O livro misterioso

13 1 0
                                        

Estrelas Negras

Capítulo 1 - "O livro misterioso"

Ano 6.040 - quatro mil anos após a Grande Guerra que chocou o passado, o presente e o futuro em um só mundo, evento conhecido como "O Abalo Temporal".

Em uma vila no continente de Mandis, na região que antigos mapas ainda identificavam como parte da Europa, cinco crianças de dez anos passavam boa parte de seus dias correndo pelas ruas de Sinflower: Kaliel Vance, Samantha de Valois, Raphael Cross, Lucios Thorne e Sofia Lancaster.

Kaliel quase sempre acabava alguns passos à frente. Não porque os outros tivessem escolhido um líder, mas porque qualquer ruína, história ou caminho desconhecido parecia suficiente para fazê-lo correr primeiro e pensar depois. Samantha, sua amiga desde os quatro anos, crescera ao lado dele e conhecia bem demais a expressão que surgia em seu rosto quando alguma ideia perigosa começava a parecer interessante.

Raphael era o companheiro que mais facilmente aceitava essas ideias - normalmente depois de fingir que eram ruins - e passava boa parte do tempo provocando Sofia. Ela devolvia cada provocação com juros, embora nunca deixasse de acompanhar o grupo. Lucios costumava falar menos que os outros e quase sempre carregava algum livro consigo; naquela tarde não era diferente.

Para quem os observasse de longe, eram apenas cinco crianças comuns. Naquele mundo, porém, até a palavra "comum" tinha mudado. Povos inteiros chamavam de magia aquilo que não conseguiam compreender: barreiras impossíveis, objetos antigos, criaturas desconhecidas e fenômenos deixados por eras que jamais deveriam ter se encontrado.

Os cinco corriam e brincavam pela vila enquanto adultos os cumprimentavam e, quase sempre, acrescentavam o mesmo aviso: não se afastem demais, não cheguem perto dos limites e nunca saiam da zona protegida. A barreira que envolvia Sinflower separava a comunidade do calor extremo, do ar nocivo, das criaturas que vagavam pelas regiões mortas e de grupos humanos que nem sempre recebiam desconhecidos com amizade.

Sinflower era conhecida como "a Vila do Pecado da Flor". Seus habitantes se consideravam descendentes dos chamados "Viventes da Era", povos ligados à humanidade que ocupava o presente quando ocorreu o Abalo Temporal. Histórias transmitidas de geração em geração alimentavam uma antiga desconfiança das "Tribos do Passado" e dos "Viajantes do Futuro", nomes usados para sociedades arrastadas de outras épocas durante a convergência.

Naquela tarde, porém, nenhuma dessas histórias parecia mais importante do que o segredo das cinco crianças. Elas seguiram em direção a uma região mais afastada, onde um pequeno lago existira em um passado tão distante que nenhuma delas, nem seus pais, jamais o vira cheio.

Entre as pedras da margem ressecada havia uma abertura estreita. Durante meses, os cinco haviam limpado parte do túnel e transformado uma pequena câmara subterrânea em esconderijo: um lugar para brincar, guardar objetos, espalhar fofocas e contar histórias de terror longe dos ouvidos dos adultos.

As crianças seguiram pelo caminho de terra que levava ao antigo lago. Quanto mais se afastavam das casas de Sinflower, menos vozes conseguiam ouvir. O chão ressecado levantava pequenas nuvens de poeira sob seus pés, e o calor fazia o horizonte estremecer como se o mundo inteiro estivesse sendo visto através de uma chama.

Mesmo dentro da barreira os dias eram quentes. Do lado de fora, porém, a temperatura se tornava difícil de suportar por muito tempo, e o próprio ar podia adoecer quem permanecesse exposto. A enorme estrutura oval cobria Sinflower como uma cúpula quase transparente. O céu e o sol ainda podiam ser vistos através dela, mas a luz chegava enfraquecida e ligeiramente distorcida, como se atravessasse uma película invisível.

Ninguém na vila sabia explicar completamente como aquela proteção funcionava. Os moradores apenas conheciam seus efeitos: dentro dela, o calor era menos agressivo, a umidade permanecia no ar e uma nascente subterrânea continuava alimentando os três poços de Sinflower. Era daquela água que vinham a bebida das famílias, a irrigação das plantações e boa parte da sobrevivência dos animais criados no vilarejo.

You've reached the end of published parts.

⏰ Last updated: Sep 07 ⏰

Add this story to your Library to get notified about new parts!

Estrelas negrasStories to obsess over. Discover now