DIA 1 - NEGAÇÃO

18 3 1
                                        


O barulho da chave girando na fechadura da porta de correr do estúdio Flor da Pele sempre teve um eco específico, mas hoje ele veio completamente abafado pelo som estridente das rodinhas de borracha de uma mala de grife arrastando contra o piso de cimento queimado.

Lia estava com o antebraço esquerdo completamente manchado de um azul cobalto teimoso que recusava a sair nem mesmo com aguarrás e esfregões vigorosos. Vestia uma camiseta preta de algodão pesado com a gola completamente esgarçada e o cabelo preso num coque alto e desleixado que ameaçava desabar a qualquer segundo, prendendo apenas por um lápis de desenho. Quando empurrou a pesada porta de vidro fosco para dar passagem à primeira mala preta de Clara, uma peça de design impecável que parecia uma ofensa direta àquele ambiente caótico cheio de flash tattoos, potes de tinta acrílica e o cheiro constante de sabão antisséptico, ela sentiu o estômago dar um giro falso, doloroso e conhecido.

— Cuidado com o batente dessa porta, Moura. Ele é meio torto e minhas caixas de livros de arquitetura não podem pegar nenhum tipo de umidade. - A voz de Clara ecoou pelo espaço, carregada daquele tom milimétrico e controlador que tentava, sem sucesso, esconder o pânico absoluto de quem estava com a vida inteira encaixotada em papelão.

Lia riu. Um som alto, rouco e espontâneo que saltou das paredes grafitadas do estúdio e subiu em direção à escada caracol de ferro preto que levava ao mezanino de quarenta metros quadrados, onde ficava sua casa.

— Relaxa, Clara da Lua. Meu estúdio pode ser um caos criativo, mas suas preciosidades estão perfeitamente a salvo sob a minha guarda. Quer um café ou já vai começar a planejar a distribuição das suas meias na minha gaveta de plástico?

— Engraçadinha! - Clara resmungou, passando pela porta carregando uma caixa de papelão visivelmente pesada demais para os braços finos, os óculos de grau escorregando pela ponte do nariz suado pela pressa e pelo calor abafado da tarde paulistana. Ela usava uma camisa social de linho cru que já começava a amarrotar feio nos cotovelos e a calça de alfaiataria impecável que agora parecia ironicamente formal demais para o chão batido do estúdio.

A cena inteira parecia surreal. Lia conhecia cada detalhe daquele cheiro: o perfume importado de lavanda e jasmim da Clara misturado agora ao aroma industrial de álcool isopropílico, vaselina sólida e borracha de luva de látex. Era bizarro. O cheiro da Clara era o cheiro da segurança da infância, dos lanches divididos na sétima série, dos perrengues da faculdade e das gargalhadas abafadas na madrugada. Só que agora aquele cheiro estava invadindo o ar do seu espaço particular. O santuário onde Lia costumava dormir sozinha, esticada em diagonal na cama king size, sem precisar prestar contas a ninguém sobre barulho, roncos sutis, o ritmo da própria respiração ou o som do próprio coração batendo desordenadamente no escuro.

Enquanto Clara desempacotava os primeiros itens de cozinha com uma urgência sem sentido na bancada minúscula da pia, Lia parou em frente à geladeira branca, velha e cheia de adesivos de bandas independentes e flash tattoos que colara ao longo dos últimos anos, localizada no térreo, bem ao lado da área de atendimento. 

Lá estava ele.

Colado bem no centro da porta, perfeitamente preso por um ímã em formato de pimenta vermelha que a mãe dela trouxera de viagem há exatamente dez anos, jazia o pedaço de guardanapo de papel amassado da cantina da faculdade. A mancha amarelada de café no canto inferior esquerdo ainda parecia intacta, como uma cicatriz antiga que nunca doía de verdade, mas que estava sempre ali para lembrar de onde as coisas vieram. A caligrafia trêmula, escrita com uma caneta Bic azul que falhava nas pontas, dizia em letras garrafais e meio tortas por causa da cerveja barata de garrafa:

30 DIAS EM 40 M²Historias para obsesionarse. Descúbrelo ahora