Assim que os lobos se afastaram e o silêncio voltou a ser importunado apenas pelo barulho dos ventos, um a um, os sobreviventes foram acordando.
Film já tinha preparado algo para comerem. O bom de um avião cargueiro é que sempre leva alimento ao destino. Isso deixou todos calmos, afinal, a comida sempre é boa em qualquer situação.
A comandante não estava no ambiente e nem Nikolai e Serguei. Os três saíram para olhar em volta e ver o ambiente. Levaram barras de ferro para se protegerem de possíveis ataques, mas sabiam que os lobos estavam bem alimentados e não apareceriam tão cedo.
A cena era de horror e beleza.
A natureza inóspita de estarem nas montanhas nevadas com visões incríveis e paisagens de tirar o fôlego em nada se comparavam ao horror de ver sangue, pedaços de corpo e ossos triturados espalhados pela neve avermelhados com o sangue derramado.
Uma Mégua-de-bico-curto estava em cima de uma fuselagem. Era a parte traseira do avião que tinha se desprendido na queda e explodiu. Tudo estava queimado. Ainda havia fumaça saindo. Muitas caixas abertas.
- Peguem tudo que possa nos ajudar como armas, alimento e roupas.
- Tablets e celulares ajudam? - Serguei falou.
- Com certeza! - Namtan disse se aproximando. - Que droga! Não tem chip. - Não temos onde carregar. Vejam se encontram carregadores portáteis ou telefones via satélite.
A busca continuava até que caminharam por um rastro de destroços.
- Minha nossa! - Nikolai falou se assustando.
- O que foi? - Namtan disse se aproximando e Serguei a segurou.
- Acredite, comandante, você não vai querer ver isso.
Mas Namtan passou por Serguei e foi até onde Nikolai estava e começou a vomitar ali mesmo.
- Eu falei que você não ia querer ver isso.
A pouca comida que tinha ingerido antes de saírem saiu toda pela boca e lágrimas saíam de seu rosto, apesar de lutar para que isso não acontecesse.
Era o corpo de Luke totalmente destruído pelos lobos. O pescoço estava quebrado. O queixo não existia mais. O peito com ossos quebrados e órgãos retirados. O intestino todo para fora com o fétido odor das fezes misturado ao cheiro do sangue. Não havia o que fazer. E Luke Voyage. O uniforme rasgado provava isso.
- Eu sinto muito comandante - Nikolai disse.
O céu estava limpo. Nem parecia que teve uma tempestade na noite passada. O sol estava firme e a claridade da neve ofuscava e ardia os olhos.
Namtan respirou fundo
- Vamos enterrá-lo e procurar mais suprimentos. Não irão nos achar hoje.
- Como assim, não irão nos achar hoje? - Serguei disse com o semblante franzido. - Precisam nos encontrar! Temos feridos! Tem aqueles lobos que irão voltar. Aqui não é seguro!
- Não irão nos achar, porque está vindo outra tempestade e os helicópteros de resgate não decolam com tempo ruim. - Nikolai disse apontando para o horizonte, em que nuvens acinzentadas e relâmpagos iluminavam ao longe por trás de alguns montes.
- Vai escurecer rápido. Precisamos fazer os outros caminharem um pouco. Movimento é vida e depois ficamos no abrigo.
- Achamos seu co-piloto, mas não achamos Nina, Boris, Dmitri, Petrov e Nádia. Precisamos encontrá-lo. - Serguei disse.
- Olhe ao redor! Olhe como ficou a cabine e a parte em que estamos. Olhe como está a parte traseira da aeronave. Eles foram sugados com cadeira e tudo. Devem ter morrido na queda. - Nikolai disse.
- Serguei está certo. Luke está morto, mas os outros cientistas devem estar vivos. Ivanov morreu antes da queda, então, temos cinco passageiros desaparecidos que podem estar vivos. - A comandante disse!
- Devíamos nos separar. Assim, nós procuraremos melhor ao redor. - Serguei disse limpando as mãos.
- Atrairemos predadores. - Nikolai afirmou. - E não temos armas. Temos que ficar juntos.
- Deveríamos abrir as caixas para achar armamento. - Namtan disse.
- Comandante! Podíamos tentar tirar as caixas que estão na fuselagem. Há fumaça e metal retorcido, talvez, ainda esteja quente, mas precisamos ver o que tem nas caixas. - Nikolai falou caminhando mais a frente.
- Comandante! Onde estamos? - Serguei perguntou.
- Estávamos a 15 minutos do aeroporto, mas com o vácuo, nós entramos numa espiral e rodamos muito sem instrumentos. Estamos em algum lugar da Sibéria, mas não faço ideia. Não temos instrumentos funcionando. Se pelo menos tivéssemos uma bússola. - Namtan fez cara de surpresa e os dois homens a olharam esperando ela continuar. - UMA BÚSSOLA! - Namtan abre a sacolinha que carrega junto e retira o aparelho da bolsa.
A bússola tem um gps.
Os dois homens sorriem, mas a alegria dura pouco ao verem o desânimo no rosto da piloto.
- O que foi? - Serguei indagou curioso.
- Está com a agulha maluca rodando sem parar e o GPS não funciona.
Desanimaram novamente até ouvirem gritos ao longe. Vinha das árvores.
- Xiiiiiiiiiiiii. Silêncio. - Nikolai falou tentando ouvir de onde vinha a voz.
Depois, gritos.
Vinham de depois da fumaça do metal retorcido.
Os três tentam identificar o local exato.
Ao se aproximarem mais a frente começaram a ouvir os gritos.
- EI! ME TIREM DAQUI!
- De onde vem essa voz? - A comandante tentou perceber de onde vinha, pois o som causava eco devido às árvores e montanhas.
- POR FAVOR! ALGUÉM ME AJUDE. POR FAVOR! ME TIREM DAQUI!
- Está mais perto de nós. Vamos mais a frente.
- SOCORRO! PESSOAL! EU ESTOU AQUIIIIIIIIIIII.....
- Eu conheço essa voz! - Serguei disse. - É... É...
- ME TIREM DAQUI IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII............
- NÁDIA! - Os russos gritaram juntos.
Começaram a correr em direção às árvores conforme a neve deixava, eles iam avançando. Ao entrarem uns cinco metros à frente, os gritos se tornaram mais próximos até que...
- EI, VOCÊS AÍ EMBAIXO!
Os três olharam para cima e lá estava Nádia. Estava presa à poltrona pelo cinto de segurança em alguns galhos de uma imensa árvore.
- Oi pessoal!
- Você está ferida?
- Ainda não, mas se vocês demorarem a me tirar daqui, nós todos ficaremos feridos.
- Tirar você daí não será fácil. Ficaremos todos feridos mesmo. - Serguei disse rindo.
- A árvore é fácil de subir. - Namtan disse. - Eu subo para soltá-la e vocês se preparem para pegarem ela se ela escorregar, quando sair da poltrona.
- Como assim escorregar?
Eles constantemente questionam Namtan e acabam criando conflitos sem necessidade. Namtan já estava perdendo a paciência. Serguei, inclusive, começou a disputar a liderança do grupo em menos de 24 horas.
- Parem de discutir. Se importam de me tirar daqui antes que ele volte? - Nádia disse apreensiva.
- Ele quem? - Serguei falou.
Um urro alto se ouviu ao longe.
- URSO! - Gritaram todos.
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Vácuo Turbulento - NamtanFilm
Fanfiction*(Em andamento) O transporte de passageiros para uma base russa na Sibéria acaba no meio da neve. A piloto Namtan Tipnaree precisará lidar com passageiros feridos, desesperados e impacientes e uma comissária de bordo, Film Rachanum que a ajudará a s...
