindo e descendo em uma frequência devagar demais para uma criança.
Na manhã seguinte, a iluminação retornou, mas sem qualquer vivacidade. O mundo parecia uma imitação pálida de si mesmo. Augusto abriu o jornal com os dedos rígidos, buscando desesperadamente pela confirmação dos fatos. Nada. Nenhuma menção aos cães, nenhuma menção ao cemitério. Apenas notícias triviais e sem peso, como se o jornal fosse um esforço desesperado da cidade para fingir que a realidade continuava intacta.
Voltou à praça central. Perto do chafariz desativado, um pequeno grupo de pessoas permanecia reunido em um círculo perfeito, quase sem mover os corpos. No centro deles, um orador falava em tom baixo, mas sua voz não parecia viajar pelo ar - ela ressoava diretamente na caixa torácica de Augusto, fria e pesada como água acumulada no fundo de um poço.
- ...a transformação não se anuncia com estardalhaço - dizia o homem, cujos olhos secos como vidro soprado não piscavam. - Ela habita na fresta da rotina. O fim já se instalou, e ele não quer o seu descanso. Os corpos que vocês conhecem vão continuar caminhando por estas calçadas, vão ocupar o mesmo lado da mesa, vão vestir as mesmas roupas... mas a substância terá ido embora. Serão apenas invólucros. Ecos repetindo a forma do que um dia foi humano.
Augusto parou a poucos metros. Um frio seco subiu-lhe pela espinha, trazendo à boca um sabor metálico de moeda enferrujada. Delírio, tentou argumentar contra si mesmo. Apenas loucura contagiosa.
Mas o orador interrompeu a própria frase. Com uma lentidão deliberada, virou o pescoço e cravou o olhar no rosto de Augusto. Não havia ódio em sua expressão; havia apenas a neutralidade assustadora de uma constatação.
O homem ergueu o braço e apontou o indicador reto, direcionado à sua figura.
- Arrependa-se antes que a sua mente termine de construir a farsa - disse a voz, ecoando dentro da cabeça de Augusto como um aviso selado. - Não haverá cômodo onde você possa trancar a porta. Não haverá noite em que você consiga escapar do que está sentado à sua mesa.
Ao redor, os rostos das pessoas giraram em sincronia na direção de Augusto. Os olhares eram vazios, desprovidos de raiva ou curiosidade, apenas encarando-o como se ele fosse o único elemento estranho naquela praça.
O ar ficou espesso, difícil de puxar para os pulmões. Augusto sentiu o sangue pulsar furioso em suas têmporas, o peito tomado por um pânico primal. Quis confrontar o homem, quis gritar que aquilo era uma insanidade, mas suas pernas pareciam presas ao chão.
Subitamente, o orador recolheu o braço e retornou ao seu discurso para a multidão, como se o parêntese jamais tivesse existido. As pessoas voltaram a olhar para frente, imóveis.
Augusto deu meia-volta e afastou-se com passos rápidos, o coração martelando desordenado contra as costelas. A acusação do pregador não soara como uma pregação religiosa. Soara como a confirmação do seu pior pesadelo. E enquanto regressava para a casa onde Mariana e Lúcia o aguardavam, a dúvida mais sombria de todas fincou raízes em sua alma: o horror que começava a devorá-lo vinha da ruína do mundo - ou era a sua própria mente que já estava moldando a tragédia que viria a seguir?

A SINFONIA DOS MORTOS Cerita yang bikin terobses. Temukan sekarang