Capitulo 1 - chegada em otari

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        O vento do norte soprava frio contra as velas recolhidas, enquanto a embarcação reduzia o ritmo. O navio - um mercador de bojo largo, feito de madeira escura e com o casco impregnado pelo sal e pelas cracas de semanas de viagem - cortava a água com um murmúrio constante e pesado, construído para carregar toneladas de carga, com o convés atulhado de caixotes amarrados, barris selados com piche e o cheiro forte de especiarias impregnado nas vigas. O rangido das cordas tensionadas e o som da madeira estalando contra as águas cada vez mais calmas acompanhavam o embalo lento do navio.
        À frente, a imensidão cinzenta da névoa densa,  no entanto, à medida que a proa avançava devagar, a brisa começou a abrir frestas na bruma.  Primeiro surgiram apenas silhuetas fantasmagóricas: os mastros altos de outras embarcações ancoradas, cortando o nevoeiro como lanças escuras. Depois, os contornos maciços dos pilares de madeira do cais, as roldanas dos guindastes de carga e as muralhas do porto ganharam forma, emergindo lentamente da neblina, úmidas e imponentes, à espera da acostagem.
        Dentro do navio, havia todo tipo de pessoas, mercenários, mercadores, pescadores, dentre outros.... mas entre todos eles uma figura chamava mais atenção que o normal, por sua aparência incomum, uma mulher estava encolhida nas sombras da amurada do navio, fugindo do campo de visão dos outros tripulantes. Usava roupas simples características de Taldor, escuras e práticas, uma camisa branca, em seu abdômen um corpete preto e justo, e uma capa negra que cobria grande parte de seu corpo, e por dentro da capa a era possível ver a silhueta de algo que parecia um livro, e ao outro lado uma rapieira, era uma moça esguia, com um cabelo ruivo vibrante como fogo que descia em cachos volumosos e longos até a cintura, uma aparência que ao longe, parecia delicada. Contudo, aproximar-se dela revelava uma beleza magnífica, mas profundamente assustadora. Sua face exibia uma palidez extrema, quase fantasmagórica, essa perfeição bizarra era coroada por olhos completamente sem vida - um olhar vazio e morto que causava um arrepio involuntário em quem chegasse perto.
Ela detestava o mar, mas odiava ainda mais a carta em suas mãos naquele momento.
Desdobrou o papel amassado pela décima vez naquele dia. A tinta do texto já estava gasta:
" Para Guinevere B. Heathcliff

Otari não é o fim do mundo, Guinevere, embora pareça bastante em dias de névoa....
Alguém está roubando toneladas de peixe da principal peixaria local - a única coisa que mantém essa cidade alimentada e de pé. Os suprimentos estão acabando e a economia local está afundando. Preciso de alguém que entenda de roubos para captar o modus operandi dessa gente antes que a população morra de fome. Você me deve uma, sei que você se lembra bem de Ustalav, hora de pagar minha velha amiga.

Ah, e antes que me amaldiçoe: Você será bem recompensada. Há um pagamento muito alto em moedas de ouro.

Ass: Hagwin Yesgolor"

         Ela estalou a língua, soltando uma risada seca.
- Elfo maldito! É melhor mesmo que eu seja recompensada por vir para esse fim de mundo - resmungou para o vento.
         Hagwin sabia o que estava fazendo. Usar a dívida do passado combinada com a promessa de um saco pesado de ouro era a única forma de arrastá-la até aquela ilha em Absalom. O barco encostou no píer em poucos minutos, ela ajeitou os cabelos sobre os ombros, assumiu sua postura fria de sempre e se preparou para desembarcar.
         Seus coturnos pesados ecoaram contra as tábuas do cais quando ela desembarcou. O porto estava movimentado, mas o manto negro e a postura fria da jovem abriam caminho naturalmente pela multidão - ninguém queria cruzar o caminho de uma figura que emanava uma palidez tão mórbida. Sem perder tempo, ela deixou a área portuária e adentrou as ruas íngremes da cidade. A decadência provocada pelos roubos de peixe era visível nas faces cansadas dos moradores. Seguindo as coordenadas rudes que se lembrava da caligrafia de Hagwin, ela cruzou duas esquinas principais e subiu um lance de escadas de pedra até avistar a fachada familiar e sutilmente elegante que denunciava o gosto refinado do elfo maldito. A casa era uma construção rústica típica de Otari, feita de tábuas grossas de carvalho escuro e base de pedra para resistir à umidade do litoral. O toque do elfo, no entanto, estava na rica decoração que trazia sua terra natal àquela colina. Ladeando os degraus da entrada, duas pequenas estatuetas de pedra de cães-leões guardavam a porta, cercadas por vasos rasos de cerâmica esmaltada onde cresciam pequenos bonsais retorcidos. Sob o beiral do telhado, um sino de vento feito de bambu e bronze pendia silencioso, e amarrado à maçaneta da pesada porta de madeira, um amuleto de nós de corda vermelha balançava de leve com a brisa salgada, exibindo um símbolo oriental entalhado em jade.
          Ela encarou aquele emaranhado de cordas vermelhas e os leões de pedra estrábicos, achando toda aquela decoração de Gao-Shun profundamente brega. Correu os olhos vazios pela rua deserta, soltando um sopro de risada nasalada.
- É... com certeza é aqui... - murmurou para si mesma, com o sarcasmo pingando da voz.
          Sem qualquer delicadeza, ela ergueu a mão enluvada e bateu três vezes contra a madeira pesada da porta, fazendo o sino de bambu acima chacoalhar com o impacto, o som das batidas firmes ecoou pela rua, e não demorou mais do que alguns segundos para que o trinco de ferro pesado estalasse. A porta se abriu com um ranger suave, revelando uma silhueta, Hagwin era consideravelmente mais alto que ela, seus um metro e oitenta e seis de altura forçavam a moça a erguer o queixo para encará-lo, uma diferença de quase vinte centímetros de estatura. Ele exibia a fisionomia clássica de um elfo antigo, com uma pele azulada que servia de tela para tatuagens de runas que cobriam todo o seu corpo visível, subindo pelo pescoço e contornando seus traços orientais; seus cabelos eram brancos, lisos e longos, caindo com perfeição sobre os ombros e contrastando com as roupas de mercenário dele
- Confesso que tive minhas dúvidas se você realmente responderia ao meu chamado - ele disse, com um tom levemente brincalhão, que quebrava o peso de sua postura habitual. - É muito bom ver você, minha amiga, pode entrar!
         Hagwin deu um passo para o lado, segurando a porta aberta com a cortesia de sempre, convidando-a a entrar.
- Eu não perderia isso por nada, Hagwin. Principalmente sabendo que você pagaria caro para me ver - rebateu ela, a voz carregada de seu deboche habitual, ela gesticulou com desdém em direção a uma tapeçaria de seda na parede que mostrava montanhas orientais sob uma névoa dourada. - E vejo que o isolamento finalmente afetou o seu juízo. O que é tudo isso? Decidiu abrir uma casa de chá ?
          Guinevere passou por ele sem pedir licença, deixando que o aroma de maresia e a umidade que carregava em sua capa negra invadissem o ambiente. Seus coturnos pesados bateram contra o piso enquanto ela cruzava o cômodo e se jogava, com uma informalidade quase abusiva, no primeiro sofá que encontrou. O interior da casa era uma mistura peculiar da rusticidade portuária de Otari com a herança refinada de Gao-Shun, refletindo perfeitamente a vida dupla de seu morador. As paredes de carvalho bruto, típicas das colinas costeiras, serviam de suporte para suportes de armas impecavelmente polidas. Ali, expostas como ferramentas de trabalho de um mercenário de respeito, repousavam katanas e wakizashis, uma kusarigama cuja corrente de ferro negro e foice reluziam sob a luz da lareira, e uma imponente odachi, ao lado de um tapete de pele de urso local, painéis de papel decorados com pinturas de garças dividiam o espaço com uma lareira de pedra que tentava, sem muito sucesso, espantar o frio úmido da ilha.
            Hagwin não respondeu de imediato. Ele apenas fechou a porta de madeira atrás de si com um suspiro calmo, acostumado ao veneno na língua da amiga. Com passos silenciosos, ele caminhou até uma pequena mesa baixa, pegou uma chaleira de ferro fundido e começou a preparar um chá de ervas fumegante com a etiqueta de sua terra natal. Enquanto organizava as xícaras de porcelana, ele cruzou os braços largos sobre as túnicas escuras e soltou a resposta:
- Para sua informação, hoje em dia eu não estou mais vivendo isolado, sai dessa vida de mercenário.
           Guinevere estreitou os olhos, encarando o, o cenho franzido denunciou o estranhamento imediato. Hagwin sempre foi um lobo solitário, orgulhoso demais para dividir o teto com qualquer um em Ustalav, quem dirá naquele porto úmido de Absalom. Ela correu o olhar pela sala procurando rastros daquela afirmação; ela olhou para as mãos dele segurando a chaleira de porcelana e não conseguiu conter o sarcasmo. Soltou uma risada de verdade, um som seco, cru e genuíno, balançando a cabeça em puro deboche.
- Você? Brincando de casinha em uma ilha? - desdenhou ela, recostando-se no sofá com uma informalidade cortante. - Por favor, Hagwin, não me faça rir. Depois de tudo aquilo que vivemos em Ustalav? Depois de todos os crimes que cometemos... agora você quer me convencer de que virou um homem de família pacato que faz chá para as visitas? Quem é a sua nova companhia? Você se casou?
            Sua linha de pensamento debochada, no entanto, travou quando seus olhos correram pela sala e encontraram algo que havia ignorado ao entrar: uma fileira de adagas de arremesso de aço escuro, cravadas diretamente em um alvo de madeira num canto da sala. Aquilo definitivamente não era decoração de um homem civilizado, o sorriso dela se transformou em uma expressão de desconfiança intrigada. Ela apontou com o queixo na direção do alvo.
- Adagas de arremesso? Desde quando você treina com isso? Se bem me lembro, quando nos conhecemos, você quase decepou a própria orelha de elfo tentando jogar uma faca enquanto eu te ensinava . Arremessar sempre foi a minha especialidade, você realmente mudou muito cara...
Ele terminou de servir o chá, estendendo uma das xícaras para ela com o olhar sério e gentil de sempre, embora seus olhos amendoados brilhassem com uma leve diversão.
- Já se passaram sete anos, Guinevere. O tempo voa, e alguns hábitos acabam se mostrando úteis - rebateu ele, em um tom nitidamente brincalhão - Além do mais, você não deveria subestimar a capacidade de aprendizado do seu antigo mentor. Se hoje você consegue canalizar seus feitiços através da sua rapieira como uma verdadeira Magus, deve um pouco disso aos meus velhos ensinamentos. Eu apenas retribui a gentileza praticando o que você me ensinou.
             Guinevere esticou os dedos longos e finalmente aceitou a xícara de porcelana. O calor do chá contrastava com a frieza mórbida de sua pele, ela manteve os olhos fixos no elfo, ignorando por um instante a menção às suas habilidades de Magus para focar no que realmente havia instigado sua curiosidade, ela deu um gole lento na bebida, saboreando as ervas antes de pousar a xícara no colo, o canto de seus lábios se curvou com uma pitada extra de desconfiança.
- Então me diga: quem em sã consciência aceitaria morar com você? E mais importante... como essa criatura conseguiu convencer um cara como você a largar tudo e vir parar logo neste fim de mundo? - Ela balançou a xícara de porcelana de leve, mantendo o tom irônico. - Convenhamos, Hagwin... Pessoas como nós não merecem a felicidade de uma vida tranquila, cometemos crimes demais. Nós fomos feitos para a lama, não para brincar de casinha.
              Hagwin escutou em silêncio, sem vacilar diante do tom cortante da amiga, o sorriso brincalhão desapareceu de seu rosto azul e tatuado, dando lugar àquela seriedade profunda e melancólica de quem compartilhava do mesmo fardo, mas que talvez tivesse encontrado uma resposta diferente para aquela dor.
- Eu costumava pensar exatamente da mesma forma - começou ele, a voz mansa ecoando no silêncio da sala. - Mas o destino pode nos pregar peças. Cerca de dois anos depois que nos separamos em Ustalav, eu peguei um serviço de escolta que me trouxe até esta ilha. Acabei aceitando um contrato secundário para limpar um ninho de monstros nos arredores de Otari, e meu grupo acabou entrando em confronto com um bando inimigo nos arredores da cidade, e no meio deles estavam dois filhotes de kobold.
               Ele fez uma pausa, olhando para as xícaras de chá, e os cantos de sua boca se curvaram em uma expressão de pura ternura, algo que Guinevere nunca achou que veria no rosto do amigo.
- Eles deveriam ser os nossos adversários, mas eram inocentes demais e não sabiam lutar absolutamente nada. Assim que o meu grupo venceu o combate principal, os dois dragõezinhos simplesmente se renderam, tremendo de pavor com aqueles olhos bobos de réptil. Pelo costume do submundo, eu deveria ter matado os . Mas... pela primeira vez na vida, eu senti uma pena profunda.- Eu não consegui deixá-los para trás. Peguei os dois para criar e hoje eles são os meus filhos: Zip, o vermelho, e Dek, o azul. Foram aqueles dois monstrinhos barulhentos que me convenceram a fincar raízes e tentar uma vida longe do crime. Então, respondendo à sua pergunta de quem em sã consciência moraria comigo... a resposta são dois pequenos kobolds órfãos que me chamam de pai.
              Hagwin deu as costas por um breve segundo para guardar a chaleira de ferro, deixando que o peso de suas próximas palavras preenchesse o ambiente. Quando se virou novamente para ela, havia um orgulho sóbrio em sua postura.
- Na verdade, as coisas mudaram bastante por aqui. Hoje eu sou o chefe da guarda de Otari - revelou ele, observando a reação dela com um brilho divertido no olhar. - E quando não estou organizando as patrulhas da cidade, eu trabalho com um grupo de aventureiros locais. Nós nos chamamos de Os Herdeiros da Rosa. Então, como você pode ver, a "casinha" que eu estou brincando é um pouco maior do que você imaginava.
              Antes mesmo que ela pudesse digerir a ironia de ver seu antigo mentor vestindo a insígnia da lei, um estrondo vindo do corredor interrompeu o silêncio. A porta que levava aos cômodos internos abriu-se de supetão, e duas pequenas figuras reptilianas entraram na sala em uma correria desajeitada, rindo com guinchos agudos e agitando caudas escamosas. Zip, o kobold de escamas vermelhas vibrantes, corria na frente equilibrando o que parecia ser um capacete da guarda três vezes maior que sua cabeça. Logo atrás vinha Dek, o azul, tropeçando nos próprios pés curtos enquanto tentava agarrar a cauda do irmão. Eles eram exatamente como Hagwin havia descrito: pequenos dragõezinhos, sem asas e com uma expressão pateta que irradiava uma inocência quase cômica.
              Guinevere mudou de postura no mesmo instante. Suas costas se curvaram em uma linha rígida no sofá e suas sobrancelhas se juntaram em uma expressão de profundo e visível incômodo, ela detestava barulho, detestava surpresas e, detestava a energia caótica de crianças. Ela afastou a xícara de chá até a mesa e cravou seus olhos nas criaturinhas.
- Então... - começou ela, a voz fria cortando a algazarra do ambiente como uma lâmina de gelo. - São esses os seus... filhos?
               Ao ouvirem a voz desconhecida, Zip e Dek congelaram no lugar. O capacete de ferro escorregou da cabeça do kobold vermelho e bateu no chão de madeira com um baque surdo. Intrigados pela presença da visitante ruiva, eles deram alguns passos tímidos à frente, mas o impulso de curiosidade morreu no segundo em que encararam o rosto da mulher, e o notar os olhos gélidos e desprovidos de vida de Guinevere, os dois filhotes recuaram um passo, colando as costas um no outro. O olhar fantasmagórico da Magus exerceu o mesmo efeito intimidante de sempre: as criaturinhas, que antes transbordavam energia, agora observavam aquela mulher pálida com um pavor genuíno, sem saber se ela era uma pessoa de verdade ou um espírito maligno que havia brotado no sofá do pai. mas a curiosidade natural dos kobolds começou a vencer o pânico inicial. Eles penderam as cabeças para o lado, piscando os olhos grandes de réptil, observando aquela mulher pálida e imóvel no sofá.
               Dek, o azul, cutucou o ombro do irmão com a ponta da garra e cobriu a boca com a outra mão, cochichando em um tom que pretendia ser baixo, mas que ecoou perfeitamente pela sala:
- Ei, Zip... acho que morreu...
               zip, o vermelho, estreitou os olhinhos de lagarto, encarando os olhos sem vida de Guinevere de volta, e respondeu no mesmo sussurro exagerado:
- Será que é um espírito obsessor? O papai disse que eles são pálidos assim e vêm para puxar o nosso pé de noite...
           Guinevere continuou estática, mas toda a sua empáfia e orgulho evaporaram. Se um guerreiro armado estivesse ali a insultando, ela saberia exatamente onde enfiar a ponta de sua rapieira. Mas ser avaliada como uma assombração por duas crianças a fez simplesmente travar. Sentindo as bochechas pálidas esquentarem com uma tonalidade sutil de rosa, ela ajeitou a gola da camisa, visivelmente sem jeito e sem saber como agir. Apertando os dedos ao redor da xícara de porcelana, ela se inclinou de leve na direção do pequeno kobold vermelho e resmungou, tentando manter a pose:
- Eu não sou um espírito, com quem acha que está falando sua lagartixa irritante? Mas se continuar me encarando assim, sou eu mesma quem vai puxar o seu pé a noite.
          Assim que as palavras saíram de sua boca, os dois kobolds reagiram instantaneamente como bichinhos assustados. Zip deu um pulo para trás e, junto com Dek, correu para trás das pernas de Hagwin. Eles se encolheram ali, agarrando-se às calças escuras do elfo como duas criaturinhas ariscas e tímidas, mas a curiosidade ainda era maior que o medo; os dois mantiveram apenas as cabecinhas espalmadas para fora, com os olhos grandes de réptil espiando a mulher por entre as pernas do pai, monitorando cada movimento dela para garantir que o rabo deles estava a salvo.
             Hagwin riu, os ombros largos sacudindo sob as roupas escuras enquanto olhava para baixo, dando tapinhas confortantes nas cabeças dos filhos. Ele ergueu os olhos para a amiga, saboreando cada segundo daquela rara cena.
- Quem diria... A temível Guinevere, cuja marra fez os grandes líderes da noctis tremerem, reduzida a isso... ameaçar duas criaturinhas de trinta centímetros - zombou o elfo antigo, com um sorriso largo que raramente exibia. - Mas não precisam ter medo, meninos. Ela tem essa pose de durona, mas ela não morde.
            Guinevere sentiu o sangue subir para o rosto com mais força. A irritação finalmente venceu o embaraço. Ela bateu a xícara de porcelana contra a mesa de centro com um estalo seco, alto o suficiente para fazer Zip e Dek encolherem as cabeças de volta para trás das pernas do pai.
- Chega de palhaçada, Hagwin - cortou ela, a voz recuperando o tom irônico e firme de sempre, enquanto levava os dedos até os ombros para ajeitar os cachos volumosos de seu cabelo. - Eu não viajei dias em um navio fedendo a peixe para ser feita de piada por você e seus bixinhos de estimação. Cadê o ouro que você prometeu? Vamos falar de negócios.
              Ao ouvir o pedido, a expressão de Hagwin imediatamente recuperou a seriedade natural, mas a voz mansa que usou em seguida ainda carregava um claro tom de divertimento:
- Peço desculpas, minha amiga - disse ele, embora os olhos ainda brilhassem com o deboche. Ele então olhou para baixo e deu dois tapinhas leves nas costas dos filhos. - Tudo bem, meninos. Podem ficar à vontade. Ela não é perigosa
Guinevere bufou, cruzando os braços sobre o corpete justo e fuzilando o elfo com o olhar.
- Ótimo. Então podemos ir direto ao ponto agora? - exigiu ela, tentando ignorar a presença dos pequenos.
- Sim, vamos aos negócios - consentiu Hagwin, dando a volta no balcão de madeira. - Mas o ouro não é meu, Guinevere. Eu sou apenas chefe da guarda, não sou rico. Eu estou apenas recrutando as pessoas certas para o trabalho.
              Enquanto o elfo falava, Zip e Dek se aproximaram numa coragem repentina por trás do sofá e começaram a mexer no cabelo ruivo de Guinevere, fascinados e curiosos pela cor e tamanho dos fios. Guinevere respira fundo, tentando ignorar os dois a todo custo.
Hagwin cruzou os braços atrás das costas, adotando sua postura profissional.
- Quem está pedindo essa missão é Tamily, uma anã dona da principal peixaria de Otari. Ela promete trinta moedas de ouro para quem achar o ladrão.
             No instante em que ele pronunciou a quantia, a expressão de Guinevere mudou subitamente. A irritação anterior desapareceu, dando lugar a uma surpresa e felicidade que suavizaram seu rosto. Ela continuou com sua postura fechada e nem chegou perto de dar um sorriso aberto, mas o brilho súbito em seus olhos entregou o quanto aquele valor a agradava.
Hagwin soltou uma risada baixa, divertindo-se com a reação da amiga e sabendo que o dinheiro tinha acabado de comprar a cooperação dela. Ele indicou o pergaminho sobre a mesa de centro, retomando o olhar sério.
- O que está rolando é o seguinte: toneladas de peixes simplesmente desapareceram misteriosamente dos estoques dela nas últimas semanas. Não são alguns baldes; são toneladas que somem da noite para o dia, sem deixar nenhum rastro visível. Não há sinais de arrombamento, nenhuma fechadura forçada e as portas continuam trancadas por dentro. É como se o estoque evaporasse.
            Guinevere deu um gole lento em seu chá, agora com o humor visivelmente melhorado. Enquanto digeria o mistério das toneladas desaparecidas, Zip e Dek continuavam atrás do sofá, mas agora tentavam, com as garrinhas curtas, tecer pequenas tranças desajeitadas em algumas de suas mechas. Completamente de bom humor, a Magus nem se importou mais com o abuso, deixando brincarem à vontade enquanto sustentava um olhar divertido na direção do elfo.
- Toneladas de peixes evaporando em uma sala trancada? - ironizou ela, com sarcasmo na voz. - quanto a temível guarda guarda de Otari? Não conseguiram nenhuma informação?
- Nós checamos tudo o que a lógica permite, Guinevere. Mas quem está por trás disso sabe exatamente como não deixar rastros físicos. E é por isso que chamei você. - O elfo a encarou com um respeito sóbrio. - Por ser uma ladra extremamente experiente, você conhece o submundo e pensa como eles. Ninguém melhor do que você para decifrar esse pessoal e enxergar os caminhos ocultos que os meus homens estão deixando passar.
- Então o Chefe da Guarda de Otari precisa de uma criminosa para fazer o trabalho dele? Que ironia - zombou ela, levantando-se do sofá com movimentos fluidos e puxando o pergaminho da mesa - Mas tudo bem... Eu limpo a sua barra dessa vez. Afinal, seria um pecado recusar trinta moedas de ouro.

              Hagwin apenas assentiu com um sorriso, e então recolheu os pratos e xícaras do chá com calma e olhou de relance para a janela de carvalho, onde a escuridão e a névoa da noite de Otari já havia engolido a cidade.
- Você deveria descansar, Guinevere. A viagem de navio foi longa e já anoiteceu - disse, a voz mansa ecoando pela sala confortável. - Pode ficar por aqui esta noite.
             Ele deu as costas, arrumando as túnicas escuras sobre os ombros musculosos enquanto caminhava em direção ao corredor.
- Vou me deitar. Os outros devem chegar por aqui logo pela manhã.
            Assim que ele terminou a frase, Zip e Dek soltaram as mechas ruivas. As duas criaturinhas correram alegremente, balançando as caudas escamosas, e seguiram as passadas silenciosas do pai em direção ao quarto.
            Guinevere continuou sentada no sofá, estática. Suas engrenagens mentais travaram. Ela processou aquela palavrinha - outros - por longos segundos em um silêncio sepulcral, enquanto a realidade caía sobre seu orgulho. Ela achava que aquela seria uma missão solo, um trabalho limpo apenas para ela. Outros? Ela não trabalhava em grupo. Ela não dividia ouro. A calmaria do chá evaporou. Ela se levantou apressada, os coturnos batendo com força contra a madeira polida do chão enquanto ela marchava pelo corredor no encalço do amigo.
- Outros, Hagwin? Que outros?! - exigiu ela, a voz subindo de tom, carregada de uma indignação cortante.
              Hagwin continuou caminhando levemente mais rápido, sem trocar contato visual enquanto os filhos se enfiavam no quarto à frente.
- Amanhã eu explico os detalhes... - respondeu ele, de forma extremamente vaga. - Durma um pouco. Você precisa descansar.
               O elfo estava obviamente tentando evitar o problemão que tinha acabado de arrumar, esquivando-se da fúria da Magus com a pressa e medo de quem já teria visto isso antes. Mas Guinevere não ia ceder tão fácil. Ela prosseguiu colada nos calcanhares dele, praguejando, até que chegaram ao batente dos aposentos do elfo.
Antes que ela pudesse segurá-lo pelo ombro para exigir nomes, Hagwin entrou e, com uma rapidez cirúrgica, fechou a pesada porta de madeira subitamente na cara dela.
O baque seco do portal se encerrando a milímetros de seu nariz deixou a Magus sozinha no corredor escuro, bufando de raiva, com os cachos ruivos levemente bagunçados pelas tranças inacabadas dos kobolds.
- Orelhudo maldito, covarde! Venha aqui e me enfrente como um homem! - esbravejou ela em fúria, batendo com a mão na porta, praguejando nas línguas mais obscuras que conhecia do submundo de Taldor para garantir que ele ouvisse do outro lado. - Vou decepar essas suas orelhas pontudas, Hagwin! Eu trabalho sozinha, e você sabe bem disso!
              Do outro lado, a única resposta que obteve foi o clique seco da chave girando na fechadura. O elfo estava trancando a porta. Ele podia ser o chefe da guarda e um mercenário veterano, mas ainda prezava por sua segurança. Guinevere soltou um bufo ríspido ao perceber que foi ignorada, e após alguns segundos batendo ferozmente na porta, finalmente desistiu, girou nos calcanhares e marchou de volta para a sala. Seus passos pesados denunciavam o tamanho de sua indignação. A simples ideia de ter que aturar outras pessoas estragava qualquer bom humor que o dinheiro havia trazido. Ao chegar no centro do cômodo, encontrou um canto da sala que Hagwin já havia preparado com antecedência. Sobre o piso de madeira, ele havia estendido um futon - um colchão macio e tradicional de Gao-Shun.
               Ainda resmungando, Guinevere desatou as amarrações de seu corpete preto com movimentos brutos e jogou a capa negra por cima do colchão para servir de cobertor. Ela se deitou de mau jeito, encarando as vigas escuras do teto enquanto tateava a empunhadura de sua rapieira, mantendo-a ao alcance da mão. Ali, envolta pelo cheiro suave de sândalo do incensório e com os cabelos ruivos cheios de trancinhas tortas espalhados pelo chão como um grande tapete, fechou os olhos, torcendo secretamente para que os tais "outros" fossem fáceis de dispensar pela manhã. Ou fáceis de enterrar.

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