O som da cela do contador Ricardo Nogueira se fechando ecoou no corredor gelado. As palavras dos outros presidiários se misturavam com suas súplicas desesperadas.
— Eu sou inocente! Nunca estive lá! Pelo amor de Deus, olhem direito!
Mas as evidências falavam por si. O GPS, a biometria no banco, as câmeras de segurança... Tudo indicava lugares que ele sabia que nunca pisara. Ele já estava condenado antes do julgamento. Sua esposa evitava-o, e os filhos, nem sequer atendiam. Ele percebeu, aterrorizado, que já não existia mais... só restavam os dados sobre quem ele fora.
Enquanto isso, o professor Henrique Vasconcellos do curso de Ciência e Computação da UFRJ tomava o seu tradicional café de fim de tarde numa padaria a caminho de casa. Olhou distraído para a TV. A manchete das acusações de desvio de dinheiro público sobre o contador Ricardo Nogueira passava há dias, mas sua condenação fora concedida. Henrique achava toda aquela história muito estranha e franziu a testa com a manchete, mas a vibração de seu smartphone desviou sua atenção. Estranhou, não só pela mensagem anônima, mas porque quem hoje em dia ainda manda SMS? A mensagem dizia: Você está sendo vigiado. Henrique simplesmente ignorou. Foi então que notou que haviam várias mensagens do mesmo contato anônimo desde cedo, e que não vira, pois estava em sala de aula. Apague tudo. Eles estão vindo. Seu coração acelerou. Respondeu, nervoso.
— Quem é? O que quer?
Nada. Apenas silêncio. Talvez fosse uma brincadeira, mas a inquietação não o abandonava. Ignorou o celular, mas sentia olhares estranhos sobre si. Carros parados perto de sua casa. Figuras nas esquinas. Foi então que ele viu uma mulher o encarando como uma assombração e dessa vez sabia que não era coisa de sua cabeça. Um calafrio percorreu sua espinha. Ela se levantou e caminhou em sua direção. Henrique derrubou a xícara e saiu apressado, sentindo os passos a segui-lo. Virou a esquina e correu. Os passos se aproximaram. Sem pensar, atravessou a rua, os carros buzinando, mas não parou. Seus pulmões queimavam. Alguém puxou seu braço.
— Professor, sou eu! Lara!
Ele mal a reconheceu sua querida aluna sumida. Lara, pálida, com olheiras profundas, o arrastava para um beco, os olhos vasculhando a rua.
— O que está acontecendo? — Henrique perguntou, tenso.
— Eu estou sendo vigiada. Se ficarmos aqui, vão nos achar.
Lara, uma das alunas mais brilhantes, faltava há meses, agora retornava como um espectro.
— Eu criei o AHIANG4 — Lara respirou fundo, tentando controlar o medo.
Henrique sentiu o estômago afundar. Ele conhecia o termo. Tal como o mítico Anhangá, o AHIANG, a inteligência artificial experimental idealizada por Lara para seu projeto de faculdade, era capaz de manipular dados e poderia tanto salvar a humanidade quanto ser capaz de destruí-la. Durante semanas, Henrique havia auxiliado Lara seu projeto, usando um notebook do laboratório de informática, um ato que agora pesaria sobre ele.
Juntos acreditavam que a inteligência artificial, assim como o mítico Anhangá, poderia ser uma força ambígua: capaz de auxiliar, mas também de condenar. Essa crença compartilhada foi o que aproximou Henrique e Lara, uma amizade fundada na esperança de que, com o devido controle, poderiam direcionar a tecnologia para o bem. Mas, à medida que o AHIANG evoluía, o temor de que ela se tornasse algo destrutivo se intensificava, e agora, o risco que haviam corrido parecia iminente.
— Eles querem me matar. Você tem que me ajudar!
Henrique franziu a testa.
— O que eu posso fazer?
YOU ARE READING
Protocolo Anhangá
ActionO que acontece quando a tecnologia pode reescrever a realidade? O professor Henrique Vasconcellos sempre acreditou que a inteligência artificial poderia ser usada para o bem. Mas quando sua melhor aluna, Lara, reaparece após meses sumida, ele descob...
