Capítulo Especial - Conhecendo o Rei Vaelor

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Aos sete anos, Vaelor quis o gerifalte.

Não um falcão qualquer das gaiolas. Havia uma dúzia deles, e dois lhe eram oferecidos desde os cinco anos, pequenos e mansos, próprios para um menino aprender a segurar uma luva. Ele queria o gerifalte cinzento que tinha chegado do norte naquele outono num cesto forrado de lã, a ave mais cara da casa, que o falcoeiro-mor levara semanas amansando e que ainda batia as asas contra o poleiro quando alguém passava perto demais.

O falcoeiro disse que não. Disse ajoelhado, com todo o respeito que se deve a um príncipe de sete anos, e explicou tudo: que a ave era do Rei, que pesava mais do que o braço de um menino podia sustentar, que um bicho daqueles arrancava um olho antes que alguém tivesse tempo de gritar. Vaelor ouviu até o fim sem interromper. Não chorou e não bateu o pé, e o falcoeiro, que tinha criado filhos, achou aquilo estranho e depois esqueceu.

No dia seguinte o menino voltou às gaiolas e fez perguntas. Quanto a ave pesava. Quantas semanas levava para amansar uma daquelas. Quantos gerifaltes o Rei tinha, qual deles o Rei levava às caçadas, quando tinha sido a última. O falcoeiro respondeu a tudo, contente com o interesse, e não percebeu nada.

À ceia, Vaelor contou ao pai, sem nenhuma queixa na voz, que o falcoeiro achava o gerifalte cinzento bom demais para ele. Que a ave era do Rei. E que o Rei não a levava a caçada nenhuma desde antes das primeiras geadas, de modo que ela estava engordando num poleiro enquanto o filho do Rei aprendia com um falcão que qualquer escudeiro tinha.

O Rei Othmar riu. Foi uma risada alta, de cabeça jogada para trás, e a mesa inteira riu junto porque o Rei tinha rido. Ele bateu a mão na madeira e perguntou aos homens em volta se tinham ouvido aquilo, se tinham reparado na maneira como o menino contara — as semanas, a geada, o escudeiro —, e disse que aquele ali sabia o que queria e ia dar trabalho a muita gente.

Na manhã seguinte o gerifalte estava no braço de Vaelor, sobre uma luva cortada às pressas pelo seleiro, e o falcoeiro-mor estava ao lado dele com a ordem de ensiná-lo.

A ave rasgou a manga dele duas vezes na primeira semana e abriu um corte no antebraço que deixou marca para o resto da vida. Também não chorou por isso. Voltou no dia seguinte com o braço enfaixado e perguntou ao falcoeiro o que tinha feito de errado.

Mas o que ficou nele daquela semana não foi a ave.     Foi o rosto do falcoeiro na manhã em que recebeu a ordem: o homem de cinquenta anos que sabia mais sobre aves do que qualquer pessoa daquele castelo, que na véspera, ajoelhado diante dele, lhe negara a ave por razões que continuavam boas e que agora estava de pé ao seu lado, obrigado a ensiná-lo.

Vaelor guardou aquela expressão com o mesmo cuidado com que guardava tudo. Não sentiu pena dela. Sentiu interesse, o mesmo que sentia quando desmontava uma fivela para ver como o pino entrava no furo: interesse pelo mecanismo que tinha feito a opinião daquele homem deixar de importar.

Aos nove anos ele encontrou a volta da estrada do sul num mapa.

Era um desvio enorme, uma curva que abandonava o vale, subia a encosta e só descia de novo dois dias adiante, e ele ficou um tempo com o dedo em cima dela, tentando entender por que alguém desenharia uma estrada daquele jeito.

— Porque aquele rio não aceita ponte — disse o pai, quando ele perguntou.

— Quem disse?

— O mestre de obras do meu pai, e depois o meu. Caíram três. — O pai voltou aos papéis. — Tem rio que não aceita.

Vaelor olhou mais um pouco para o mapa. Depois dobrou-o, devolveu-o à estante e não falou mais daquilo. Mas lembrou.

A irmã, Liessa, tinha quatro anos a menos que ele e era, desde que aprendera a andar, a criatura mais barulhenta do castelo.

Ela Não Era MinhaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora