
A chuva caía como uma garoa suave, quase uma finura espalhada pelo céu.
Estava frio.
Tudo em volta estava molhado, e da minha janela eu conseguia ver as poucas pessoas corajosas que se arriscavam a sair de casa debaixo daquela chuva.
Algumas usavam capas amarelas, galochas, guardas-chuvas ou simplesmente corriam pelas calçadas tentando chegar ao destino antes de ficarem completamente encharcadas.
Eu amava os dias de chuva.
A chuva era minha velha amiga.
Meu diário silencioso.
Sei que parece estranho.
Quem eu sou?
Lívia Guimarães. Dezessete anos.
Ouço o barulho de saltos batendo no piso.
Click.
Click.
Click.
Alguém subindo as escadas.
- Liv, filha? Está tudo bem aí?
Reconheço a voz da minha mãe atrás da porta.
Nos últimos tempos, ela anda muito preocupada comigo.
Ela, assim como a maioria das pessoas que conheço, acha estranho eu passar grande parte do meu tempo sentada perto da janela em dias de chuva, conversando com ela.
Já ouvi piadinhas sobre eu conversar com São Pedro.
Não ligo.
Para mim, guardar tudo o que sentimos para nós mesmos é que não parece muito saudável.
A chuva começa a ficar mais forte.
Do jeito que eu gosto.
As gotas batem contra o telhado, contra o vidro da janela, contra as folhas das árvores.
Lá vem mais um desabafo.
- Oi, velha amiga?
Faço uma pausa.
- Sim, sou eu de novo. A Liv.
Sorrio sozinha.
- Bom... você não vai acreditar.
Um trovão forte e imponente atravessa o céu.
- Ah, Alexa... lembra dela?
Outro trovão.
- Sim. A minha primeira amiga que não era você. Aquela do primeiro ano que me emprestou um giz de cera azul.
A chuva fica mais pesada.
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Colcha de Retalhos
Ficción GeneralColcha de Retalhos Nem toda história precisa durar um livro inteiro. Algumas cabem em poucas páginas. Outras vivem em uma lembrança, em uma despedida, em um encontro inesperado ou em um simples instante que poderia ter passado despercebido. Colcha d...
