Sempre falam que nossos sentidos ficam mais fortes quando nossos olhos estão fechados, que quando a escuridão domina tudo você tem que confiar em todos os seus outros sentidos. A visão às vezes é superestimada, mas acredito que acredito nisso porque todos os meus sentidos estavam em um 2x permanente.
Os sons eram mais altos, o brilho sempre forte demais, os toques me sobrecarregavam. Quando eu era criança e não sabia bem como reagir a tudo isso, meu instinto era chorar. Chorar pelas cores muito brilhantes, pelos cheiros sempre tão fortes e até mesmo pelos movimentos das patas de qualquer inseto. Não gosto de formigas e mosquitos até hoje porque sempre conseguia acordar com os pequenos sons.
Com o tempo fui me adaptando e entendendo que eu via o mundo de uma maneira completamente diferente dos outros. Crianças normais não podiam dizer quando iria chover só pela pequena mudança no cheiro e na pressão do ar; crianças normais não deviam conseguir ver uma abelha a mais de 10 metros de distância; crianças normais não deviam ser capazes de nada disso — e tudo era bem óbvio pela maneira como meus pais me tratavam.
Sempre tão preocupados, tão amorosos, tentando entender, mas falhando. Descobri com o tempo que apenas eu via o mundo daquela maneira: não eram apenas os meus sentidos, meus pensamentos também estavam permanentemente agindo em uma velocidade diferente.
Uma criança que observava mais do que devia, que via mais do que muitos adultos, que entendia conversas e as interpretava melhor do que pessoas "experientes". As cores, os sons e o contato ainda podiam ser demais às vezes, mas eu aprendi com o tempo a controlar e me adaptar. Era isso que eu era: uma adaptação em constante evolução. De uma criança chorona e isolada a alguém que podia se comunicar perfeitamente, sorria e brincava, sendo o futebol aquilo que finalmente me tirou daquela zona de conforto.
Onde eu fiz amigos de verdade, pessoas que, mesmo que não vissem o mundo como eu, ainda conseguiam me acompanhar de uma certa maneira, pelo menos nesses assuntos. Minha atenção sempre esteve no futebol desde que vi meu primeiro jogo. Os gritos da torcida não me sobrecarregavam; na verdade, pareciam me dar mais animação, esperança. Ver tanta gente em um só lugar e torcendo pela mesma coisa era realmente mágico.
Apesar do meu grande hiperfoco em futebol, eu nunca deixei isso me atrapalhar na escola. Como já foi dito, eu podia ver mais do que qualquer um e meu cérebro acompanhava isso, me dando uma grande facilidade na maioria dos assuntos. Meus pais estavam orgulhosos, meus amigos felizes e eu estava tão animado para o próximo jogo... Até que tudo deu errado e outra história começou.
Água batia rapidamente na minha pele e demorou para eu assimilar o que era... Chuva. Estava chovendo, o que era uma grande surpresa, já que eu nunca tinha sido pego de surpresa desde que tinha 4 anos de idade.
Eu nunca tinha sido pego por uma tempestade; foi a primeira coisa estranha que notei. A segunda foi o chão... Mole, frio, como se eu tivesse sido jogado em uma estrada de terra, bem no meio da maior tempestade de toda a minha vida.
A terceira coisa foram vozes, meio distantes, como se meu cérebro fosse um rádio analógico tentando captar um sinal em uma frequência totalmente errada. A quarta e pior foi a dor: meu corpo parecia ter sido atropelado por uma carruagem, meus braços e pernas pareciam estar completamente quebrados e eu tinha certeza de que devia ter algumas costelas quebradas.
A quinta foram estalos e então um grito, talvez vindo de mim ou das pessoas ao meu redor. Meus ossos pareciam estar sendo colados à força; o som grotesco de ossos quebrando e sendo remodelados sendo abafado pelo meu grito de dor.
A chuva e a lama se tornaram um assunto terciário, as vozes algo secundário; meus ossos sendo modelados como se fossem massinha de modelar ganharam totalmente a atenção.
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Orquestra do Caos
FantasyApós uma infância lidando com sentidos extremamente aguçados, Isagi Yoichi vê sua vida pacífica no futebol ser consumida por uma dor agonizante quando desperta reencarnado em um mundo vitoriano misterioso. Com o corpo remodelado sob a chuva, ele é a...
