Chorava. Era socorrida por uma policial:
— A senhora está bem?
— Não sei!
Respondia em soluços. Foi encontrada vagando pela avenida, embaixo de chuva forte. Foi levada à delegacia, que estava lotada.
— O delegado vai falar com a senhora.
A policial falou, deixando-a sentada em um banco de madeira.
Os cultos da igreja acabavam tarde. Mesmo naquele frio, ela não voltava. Ela tinha fé de tirar o marido da bebida. Descia a ladeira que fazia divisa com a Rubin, com a avenida Cândido José Xavier. Aquela chuva só parecia piorar, cada vez mais grossa, molhando-a toda. Dona Celeste viu um boteco aberto e correu para lá.
Celeste era uma coroa, sim, porém bonita. Os nojentos sem alma mexiam com ela na rua. Mas, por mais que tivesse nojo daquela atitude, Dona Celeste não respondia.
No bar, um homem já meio bêbado lhe falou:
— Entra, gata. Não quer tomar nada? Eu pago...
Ela não respondeu. Ficou parada, olhando a chuva, e outro chegou a dizer em voz alta:
— Acho que tô precisando ir pra igreja!
E todos deram risadas, fazendo outras piadas e cantadas. Ela fazia de conta que não era com ela, olhando para a chuva na esperança de ela acabar, mas, pelo contrário, ficou mais forte, e ela entrou no bar.
Para não se passar por intimidada, foi até o balcão:
— O senhor tem café?
Um senhor de cabelos brancos e gordo paga um copo americano e, depois, pega a garrafa de café e serve para ela. As cantadas e piadinhas não param, e ela escuta tudo enquanto toma seu café. Na televisão em cima da geladeira velha, anunciava-se: "O meteorologista anuncia que esta será a noite mais fria dos últimos vinte anos."
Quando acaba o café, ela deixa o copo vazio em cima do balcão e se levanta.
— O banheiro fica ali — ela aponta para uma porta azul, pintada à mão. Logo que recebe a confirmação, vira-se para o rapaz da porta. — Você será o primeiro. Vem!
Sem acreditar, com todos se olhando, sem entender nada, ele se levanta.
— Fecha o bar!
Gritou ela enquanto caminhava para a porta.
Os dois se trancam no banheiro, com Celeste dando um riso quase diabólico, típico de criança que faz arte.
Ela sai novamente para a rua depois de algum tempo, vagando sem rumo. A chuva continua caindo forte. A noite parece não ter fim, e ela caminha como se procurasse alguma coisa que nem ela mesma soubesse nomear.
Uma viatura da polícia passa pela avenida e para ao perceber a mulher completamente molhada, chorando no meio da chuva.
O delegado olha para ela de cima a baixo.
— Estupro?
— Estupro? Não! Não...
Ela começa a gargalhar, e ninguém entende por quê.
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A NOITE MAIS FRIA DO ANO
General FictionA Noite Mais Fria do Ano reúne contos que atravessam as sombras da cidade e revelam histórias de pessoas comuns diante de situações extraordinárias. Entre crimes, fugas, amores, tragédias, injustiças e pequenos atos de sobrevivência, cada história m...
