1. sinal vermelho

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Dirigir em São Paulo era uma experiência fudida e que exigia uma paciência que eu não tinha.

Não importava a hora, o dia ou o caminho que o waze me mandasse, sempre tinha um acidente, uma obra, ou a porra de um carro quebrado...

Naquela noite, pelo menos, eu tinha aceitado o meu destino. Não tava mais com pressa. Eu só queria chegar em casa, tomar banho e pedir alguma coisa para comer.

O problema era que o trânsito fazia a minha cabeça começar a pensar em coisas aleatórias. Eu passava alguns minutos prestando atenção na rua e, de repente, estava tentando lembrar se tinha fechado alguma janela em casa ou me perguntando por que todo motorista diminuía a velocidade para olhar um acidente do outro lado da avenida.

Eu também olhava. Então não tinha nem moral pra reclamar.

O sinal fechou quando eu era o primeiro carro da fila.

Parei perto da faixa de pedestres e apoiei a mão no câmbio, esperando a contagem começar. Na calçada, um pombo caminhava entre as pessoas como se também estivesse voltando do trabalho.
Ele não desviava de ninguém e parecia saber exatamente para onde estava indo.

E era nisso que eu tava reparando quando uma moto parou do meu lado.

Nem estranhei. Em São Paulo, motos andam coladas com os carros o tempo todo. Só percebi que tinha alguma coisa errada quando o cara que estava na garupa desceu e veio direto até a minha janela.

Ele bateu no vidro com a arma.

O barulho foi tão forte que meu corpo inteiro encolheu. Olhei pra ele e, por alguns segundos, não entendi porra nenhuma. Eu enxergava o capacete, a arma e a boca dele se mexendo atrás da viseira, mas nada parecia fazer sentido.

— Sai do carro! Sai!

Fiquei parado.

Eu nunca tinha sentido tanto medo na minha vida. Não era aquele medo que dá vontade de correr ou de gritar. Era um medo que desligava tudo.

— Sai dessa porra, caralho!

Me veio um pensamento instrutivo de só travar o carro, torcer pro sinal abrir logo e sair a acelerando. Parecia um bom plano, tirando que ele tava com uma arma apontada pra mim.

Olhei para o botão da trava e aproximei a mão dele. Senti meu braço esbarrando no limpador de para-brisas.

É lógico que eu faria uma burrice dessa. Era minha cara morrer com um tiro na cara porque o bandido perdeu a paciência comigo porque eu liguei o limpador de para-brisa no meio do assalto.

O homem de fato ficou impaciente e abriu a porta do carro. Ele soltou meu cinto com muita facilidade e me puxou pelo braço pra fora do carro.

— SAI!

Meu tênis prendeu na lateral da porta, e eu caí de joelhos no asfalto. Apoiei a mão para não bater o rosto e senti a pele da palma raspar no chão. O cotovelo veio logo depois.

A dor subiu pelo meu braço, mas eu mal consegui reagir.

Quando olhei para cima, ele já estava sentado no meu lugar. A moto arrancou primeiro, e meu carro saiu logo atrás, atravessando o sinal vermelho.

Eu vi os dois desaparecerem na avenida.

Não corri atrás. Não gritei. Não lembrei de decorar a placa, a roupa, o capacete ou qualquer informação minimamente útil.

Não consegui fazer porra nenhuma.

Fiquei ajoelhado no asfalto, olhando para o lugar onde o carro tinha estado poucos segundos antes.

trânsito - pedro orochiStories to obsess over. Discover now