Março, terceiro ano, um colégio inteiro de recomeços. Olívia tem cabelo rosa, um sorriso fácil e uma liderança que esconde inseguranças silenciosas. Carina tem tatuagens, olhar intenso e muros que construiu sozinha. Elas nunca se cruzaram. Até que q...
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O despertador tocou às seis e meia, mas Carina já estava acordada há pelo menos vinte minutos, olhando para o teto do quarto. Era um hábito que ela tinha: acordar, ficar imóvel, ouvir os sons da casa. O ronco do pai vindo do quarto ao lado. O barulho do vento batendo na janela. O silêncio que ficava nos cômodos onde a mãe costumava estar.
Ela se levantou, os pés descalços no chão frio, e foi direto para o banho. A água quente ajudava a despertar os músculos, a clarear a mente. Quando saiu, enrolou a toalha na cintura e encarou o próprio reflexo no espelho embaçado.
Passou a mão nos fios curtos e escuros, ajustando a mecha vermelha desbotada que teimava em cair sobre os olhos. As tatuagens nos braços pareciam mais vivas hoje, como se a pele quisesse contar histórias que Carina guardava só para si.
Desceu as escadas, e o cheiro de café já estava tomando conta da casa.
- Bom dia, filhona! - A voz rouca e animada do pai veio da cozinha, acompanhada do som de uma música alta tocando no rádio antigo que ele se recusava a trocar.
Carina entrou na cozinha e parou. Seu pai, João, estava de pé em frente ao fogão, uma espátula na mão, o cabelo comprido e bagunçado caindo sobre os ombros, a barba grisalha cheia de pelos brancos que ele jurava que davam "charme". Vestia uma camiseta preta de uma banda de rock dos anos 80, surrada de tanto usar, e uma bermuda jeans.
- Pai, você tá cozinhando? - Carina ergueu uma sobrancelha, o tom de voz grave e seco, mas os olhos brilhando com um afeto que ela não precisava disfarçar ali.
- Tô fazendo omelete, sua desconfiada. - Ele virou a frigideira com uma habilidade surpreendente. - E não foi você que disse que queria comer algo decente antes de ir pra escola? Eu sou um pai atencioso, Carina. Não me subestime.
Carina suspirou, mas não conseguiu conter o pequeno sorriso que escapou. Foi até a mesa, pegou o café que já estava pronto, e sentou.
- Onde você aprendeu a fazer omelete? - perguntou, desconfiada.
- YouTube. - João colocou o prato na frente dela com um sorriso orgulhoso. - Pode comer, não vou te envenenar. Ainda.
Carina deu uma risada baixa, quase inaudível, e pegou o garfo. O omelete estava... surpreendentemente bom.
- Não é horrível.
- Tradução: é ótimo, seu pai é um gênio, muito obrigada. - João sentou ao lado dela, pegando sua própria xícara de café. - Como foi ontem, filha? Primeiro dia. Conheceu gente nova? Fez amigos?
Carina mastigou devagar, pensando na resposta. Não, não tinha feito amigos. Não tinha falado com ninguém. Mas isso era normal. Ela nunca falava com ninguém. Não era um problema. Era só como as coisas funcionavam.
- Foi normal. - Respondeu, o tom neutro. - As aulas começaram. Nada demais.
João a observou por um momento, os olhos castanhos cheios de uma sabedoria que ele raramente exibia. Desde que Célia, a mãe de Carina, tinha falecido, quatro anos atrás, ele tinha aprendido a ler a filha como quem lê um livro em outra língua - com esforço, mas com amor.