A festa continuava viva do outro lado da porta de vidro e a música atravessava as paredes como um coração batendo longe demais. Vozes se misturavam, alguém ria alto, copos tilintavam, e vez ou outra uma sombra passava pelo interior da casa, recortada pelas luzes coloridas. Na sacada, porém, tudo parecia mais lento, um dos rapazes estava apoiado no parapeito, segurando uma garrafa de cerveja pela metade. Olhava para o céu com uma expressão difícil de explicar, não parecia bêbado, nem triste, tampouco eufórico. Havia apenas uma satisfação tranquila em seu rosto, como se tivesse acabado de encontrar uma resposta para uma pergunta que ninguém havia feito. O amigo surgiu atrás dele, empurrando a porta de vidro com o ombro, também não parecia particularmente animado. Estava apenas cansado do barulho, das pessoas e das conversas que começavam e terminavam sem dizer coisa alguma. O rapaz da garrafa percebeu sua chegada e sorriu, ergueu a cerveja, oferecendo-a silenciosamente.
O outro negou com a cabeça.
— Não?
— Não.
— Como você está?
O recém-chegado apoiou os braços no parapeito, a pouca distância dele.
— E como é que você acha que eu estou?
A resposta arrancou uma risada curta.
Durante alguns segundos, ficaram em silêncio. A cidade se espalhava diante deles em pequenas luzes, janelas acesas e ruas que pareciam tranquilas vistas de cima. Lá dentro, alguém aumentou a música.
— Ah, cara... — começou o rapaz da garrafa. — Não sei, não.
— O quê?
Ele demorou um pouco para responder.
— Sinceramente, acho interessante.
O amigo virou o rosto em sua direção.
— O que é interessante?
— Isso tudo.
— Isso tudo o quê?
O rapaz fez um gesto vago com a garrafa, como se pudesse apontar para a cidade inteira, para a festa e para os dois ao mesmo tempo.
— A gente estar aqui.
O outro franziu a testa.
— Você é meio maluco, né? Tá viajando de novo.
Não havia desprezo em sua voz, ele já conhecia aquelas viagens. Na maioria das vezes, começavam com uma frase absurda, passavam por algum raciocínio impossível e terminavam fazendo um pouco mais de sentido do que deveriam.
— O que exatamente você tá querendo dizer?
O rapaz balançou a cabeça e soltou uma risada, depois se virou um pouco mais para o amigo.
— Pensa comigo. Qual é a possibilidade da gente estar aqui, neste exato momento, junto?
— Bem alta, considerando que fomos convidados para a mesma festa.
— Não simplifica.
— Eu tô tentando.
— Não, você está tentando fugir da pergunta.
O amigo soltou um suspiro e olhou para frente.
— Está bem! Desenvolve.
O rapaz pareceu satisfeito com a permissão.
— Seu pai e meu pai conheceram nossas mães mais ou menos na mesma época. Elas engravidaram, nós nascemos, crescemos, fizemos milhares de escolhas diferentes... e tudo isso terminou com nós dois aqui, agora.
