O convento cheirava a cera derretida e a tinta velha, um odor que se agarrava à garganta muito antes de eu transpor o portão. Já tinha estado em dúzias de sítios assim — celas de pedra fria, prateleiras cheias de pergaminho, o silêncio pesado de quem escreve para não esquecer. Conhecia o cheiro do medo por escrever misturado com o da devoção. Esta noite, como todas as outras, viera à procura de nomes.
A porta principal tinha um selo entalhado na madeira, tinta escura a espalhar-se em linhas rígidas — uma proteção, previsível, das que qualquer casa de Grafia usava para manter fora quem não fosse convidado. Aproximei-me, inclinei a cabeça, e deixei sair uma palavra que não pertencia a língua nenhuma conhecida — Vaol, grave, quase mais respiração do que som.
A tinta tremeu. Depois começou a desfazer-se, a escorrer para dentro de si mesma como se a madeira a estivesse a beber ao contrário — as linhas a encolherem, a perderem forma, até não restar mais do que uma mancha pálida, sem poder nenhum. Levou segundos. Levava sempre segundos, quando a escrita era simples assim. Empurrei a porta e entrei.
Foram os primeiros a aparecer — três, jovens, com a postura tensa de quem tinha treinado para isto mas nunca o tinha feito a sério. Traziam cadernos apertados contra o peito, cadernos de combate, as páginas ainda a brilhar com tinta fresca. Escreviam depressa, cada um debruçado sobre o seu, e quando terminaram, gritaram, ao mesmo tempo, a mesma palavra — Kaeth.
Do primeiro caderno ergueu-se uma coluna de fogo, alta, feroz, a rugir direita a mim. Não me mexi. Deixei que se aproximasse, deixei o calor chegar-me à pele, e só quando as chamas estavam a um passo deixei sair a palavra que a desfazia — Esharin, sibilante, quase um assobio. O fogo perdeu a cor primeiro, depois a forma, e desfez-se em fumo cinzento antes de me tocar.
Do segundo caderno dispararam-se uma dúzia de facas, giratórias, certeiras. Outra palavra, mais curta desta vez — Krev — e as facas ficaram sem gume no ar, caíram como metal derretido, inúteis, contra a pedra.
Do terceiro ergueu-se uma muralha de terra entre os três e mim — uma tentativa de proteção, tardia. Quase sorri. Deixei sair a última palavra, mais funda, mais longa do que as outras — Ossanor — e a muralha desmoronou-se em pó antes de terminar de subir.
Caminhei até eles com passo calmo, sem pressa nenhuma, como quem atravessa uma sala vazia. Os três recuaram, mas já não havia para onde. Desta vez não desfiz nada — deixei sair uma palavra diferente — Vaenneth — funda, sustida, quase cantada, e mantive-a enquanto os três corpos se erguiam do chão, apenas o suficiente para os pés perderem o contacto com a pedra. Os pescoços torceram-se, um som seco, quase simultâneo. Caíram inertes, os cadernos ainda presos nos dedos.
Senti uma pontada leve atrás dos olhos — a primeira da noite — e ignorei-a.
Avancei para uma sala mais interior, onde encontrei os escribas mais velhos — cinco ou seis, reunidos junto a uma mesa comprida, sem cadernos de combate, sem hipótese nenhuma de lutar. Não recuaram. Isso, ao menos, respeitei.
— Onde estão os registos de nascimento desta vila? — perguntei.
Um deles, o mais velho, ergueu o queixo. — Já queimámos tudo. Sabíamos que virias.
— Se sabiam que eu vinha — disse eu —, também deviam saber que é inútil esconder-me coisas. Eu acabo sempre por descobrir tudo.
Outro, mais novo, deu um passo à frente, a voz a tremer mas as palavras firmes. — A profecia é clara. Aqueles dois vão acabar contigo.
Inclinei a cabeça, quase com curiosidade. — Vamos ver.
Saí da divisão e fechei a porta atrás de mim. Deixei sair uma palavra baixa, quase gentil — Ashuun — e fiquei parado a ouvir. Do outro lado, o som das respirações começou a mudar — mais rápidas, mais rasas, o ar da sala a esgotar-se sem que nenhum deles compreendesse porquê. Esta palavra pesava mais do que as outras — tive de a segurar, sentir o seu peso a acumular-se atrás da testa, em vez de a deixar sair e esquecer. Olhei para a porta e deixei sair outra palavra, mais curta — Krisk — para selar a fechadura com um estalido seco. Ouvi-os tentar a maçaneta, ouvi unhas a arranhar madeira, ouvi o pânico transformar-se, devagar, em silêncio, enquanto a pressão atrás dos meus olhos não cedia.
Esperei até não haver mais som nenhum antes de continuar a procurar.
Vasculhei mais divisões — celas, uma biblioteca pequena, uma sala de cópia com penas ainda molhadas sobre a mesa — e não encontrei nada. Nenhum registo, nenhum nome, nenhuma prova de que a vila tivesse alguma vez registado os seus nascimentos. Achei que estavam a mentir. Continuei.
Foi numa cela ao fundo do corredor que o encontrei — um homem encolhido atrás de um baú, imóvel, a cabeça inclinada num ângulo que não seguia o som dos meus passos, mas ficava sempre um pouco atrás.
— Onde estão os registos de nascimento? — perguntei, a voz igual à que usara com todos os outros.
— Estavam na cave — disse o homem, sem se voltar na direção certa. — Mas eles queimaram tudo ontem. O cheiro era intenso.
Foi então que reparei: os olhos do homem, virados para um ponto qualquer à minha esquerda, nunca corrigiam a direção, por mais que eu me movesse.
— Vais-me matar também? — perguntou o cego, a voz mais firme do que o corpo.
— Não. Eu não mato inocentes. — Fiz uma pausa. — Foge daqui. Corre para longe.
Saí da cela sem olhar para trás.
Procurei mais algumas divisões, desfiz mais um par de selos e proteções menores por hábito, mais do que por esperança — cada palavra a deixar um resíduo leve sobre a dor que já não me largava —, mas o convento já não tinha nada para me dar. Saí para o pátio, para o ar frio da noite, e deixei sair uma última palavra, funda — Ossuvael — antes de me afastar dos portões.
O convento começou a arder atrás de mim. As chamas subiram depressa, alimentadas por tanto pergaminho e tanta madeira seca, e a luz alaranjada lambeu o céu, a única fonte de luz num raio de léguas.
Foi então que a dor me encheu a cabeça de vez — a mesma pontada que sentira ao torcer os primeiros pescoços, crescida agora numa onda apertada atrás dos olhos, que me fez parar a meio do passo. Praguejei baixinho contra mim mesmo. Tanta magia seguida, tantas palavras numa só noite; devia ter espaçado melhor, devia ter tido mais cuidado. Levei as mãos à cabeça, à espera que a dor passasse, e ergui os olhos para a lua — coberta, agora, por uma cortina fina de fumo.
Não encontrara o que viera buscar. Mas havia outras aldeias, outros conventos, outros registos por queimar antes de eu chegar.
Desapareci entre as árvores, e a floresta fechou-se atrás de mim como se nunca ali tivesse estado ninguém.
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Selo e Sopro
RomanceNuma terra onde a magia só pode ser escrita uma vez - cada palavra gasta a superfície que a guarda, para sempre -, duas Casas rivais vivem sob o peso da mesma profecia: da união dos seus herdeiros há de nascer quem estabiliza o mundo. Saelynn de Vae...
