Prólogo

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Quatro anos atrás...

​O silêncio do necrotério era diferente de qualquer outro. Não era a paz de uma noite tranquila; era um silêncio pesado, frio, que preenchia o ambiente com a promessa de verdades que nunca seriam ditas. O cheiro agressivo de antisséptico tentava, sem sucesso, mascarar a realidade da morte.

​Park Jimin sentia que suas pernas não passavam de dois blocos de cimento. Ele caminhava ao lado dos pais, os passos ecoando dolorosamente no chão de azulejos brancos. Sua mãe estava desolada, amparada pelo pai, que mantinha uma expressão de pedra, uma máscara de dor contida que Jimin conhecia bem. Ele, no entanto, não conseguia se dar ao luxo de quebrar. Não ainda.

​Quando chegaram à gaveta de metal, o legista, um homem de expressão cansada, olhou para a família com uma simpatia profissional. Com um aceno sutil, ele puxou a bandeja.

​O mundo de Jimin parou.

​Lá estava ela. Park Mi-jin. Sua irmãzinha. A garota de 23 anos que deveria estar se formando na faculdade, que amava desenhar e que tinha o sorriso mais brilhante que ele já vira. Ela parecia estar apenas dormindo, mas a palidez de sua pele e a imobilidade absoluta contavam outra história.

​- Causa oficial: infarto agudo do miocárdio - a voz do legista soou distante, como se viesse debaixo d'água. - Uma fatalidade infeliz, dada a idade, mas o estresse e a ansiedade severa podem ter sido fatores contribuintes...

​Enquanto seus pais choravam a perda, algo dentro de Jimin se recusava a aceitar aquela explicação. Fatalidade? Infarto? Mi-jin estava melhorando. Suas últimas cartas eram cheias de esperança. Ela não teria um infarto.

​Ele se aproximou do corpo, cada fibra do seu ser gritando em protesto. Ele precisava vê-la uma última vez. Precisava de uma despedida. Seus dedos, trêmulos, tocaram a mão fria de Mi-jin. E foi então que ele viu.

​Sua mão parou no ar. O legista já estava prestes a fechar a bandeja, mas Jimin o deteve com um gesto brusco. Seus olhos se estreitaram, focando em um detalhe que todos pareciam ter ignorado.
​No pulso esquerdo de Mi-jin, escondido sob a manga do lençol, havia uma marca. Não era uma cicatriz antiga, nem um hematoma comum. Era uma marca pequena, circular, uma cicatriz recente e estranha, quase como um pequeno "O" ou um eclipse estilizado, perfeitamente definido na pele.

​- O que é isso? - a voz de Jimin saiu rouca, quase um sussurro.
​O legista olhou, surpreso pela interrupção. - Oh, isso? Deve ser um pequeno angioma ou talvez uma marca de nascença que não tínhamos notado... Não é relevante para a causa da morte, detetive.

​Jimin olhou para a marca novamente. Ele a conhecia. Tinha certeza de que Mi-jin não tinha aquilo antes de ser internada no Saint Aurora. Não era uma marca de nascença. Era algo novo. Algo que ela levara consigo para a morte.

​Naquele momento, enquanto a bandeja era empurrada de volta para o frio da gaveta, a dor do luto em Jimin foi, por um instante, superada por uma certeza fria e cortante.

​Não fora um infarto.

​Aquela marca não era um acidente.

​O Saint Aurora não era o refúgio que prometia ser.

​Enquanto seus pais o puxavam para sair, Jimin olhou uma última vez para o local onde a irmã estivera. A dúvida que nascera em seu peito agora era uma promessa silenciosa: ele não pararia até descobrir o que aquela marca significava. E o que realmente tinha acontecido com Park Mi-jin atrás das paredes silenciosas do Saint Aurora.

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