We've updated our Content Guidelines.
Review the latest guidelines to keep sharing stories safely.

Capitulo 1

29 0 0
                                        


A névoa matinal sobre os jardins do Palácio de Lumina costumava trazer paz a Alistair, mas naquela manhã de outono, o ar fresco parecia pesar em seus pulmões como chumbo. Ele estava parado diante da grande janela de carvalho do gabinete real, observando os campos dourados que se estendiam até onde a vista alcançava. Terras fartas, repletas de flores, artes e vida — mas desprovidas da força militar necessária para defender a si mesmas.
— O tempo está se esgotando, meu filho.
A voz do Rei Julian ressoou pelo cômodo. Ele parecia ter envelhecido dez anos desde que as negociações com o Norte começaram. O monarca se aproximou do filho, pousando uma mão pesada e trêmula sobre o ombro delicado de Alistair.
— Eu sei, meu pai — Alistair respondeu baixinho, sem desviar os olhos do horizonte. — As carruagens já estão sendo preparadas, não estão?
— Estão. Em três dias, você partirá para Eldoria — disse o rei, soltando um suspiro profundo e doloroso. — E antes que você pise naquelas terras de pedra escura e frio inclemente, preciso ter certeza de que você compreende a gravidade do tratado que selamos. Não haverá margem para erros.
Julian caminhou até a mesa de madeira maciça e desdobrou o pergaminho selado com a cera vermelha do brasão das duas nações.
— Eldoria é uma potência militar implacável. Eles têm a cavalaria pesada, os guerreiros e o aço. Lumina tem a fartura e a diplomacia, mas a diplomacia de nada serve quando os exércitos do Norte decidem marchar. Este casamento entre você e o Príncipe Kaelen, o alfa primogênito e herdeiro do trono de Eldoria, é a única coisa que impede a nossa destruição.
Alistair engoliu em seco. Ele já tinha ouvido histórias sobre Kaelen. Diziam que o herdeiro do Norte era um guerreiro impecável em campo de batalha, mas um homem arrogante, impetuoso e dominado pelo próprio ego.
— E o tratado... quais são as cláusulas exatas? — perguntou Alistair, embora no fundo já soubesse a resposta.
— A Cláusula do Herdeiro é a mais severa de todas — o Rei Julian encarou o filho com o olhar cortado pela culpa. — O matrimônio não é apenas uma formalidade política, Alistair. O tratado exige que o casamento dê frutos em até um ano. Trezentos e sessenta e cinco dias. Se dentro desse prazo você não gerar um herdeiro de sangue real para unir as duas linhagens, o casamento será considerado nulo e dissolvido.
— E se for dissolvido...?
— Se for dissolvido, a aliança ruirá no mesmo instante — a voz do rei fraquejou. — Eldoria terá o direito legal e histórico de marchar suas tropas sobre as nossas fronteiras. Lumina será invadida, dividida e anexada. O destino do nosso povo, da nossa história e das nossas famílias depende exclusivamente da gestação desse herdeiro.
Alistair fechou os olhos por um momento, sentindo um frio doloroso percorrer sua espinha. Ele tinha apenas dezoito anos, um ômega jovem e delicado que sonhava em encontrar um companheiro para compartilhar a vida, não para ser vendido como uma garantia de paz. Mas ao pensar nas crianças e nas famílias de Lumina, sua postura se ergueu. A resiliência, silenciosa mas inabalável, acendeu-se dentro de seu peito.
— Eu farei o que for preciso, pai — disse ele com firmeza na voz, apesar do aperto no peito. — Se tenho que me deitar com o Príncipe Kaelen e dar a ele um herdeiro para salvar Lumina, eu o farei. Não me importo com a frieza dele ou com o que terei que suportar.
— Há outro detalhe que você precisa saber sobre a corte deles — continuou o pai, aproximando-se novamente. — As leis do Norte sobre a sucessão são antigas e rígidas. O Rei de Eldoria estabeleceu que o trono só será herdado por um filho que mantiver um casamento digno de linhagem real e que garanta a descendência do reino. Kaelen é o primogênito, mas não é a única opção deles.
— O irmão dele... — Alistair murmurou, lembrando-se dos relatórios dos diplomatas.
— O Príncipe Valerius — confirmou Julian. — O irmão do meio. Comandante da Guarda Real, um alfa imponente, disciplinado e temido nos campos de batalha. A lei de Eldoria permite o Desafio de Liderança. Se Kaelen demonstrar ser indigno, deshonrar publicamente a aliança real ou falhar em cumprir suas obrigações como consorte, o conselho e o rei podem retirar seus direitos ao trono e transferir a responsabilidade da sucessão — e o matrimônio — para Valerius.
Alistair ouvia cada palavra com atenção. A corte de Eldoria não era apenas um castelo distante; era um ninho de cobras políticas.
— Além disso, meus espiões na corte do Norte trouxeram avisos — disse o Rei Julian, baixando a voz. — Kaelen já mantém um companheiro no castelo. Um ômega chamado Cassian. Ele não tem sangue nobre, é filho de comerciantes sem relevância, mas é extremamente manipulador e mesquinho. Kaelen é completamente cego por ele. Cassian sabe que a sua chegada e a cláusula do herdeiro ameaçam a posição de poder que ele construiu ao lado de Kaelen. Ele não medirá esforços para infernizar a sua vida e tentar fazer você falhar.
Alistair suspirou, sentindo a dimensão do pesadelo que o aguardava. Ele iria para um reino frio, onde seu futuro marido o desprezava e preferia os braços de um amante ambicioso. Teria um prazo de um ano rodando como uma ampulheta sobre sua cabeça, um ômega mesquinho tentando sabotá-lo a cada segundo, e a sombra de um comandante alfa imponente observando cada passo daquela crise.
Mesmo assim, Alistair endireitou as costas, olhando nos olhos do pai com uma determinação impecável.
— Deixe que tentem me quebrar, pai. Eu sou o Príncipe de Lumina. Carregarei esse fardo pelo nosso povo, e trarei o herdeiro que garantirá a nossa paz.
O Rei Arnold abraçou o filho com força, escondendo as lágrimas de dor e orgulho no ombro do jovem ômega. Três dias depois, as carruagens de Lumina cruzavam as fronteiras, deixando para trás os campos ensolarados do Sul em direção às fortalezas de pedra sombria de Eldoria.

Todo seu explendor Stories to obsess over. Discover now