A Primavera no Castelo Dolgorukova
A primavera havia finalmente vencido o inverno.
Depois de meses em que os jardins permaneceram cobertos por uma camada quase interminável de neve, abril chegara ao reino trazendo consigo uma mudança que parecia contagiar até mesmo as paredes antigas do castelo.
O gelo começava a desaparecer dos parapeitos de mármore. Pequenos riachos de água derretida percorriam as pedras do pátio, enquanto os primeiros brotos verdes surgiam entre os arbustos. As árvores, antes nuas e cobertas pela geada, começavam a se encher de pequenas folhas novas.
E, pela primeira vez em meses, as janelas podiam permanecer abertas.
O ar da manhã entrava pelos corredores trazendo o perfume das flores que começavam a nascer.
O castelo, entretanto, jamais ficava silencioso.
Mesmo nas primeiras horas do dia, havia movimento por todos os lados. Criados atravessavam os corredores carregando bandejas de prata, cestos de pão recém-assado e jarros de porcelana. Damas de companhia caminhavam apressadas com vestidos que roçavam suavemente contra o chão de mármore negro. Guardas permaneciam imóveis diante das portas das alas nobres, vestidos em seus uniformes escuros, com as mãos apoiadas sobre os cabos das espadas.
E, no meio daquela organização impecável, havia uma pequena criatura que parecia ter declarado guerra à ordem do castelo.
Adrian.
O garoto surgiu no final de um corredor correndo como se sua vida dependesse disso. Tinha os cabelos negros completamente desalinhados, alguns fios grudados na testa, e a camisa branca de linho estava parcialmente para fora da calça escura de cintura alta. Um pequeno risco de tinta atravessava sua manga direita.
Ele olhou para trás, se certificando que ninguém o seguia ou prestava atenção nele.
Continuou correndo como se sua vida dependesse disso (talvez dependesse)
— Jovem senhor Adrian!
Adrian arregalou os olhos.
— Ah, não...
Adrian retesou seu corpo esperando a bronca, mas viu a oportunidade perfeita.
Dois criados apareceram na extremidade do corredor.
O garoto imediatamente se jogou atrás de uma das grandes colunas de mármore e ficou imóvel como uma estátua de puro suor e caos.
Os criados passaram sem perceber sua presença, Adrian segurou a respiração.
Um segundo.
Dois.
Três.
Sorriu.
— Idiotas...
O menino tinha um sorriso vitorioso em seu rosto, traço típico da sua personalidade presunçosa.
Saiu detrás da coluna e continuou correndo, em direção a um lugar que ele poderia chegar de olhos vendados.
Passou por uma janela alta, onde a luz da manhã atravessava os vitrais e desenhava manchas coloridas sobre o chão. Ao longe, podia ouvir os sinos da pequena capela do castelo anunciando o início das atividades do dia.
Ele deveria estar na aula de literatura.
O simples pensamento fez seu rosto se contorcer.
Seu professor havia cometido o erro de mencionar, durante o desjejum, que as primeiras flores da primavera estavam começando a desabrochar, num tom desanimador e pesaroso.
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Corte Escarlate
FanfictionApós serem acusados de traição contra a Coroa, os pais de Adrian são executados, e o jovem príncipe é despojado de seus títulos e mantido no castelo como Jester da corte. Confinado à ala dos criados, Adrian cresce sob a sombra da desonra e da perda...
