O asfalto da 5th Avenue ainda estava molhado pela garoa fria de uma terça-feira cinzenta quando a fita chegou à varanda de Miles Morales.
Não havia bilhete. Apenas uma caixa de papelão cru, parda e sem marcas, amarrada com um cordal encerrado. Dentro, uma única fita cassete preta com um número escrito à mão com caneta vermelha: 1.
Naquele mesmo instante, a três quilômetros dali, o som dos armários batendo no Colégio Central de Nova York parecia o dobro do normal. O eco metálico preenchia os corredores onde heróis em potencial, mutantes e adolescentes comuns fingiam que o mundo lá fora - com seus portais dimensionais, ataques de supervilões e invasões alienígenas - era o menor dos seus problemas. O verdadeiro terror, afinal, acontecia debaixo daquele teto, longe dos olhos dos Vingadores, do Clarim Diário ou de qualquer conselho tutelar.
Gwen Stacy não estava mais lá para ver.
Duas semanas antes, o corpo da garota de cabelos platinados havia sido encontrado às margens do Rio Hudson. A versão oficial da diretoria, endossada por policiais cansados e um boletim médico protocolar, foi um choque seco: suicídio. Uma tragédia isolada. Uma mente brilhante que "não suportou a pressão".
Mas os corredores sabiam a verdade. Ou melhor, sabiam que havia partes da história que ninguém ousava sussurrar em voz alta.
Na sala de química do segundo andar, o cheiro de álcool etílico misturava-se ao suor e à tensão silenciosa. Sentado no fundo, Peter Parker - agora um estudante universitário estagiando como monitor de laboratório - apertava a caneta com tanta força que os nós dos seus dedos estavam brancos. Sua respiração estava curta, presa na garganta. Uma crise de pânico silenciosa, daquelas que faziam o peito queimar e o mundo ao redor girar em câmera lenta, ameaçava derrubá-lo ali mesmo. Ele conhecia Gwen. Ele tentara ajudar. E a culpa o corroía por dentro, um veneno invisível que ele tentava anestesiar com analgésicos escondidos no bolso da mochila.
Duas fileiras à frente, Johnny Storm ria alto de alguma piada estúpida, jogando uma bolinha de papel na direção de Harry Osborn. Harry apenas forçou um sorriso, os olhos vermelhos e fundos - a ressaca da noite anterior misturada com o pó branco que ele guardava no compartimento secreto da jaqueta da Oscorp para conseguir lidar com as cobranças do pai e o vazio sufocante que sentia no peito.
Ninguém olhava para o lugar onde Gwen costumava sentar. A carteira estava vazia, mas a presença dela pesava como chumbo.
Fora dos muros da escola, a cidade respirava caos. Em um beco escuro perto do campus, Robbie Reyes encostava no capô do seu Dodge Charger fumegante. O fogo azul e alaranjado do Motoqueiro Fantasma faiscava levemente em seu crânio sob a pele humana, reagindo não a um demônio ou a um mafioso, mas à densa aura de sofrimento acumulada naquele colégio. Robbie via o que o mundo ignorava: a dor dos inocentes quebrado por dentro, o eco de abusos físicos e emocionais abafados por grana, contratos de confidencialidade e medo.
E em uma cobertura de vidro e aço no Upper East Side, Tony Stark encarava os relatórios de segurança da fundação que patrocinava o colégio. Ele via os índices de absenteísmo, as denúncias anônimas de bullying que sua inteligência artificial havia interceptado e varrido para debaixo do tapete digital, e o nome de Gwen piscando em vermelho em uma lista de bolsas de estudo encerradas.
- Senhor - Jarvis pontuou friamente. - Os registros mostram que a senhorita Stacy fez três pedidos formais de ajuda à orientação escolar nos últimos quatro meses. Todos foram arquivados como "conflitos comuns de adolescência".
Tony fechou o notebook com força, o som seco cortando o silêncio do escritório. Ele sabia o que era o fundo do poço. E sabia que a máquina de moer carne que chamavam de sistema educacional americano acabara de tragar mais uma vida.
De volta ao quarto de Miles, o deck de som antigo que ele guardava como relíquia estalou. O botão Play foi acionado com um dedo trêmulo.
Um silêncio estático chiou nas caixas de som baratas. E entoou a voz dela. Clara, calma, mas carregada de uma fadiga que cortava a alma:
"Olá, ouvintes. Sou eu, a Gwen. Se você está ouvindo esta fita, é porque você é um dos motivos pelos quais decidi que não dava mais..."
Miles sentiu o ar sumir dos pulmões. A voz de Gwen ecoava pelo quarto vazio, transformando-se na primeira de treze fitas que revelariam, uma a uma, as cicatrizes invisíveis, os assédios normalizados, a violência psicológica, o medo constante e a descida lenta e dolorosa rumo ao abismo.
A fita número um não era sobre supervilões ou monstros cósmicos. Era sobre crueldade humana cotidiana. E o primeiro nome na lista... pertencia a alguém que Miles via todos os dias nos corredores da escola.
AVISO ⚠️
Essa fanfic pode conter temas sensíveis como:
Suicídio
Assédio
Abuso sexual
Bullying
Violência física e emocional
Depressão
Ansiedade/crises de Pânico
Ideção suicida
Abuso de substâncias legais e ilegais
ENTÃO SE VC TIVER ALGUM TIPO DE GATILHO PARE POR AQUI (ou continue por sua conta e risco)
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13 Fitas: A Verdade De Gwen Stacy
Hayran KurguDuas semanas após a morte de Gwen Stacy, Miles Morales recebe uma misteriosa caixa contendo uma fita cassete numerada. Sem entender o motivo, Miles aperta o play. A voz de Gwen surge do outro lado da gravação, revelando uma história que ninguém conh...
