O envelope de textura fina cheirava a rosmaninho. Delfina abriu-o cuidadosamente. Pensou em guardá-lo, não só por ser perfumado e delicado, mas pelo lacre da casa real. Quantas feiticeiras teriam recebido uma carta do Príncipe Ÿoni?
As mãos tremiam-lhe e a cabeça fervilhava.
E se ele a tivesse avistado nos campos e se tivesse apaixonado por ela?
Ridículo.
Abanou a cabeça. Ridículo pensar assim quando, no dia anterior, sentia ódio pelas suspeitas que a corte alimentava contra a Ordem das Feiticeiras.
E se a estivesse a intimar para um interrogatório?
E se fosse ela a suspeita de matar as duas guerreiras da guarda imperial, caídas numa emboscada nas últimas semanas?
Baixou os olhos.
Uma ideia tonta. Delfina não era uma feiticeira poderosa. Não sabia transformar-se em gata ou em raposa, nem conseguia invocar a força que corria nas veias das mais fortes da sua Ordem.
Respirou fundo, desdobrou o papel craft, e começou a ler.
Não era a primeira vez que Delfina recebia uma carta, mas esta missiva era diferente em todos os aspetos. A começar pelo papel. A textura craft, a espessura e a cor eram personalizadas e pareciam mudar de aspeto conforme a perspetiva. O aroma era igual ao do envelope.
A tinta era de um tom castanho pastel e a letra, firme e de traços largos. Seria a mão do Príncipe-Regente?
Delfina sentiu-se alarmada e feliz com a mensagem curta e enigmática.
"Delfina De La Croix, o 'Oráculo' falou. O seu nome foi mencionado para uma missão de carácter urgente e vital para o Reino das Quatro Terras. Queira apresentar-se no Palácio Real às 16 horas de amanhã para uma audiência com o Príncipe Yoni. Traga um documento de identificação e esta carta.
O Reino conta consigo!"
A missiva estava assinada pelo Príncipe.
Pensou que não tinha roupa decente para se apresentar no Palácio e arrependeu-se desse pensamento.
A carta falava do "oráculo".
Para Delfina, não existia uma bruxa capaz de prever o futuro. Não passava de uma história para assustar crianças, mas agora que o "oráculo" lhe aparecia numa missiva do Príncipe-Regente, estava assustada. E se a lenda tivesse um fundo de verdade?
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As Cinzas de Würzburg
FantasíaDelfina nunca soube o que era ser poderosa. Não sabe transformar-se em raposa, nem sente a força que corre nas veias das feiticeiras mais fortes da sua Ordem. Mas o Príncipe Ÿoni escolheu-a - a ela, entre todas - para uma missão que o próprio Reino...
