No ritmo lento da estrada, entre os inúmeros pinheiros que caracterizavam a flora local, uma caminhonete vermelha se distinguia na densa vegetação da floresta.
O automóvel era conduzido por um homem de semblante sereno, cabelos curtos e grisalhos, e uma barba recém-feita, ainda impregnada pelo cheiro nauseante de loção pós-barba.
Os seus olhos castanhos - quase pretos - mantinham-se inertes no trajeto linear que parecia não ter fim, desviando-se, vez ou outra, para a figura melancólica ao seu lado. Uma garota de olhar cabisbaixo que, desde que pusera os pés para fora de casa naquela manhã, mantinha os fones de ouvido grudados ao corpo.
O homem pigarreou numa tentativa de lhe chamar a atenção; todavia, a garota continuou a ignorá-lo até o momento em que o carro parou diante de um cruzamento que os separava dos trilhos de um trem que vinha a todo vapor.
Com a sinalização da travessia ferroviária, Richard abaixou o vidro da janela e projetou a cabeça para fora do veículo, avaliando a distância do trem, cuja buzina se tornava cada vez mais ensurdecedora.
-Ele acha que sou surdo, por acaso? -comentou, olhando para a filha em busca de lhe arrancar qualquer tipo de reação. Pauline, no entanto, apenas balançou a cabeça, levando a mão aos cabelos, acariciando suavemente seus longos fios castanhos.
Ainda assim, Richard teceu mais alguns comentários antes de encostar novamente no banco de couro e observar o maquinário de ferro, carregando gigantescas toras de madeira, passar à sua frente.
Em um gesto impulsivo, o homem deslizou a mão por um dos porta-luvas do carro e retirou de lá alguns maços de cigarro, passando então a fuçar, no bolso de sua calça, o isqueiro de marfim que havia comprado recentemente de um colecionador boêmio de quinquilharias obsoletas.
Pauline observou o pai sacolejar o corpo, quase como se estivesse dançando no próprio lugar, até conseguir apanhar o isqueiro. Ao fazê-lo, Richard acendeu um dos cigarros e passou a fumar despretensiosamente, enquanto divagava sobre o restante do trajeto.
Pauline, por outro lado, permanecia em completo silêncio, mergulhada em pensamentos sombrios sobre a sua repentina mudança de cidade.
Nas últimas semanas, a sua vida havia mudado drasticamente, e tudo começara quando soube que o pai fora transferido para trabalhar em Nova Iorque. Apesar de ter tido alguns dias para se preparar, a realidade só a atingiu em cheio numa tarde chuvosa, quando um caminhão de mudanças parou diante de sua casa para levar parte dos móveis embora.
Ao que tudo indicava, essa mudança duraria mais tempo do que o previsto. Ainda assim, enquanto essa situação exigia um certo período de adaptação, Pauline seguiria com os estudos na pacata cidade de Dunvale - um lugar do qual pouco ouvira falar, exceto pelas menções ocasionais de sua tia Melissa, que vivia na região havia cerca de quatro anos.
Dunvale era como qualquer cidade pequena do interior: previsível e sossegada. Portanto, as expectativas de Pauline eram tão escassas quanto o seu conhecimento sobre o lugar. Apesar disso, ela tentou manter-se otimista. Contudo, quando precisou despedir-se dos amigos e arrumar as malas, o seu otimismo perdurou menos do que meia hora.
Sheila e Aaron, um casal de amigos que conhecia Pauline desde o ensino fundamental, comprometeram-se a telefonar todos os dias até que a garota se enjoasse deles. Logo, em meio ao vazio da estrada, tudo o que Pauline desejava era vê-los novamente.
Inevitavelmente, ao imaginar aquele cenário, um sorriso surgiu em seu rosto, captando a atenção de Richard, que, naquele momento, apagava a bituca do cigarro e se preparava para seguir viagem após a passagem do trem.
-Parece que alguém aqui lembrou como sorrir. -zombou, fazendo Pauline revirar os olhos.
-Não enche o saco! -a garota resmungou, com certa impaciência.
Richard gargalhou, e Pauline, ainda que um tanto comedida, acabou rindo também. Ela não sabia se, por ter soado grosseira, deveria compensá-lo de alguma forma, suavizando o clima, ou se aquilo era apenas uma necessidade de descontração. De todo o modo, aquela simples interação pareceu quebrar o gelo entre os dois.
Ao se recompor, Richard avaliou o humor da filha e, com isso, sentiu-se à vontade para iniciar uma conversa sem rodeios.
-Olha... eu entendo que não é fácil deixar uma vida para trás, Pauline. Mas lembre-se de que tudo isso é por um bem maior. Além do mais, Dunvale não é tão ruim assim. Você vai ver. -disse, sorrindo, numa tentativa de reacender o ânimo da filha.
Pauline, entretanto, encolheu os ombros e respondeu, quase em tom de súplica:
-Por que eu não posso ir com você?
Richard coçou o queixo com uma das mãos e suspirou, voltando toda a atenção para a estrada, antes de responder:
-Você sabe por quê. Já tivemos essa conversa, Pauline. Não posso te levar enquanto tudo não estiver encaminhado. -explicou, franzindo o cenho ao ter de enfatizar, mais uma vez, os motivos por trás daquela decisão. -Eu sei que não é fácil, mas preciso de um tempo para garantir que meu trabalho não dificulte nossa vida.
-Eu sei disso... -Pauline murmurou, lembrando-se das vezes em que o pai chegava em casa esgotado após horas exaustivas de expediente. -Mas continua sendo injusto... -frisou a adolescente, afundando no banco do passageiro.
Richard não conseguiu disfarçar a culpa que sentia, pousando a mão no ombro da filha, em um gesto de consolo:
-Eu prometo que irei compensar, filha! De verdade!
Pauline sorriu tristemente para ele, com os olhos marejados, antes de afundar em devaneios profundos.
Após incontáveis horas, as árvores que cercavam a estrada começaram, aos poucos, a rarear, dando espaço às primeiras construções de Dunvale. Pauline, instintivamente, saltou com os olhos para fora a fim de contemplar a nova paisagem que surgia diante de si, sem imaginar que aquele lugar se tornaria o epicentro de um mistério que mudaria a sua vida para sempre.
KAMU SEDANG MEMBACA
O Desaparecimento de Sarah Harrison
Misteri / ThrillerPauline Aimery, uma adolescente de 16 anos, se muda para Dunvale, uma pacata cidade que recentemente se tornou palco de um desaparecimento inexplicável envolvendo uma estudante chamada Sarah Harrison. Com a polícia prestes a encerrar as investigaçõe...
