I - Pequeno Dante

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O som distante e ritmado das risadinhas infantis preenchia o pátio da escola como uma música de fundo suave. Sentado no banco de madeira, o vento morno da tarde entrava pela sombra da amendoeira, trazendo aquele cheiro inconfundível do ambiente escolar: giz de cera derretido, papel offset barato e o perfume suave de sabonete infantil.

Nas minhas mãos, um monte de folhas de papel canson abrigava o universo particular de crianças de quatro anos. Passei os dedos pelas superfícies levemente rugosas dos papéis, sentindo o relevo da cera bem onde a pressão do braço pequeno tinha sido mais forte.

Alguns desenhos eram deliciosamente cômicos.
Eram círculos ligeiramente tortos com pernas saindo diretamente do que deveria ser a cabeça, olhos imensos feitos de pontinhos pretos e sorrisos de orelha a orelha desenhados em vermelho vibrante. Outros eram tão abstratos — verdadeiros emaranhados de linhas roxas e amarelas — que desafiavam até mesmo a minha experiência de anos tentando decifrar a mente daqueles pequeninos.

Minha vida era exatamente aquela. A rotina do sinal tocando, o cheiro de tinta guache, a bagunça dos estojos e, acima de tudo, a minha vocação. Ser professor de educação infantil nunca foi uma escolha financeira. O salário mal dava para cobrir as despesas básicas do mês e o desgaste físico no fim do dia deixava os ombros pesados, mas a sensação de ver uma criança segurar um lápis corretamente pela primeira vez ou os olhos deles brilhando ao entenderem uma história nova era algo que preenchia qualquer vazio interior.

Meus pais nunca esconderam a decepção. Eles sonhavam com um filho vestindo terno em um tribunal renomado, ostentando um diploma de Direito na parede. Por dois longos anos, tentei agradá-los. Sentava-me nas cadeiras frias da faculdade de Direito vendo as horas passarem como um fardo insuportável, sentindo um aperto constante no peito. Só me reencontrei, só respirei aliviado de verdade, no dia em que tranquei a matrícula e cruzei o portão da faculdade de Pedagogia. Foi ali que minha vida ganhou cor.

— Remy! Qual é a dinâmica da semana da sua turma?

O impacto de Malia se sentando abruptamente ao meu lado fez o banco de madeira ranger. O ar em volta dela parecia sempre em movimento, trazendo o cheiro doce do perfume floral que ela usava para tentar disfarçar o cansaço. Ela soltou um suspiro profundo e levou as mãos aos olhos, coçando-os até a pele ao redor ficar levemente avermelhada.

— Estou sem ideia nenhuma pra essa semana. Sério, minha cabeça tá um deserto — disse ela, com a voz embargada de quem adoraria estar tirando uma soneca no almoxarifado.

Voltei meu olhar para o desenho da pequena Sofia, onde a família dela era representada por cinco traços azuis e um cachorro cor-de-rosa maior que a própria casa.

— Estou trabalhando a memória afetiva deles — respondi, sem tirar os olhos da folha, deslizando o polegar sobre a borda do papel. — Hoje eles desenharam a família. Amanhã vão desenhar os avós e, no dia seguinte, os melhores amigos da sala.

— E depois? — perguntou ela, virando o rosto na minha direção.

— No final da semana, cada um vai colar seus desenhos em uma cartolina colorida para fazer um mural próprio.

Malia piscou algumas vezes, processando a informação como se eu tivesse sugerido uma expedição à Lua.

— O quê? Um mural inteiro para cada aluno? — a voz dela subiu um tom, expressando um choque genuíno.

Soltei uma leve risada soprada e finalmente olhei para ela, confuso com tamanha dramatização. Para mim, a ideia era simples e acolhedora. Queria que as crianças tivessem algo palpável, uma construção de vários dias que pudessem segurar com as duas mãzinhas orgulhosas no fim da sexta-feira e levar para os pais.

Reserva Bergen: DominicHistórias para pegar e não largar. Descubra agora